Pesquisa mostra que os bons alunos não querem mais seguir o magistério - um desastre para o ensino
Alunos de ensino médio: eles são desencorajados em casa de optar pelo curso de pedagogia
Um bom termômetro para aferir o prestígio de uma profissão é o número de jovens que a assinalam como primeira opção na hora do vestibular. Por esse medidor, a carreira de professor, que décadas atrás foi um símbolo de status, nunca esteve tão em baixa.
Uma nova pesquisa, conduzida pela Fundação Carlos Chagas a pedido da Fundação Victor Civita, chama atenção para o problema, trazendo à luz um dado preocupante: às vésperas de ingressarem na universidade, apenas 2% dos estudantes brasileiros pretendem seguir o magistério - opção que os outros 98% já descartaram.
No levantamento, baseado numa amostra de 1 500 alunos de ensino médio em escolas públicas e particulares de todo o país, o curso de pedagogia patina na 36ª colocação, entre as sessenta carreiras que hoje mais exercem fascínio sobre os jovens - lista encabeçada pelas áreas de direito, engenharia e medicina.
Agrava o cenário saber que esses poucos que ainda optam pela docência se concentram justamente no grupo dos 30% de alunos com as piores notas na escola. Pouco disputado, o curso de pedagogia significa, para a imensa maioria dos estudantes, a única porta de entrada possível para o ensino superior - e não uma carreira de que realmente gostam.
Conclui a especialista Bernardete Gatti, coordenadora da pesquisa: "Sem atrair as melhores cabeças para as faculdades de pedagogia, o Brasil jamais conseguirá deixar as últimas colocações nos rankings de ensino".
A situação de desprestígio da carreira de professor é o retrato final de um processo deflagrado na década de 70, quando se iniciou no país uma acelerada massificação do ensino público.
Sem profissionais em número suficiente para suprir a galopante demanda, as escolas passaram a recrutar até leigos para dar aulas. Foi aí também que as faculdades de pedagogia e as licenciaturas proliferaram à revelia da qualidade acadêmica, e os salários começaram a cair.
A remuneração dos professores é, por sinal, o segundo fator elencado pelos jovens de hoje para nem sequer cogitarem o magistério, atrás de um item que se refere à completa falta de identificação com o ofício, segundo mostra a pesquisa da Fundação Carlos Chagas.
Os estudantes contam ainda que são desencorajados pelos próprios pais de fazer essa opção. Boa parte dos entrevistados chega a afirmar que a família "jamais aceitaria tal escolha profissional".
Países onde o ensino prima pela excelência, como Coreia do Sul e Finlândia, encontraram bons caminhos para atrair os alunos mais brilhantes às faculdades de pedagogia - experiência que pode ser útil também ao Brasil. Ela indica que elevar o salário dos professores é apenas uma das estratégias eficazes, mas não a de maior impacto.
O que realmente suscita o fascínio dos melhores alunos pela docência diz respeito, acima de tudo, à possibilidade descortinada pela carreira de verem seu talento reconhecido e sua capacidade intelectual estimulada.
Nesse sentido, distinguir os profissionais de melhor desempenho em sala de aula, com iniciativas como bônus no salário e mais responsabilidade na escola, tem sido, há décadas, um potente motor de atração para a carreira de professor mundo afora.
O Brasil precisa aprender a lição.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:52 AMComments:
Diogo Mainardi
A era do cacarejo
"Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós"
Rimbaud espancava Verlaine. Eu invejo Rimbaud. Eu gostaria de ter espancado Verlaine. Eu gostaria de ter espancado qualquer poeta simbolista. Verlaine vingou-se alguns anos mais tarde, num quarto de hotel, dando dois tiros em Rimbaud. Eu também invejo Verlaine. Ele tinha apenas má pontaria.
A editora Topbooks, depois de publicar os poemas de Rimbaud, agora publicou suas cartas, otimamente traduzidas e comentadas por Ivo Barroso. O primeiro lote de cartas mostra Rimbaud e Verlaine espancando um ao outro e atirando um no outro.
Qual é o interesse disso? Para mim, nenhum. Eu poria os dois na cadeia. De fato, os dois foram parar na cadeia. O que realmente interessa é o segundo lote de cartas, escritas a partir de 1875, quando Rimbaud abandonou a poesia e passou a perambular de um lado para o outro.
Num intervalo de apenas dezesseis anos – ele morreu em 1891 –, Rimbaud fez tudo o que uma pessoa dotada de um pingo de senso de dignidade quereria fazer: foi embora de Paris, que é uma cidade de maricotes; entranhou-se no deserto etíope, contraindo uma série de enfermidades; comercializou camelos e escravos;
ganhou dinheiro e perdeu dinheiro; negociou armas dos mais variados calibres, permitindo o massacre de um monte de gente inocente; pegou um tumor no joelho e teve a perna amputada; morreu sozinho em Marselha, com muitas dores e pedindo ajuda a Deus, que caprichosamente se recusou a ajudá-lo.
Os poetas simbolistas, no tempo de Rimbaud, faziam uma grita danada. Eles se reuniam nos bares e bradavam seus versos. Nem quando eram espancados eles se calavam. Hoje é muito pior. A grita aumentou descomunalmente. Há gente demais papagaiando ao mesmo tempo.
Estamos cercados de poetas simbolistas. Eles se espalharam por todos os cantos e se acotovelam brutalmente para conseguir recitar uns decassílabos. O presidente da República é um poeta simbolista. O chefe de cozinha é um poeta simbolista. Até o poeta simbolista é um poeta simbolista.
Em 1875, depois de levar dois tiros de Verlaine, Rimbaud afastou-se disso tudo. Ele simplesmente resolveu parar de cacarejar e de ouvir o cacarejo alheio. Numa de suas cartas, de Aden, ele aparece encomendando alguns livros. De poesia simbolista? Ao contrário. Ele encomenda o Livro de Bolso do Carpinteiro, o Manual do Vidraceiro e o Álbum das Serrarias Agrícolas e Florestais.
Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós. Ele é um modelo para o presente.
Em suas cartas, Rimbaud mostra que temos poetas simbolistas de mais e carpinteiros de menos. Ele mostra que temos poetas simbolistas de mais e vidraceiros de menos. Eu pergunto: já encomendou seu Livro de Bolso do Carpinteiro?
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:51 AMComments:
A depressão em preto e branco
Um novo livro compara o efeito dos antidepressivos modernos com o de pílulas de placebo e chega à surpreendente conclusão estatística de que eles se equivalem. Mas a complexidade da mente e de suas doenças não se mede por números
Naiara Magalhães e Daniela Macedo - Montagem com fotos de Ada Summer/Corbis/Latinstock
De tempos em tempos, pesquisas e livros amparados em bases científicas mais ou menos sólidas são lançados com um mesmo propósito: revelar a verdade sobre a indústria farmacêutica.
Segundo seus autores, os laboratórios enriquecem (e muito) vendendo remédios pouco (ou nada) eficazes. Há duas semanas, chegou às livrarias dosEstados Unidos The Emperor’s New Drugs: Exploding the Antidepressant Myth (O Império das Novas Drogas: Explodindo o Mito dos Antidepressivos, em tradução livre), do psicólogo americano Irving Kirsch.
Em 226 páginas, ele tenta provar que a bilionária indústria dos antidepressivos foi construída e se mantém graças ao efeito placebo. Ou seja, milhões de pessoas ao redor do mundo gastam 20 bilhões de dólares todos os anos em remédios cuja eficácia equivale à de um comprimido de farinha.
Ao longo dos últimos quinze anos, Kirsch fez a compilação de 57 estudos sobre o tratamento de pacientes deprimidos. Pela fria análise das estatísticas, a teoria do psicólogo soa (de fato) como uma bomba e pode levar à perigosíssima conclusão de que o tratamento da depressão dispensa a ajuda dos medicamentos.
"Há casos em que o antidepressivo é imprescindível para tirar o paciente do estado de letargia típico da doença, fornecendo-lhe energia para lutar contra ela", diz a psiquiatra Fernanda Martins Sassi, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Deixada a seu próprio curso, a depressão machuca, incapacita para as atividades cotidianas, destrói laços afetivos, solapa a autoestima e pode culminar em suicídio.
O primeiro passo de Kirsch rumo ao que ele julga ser a explosão do "mito dos antidepressivos" foi o artigo "Listening to Prozac but hearing placebo" ("Ouvindo o Prozac, mas escutando placebo"), publicado em 1998, na revista Prevention & Treatment, da Associação Americana de Psicologia. Aqui, um parêntese.
O título do trabalho tem um quê de provocação, uma espécie de resposta ao best-seller Ouvindo o Prozac, do psiquiatra americano Peter Kramer, sobre as benesses do antidepressivo tido como a "pílula da felicidade".
A partir da metanálise de dezenove pesquisas, com 2 300 pacientes diagnosticados com depressão, Kirsch chegou à conclusão de que apenas 25% da melhora obtida com antidepressivos está associada à substância ativa do remédio. O restante deve-se em grande parte ao efeito placebo – e, em menor escala, à evolução da doença. Em 2002, Kirsch juntou outros 38 estudos ao trabalho anterior.
Com a nova compilação, o índice de eficácia proporcionado pelos antidepressivos caiu para 18%. Seis anos mais tarde, o psicólogo reconheceria a superioridade dos medicamentos de verdade para os casos de depressão muito grave. Mas, ainda assim, a vantagem dos antidepressivos sobre o placebo seria pequena (veja o quadro).
Na realidade, as metanálises de Kirsch não revelam nenhuma novidade. O efeito placebo é conhecido e descrito desde o século XVIII e não pressupõe apenas a administração de uma substância inerte. Um médico atencioso, um exame diagnóstico e o otimismo do doente em relação ao tratamento contribuem sobremaneira para a sua recuperação. Quanto maior o componente psicológico de um distúrbio, maior será a sua suscetibilidade ao efeito placebo.
Como tal, a depressão não escapa à regra. Os mecanismos biológicos envolvidos no efeito placebo ainda não foram completamente compreendidos, mas uma das hipóteses mais aceitas é que ele seria deflagrado pela liberação de endorfina, um analgésico produzido pelo próprio organismo, e de dopamina, substância capaz de fazer o cérebro repetir processos prazerosos – como a melhora de uma doença.
No caso da depressão, a cascata química desencadeada pelo efeito placebo atua diretamente nos mecanismos psíquicos que estão na origem da doença – a autoestima do paciente, suas expectativas em relação à vida, sua disposição física e mental...
"O efeito placebo tem eficácia terapêutica", diz o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Portanto, é difícil, sobretudo no campo da psiquiatria, determinar com precisão o que é resultado da intervenção química do remédio e o que é produto de seu efeito placebo.
Escreve o médico canadense Grant Thompson, no livro The Placebo Effect and Health (O Efeito Placebo e Saúde): "O efeito placebo não é um inimigo". Em entrevista a VEJA, o psicólogo Kirsch defende: "Eu concordo plenamente que o efeito placebo é importante. Mas, se um remédio apenas evoca o efeito placebo, não deveria ser usado".
Não é o caso dos antidepressivos. Nove especialistas ouvidos por VEJA, entre psiquiatras, neurocientistas, farmacologistas e psicanalistas, são peremptórios em dizer que uma diferença de eficácia da ordem de 18% ou 25% entre a ação de um medicamento e a do placebo não é pouca coisa.
"Para um deprimido grave, é o que pode fazer toda a diferença", diz o psicofarmacologista Elisaldo Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo. Descobertos nos anos 50, os remédios contra a depressão têm por objetivo restabelecer a química cerebral de modo a que as pessoas consigam enfrentar a vida cotidiana e seus problemas. Imagine um par de óculos com as lentes embaçadas...
O antidepressivo é aquele pedacinho de pano usado para limpá-las, desanuviando a mente. "Nos casos mais graves, o remédio funciona como um curativo, que protege a ferida", explica a psiquiatra Laura de Andrade, da Universidade de São Paulo. "Com ele, o doente consegue seguir o dia a dia sem se machucar ainda mais."
A mais comum das doenças psiquiátricas, a depressão ainda desafia a medicina. Suas origens biológicas e suas causas não foram totalmente desvendadas. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que a doença surgia da carência no cérebro de neurotransmissores, associados às sensações de prazer, autoconfiança, apetite e libido, entre outras.
A hipótese mais aceita hoje é a de que a depressão está ligada ao mau uso que o cérebro faz de tais substâncias (veja o quadro). O tratamento também não é simples. Ao contrário. Há de se levar em conta os vários tipos de depressão e as inúmeras substâncias antidepressivas no mercado – há pelo menos sessenta delas à venda no Brasil.
Descobrir o medicamento mais adequado a cada paciente é um trabalho, na maioria dos casos, de tentativa e erro. Apenas 37% dos doentes encontram alívio com o primeiro remédio prescrito por seus médicos.
"Nos estudos que serviram de base às metanálises de Kirsch, é possível, por exemplo, que pacientes incluídos em pesquisas com inibidores seletivos de recaptação de serotonina reagissem melhor a outras classes de antidepressivos", diz o psiquiatra Valentim Gentil Filho, da Universidade de São Paulo. Além disso, pacientes com quadros depressivos semelhantes podem responder de forma completamente distinta a um mesmo tratamento.
Por causa de tamanha complexidade, fica difícil tomar ao pé da letra os resultados das análises feitas por Kirsch. As nuances do tratamento da depressão são, em geral, mais bem compreendidas na prática clínica que nas revisões estatísticas.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:51 AMComments:
Beyoncé - Ela está no comando
A atriz, cantora e compositora americana se tornou o maior fenômeno da música pop atual com uma fórmula inusitada: feminismo, sensualidade e bom comportamento
Livia Deodato com Luís Antônio Giron, Mariana Shirai e Rafael Pereira
George Holz
PARA QUEM PODE
A cantora Beyoncé Knowles desafia o machismo com altas doses de sensualidade
Beyoncé Giselle Knowles paga suas próprias contas. Pinta as unhas, arruma o cabelo, vai para festas com as amigas... e deixa o namorado em casa. Veste roupas sensuais, dança e canta de forma provocante: “Você está olhando como se estivesse gostando. Por que não levanta e vem falar comigo?”. Hipnotiza, encanta e assusta: “Eu vou te deixar ficar comigo. Só não seja impertinente”.
Para os que não entenderam o recado, ela aponta a caixa que deve ser usada para juntar os pertences e desaparecer de sua vida (“a da esquerda, da esquerda”). Também avisa a esses infelizes que quem gosta mesmo coloca um anel em seu dedo – como fez o astro rapper Jay-Z. Beyoncé está no comando. Há uma década. A texana de 28 anos, considerada a maior cantora pop do momento, cumpre o que canta.
E o que canta representa um novo poder feminino, em forma de música pop. Ela faz parte de uma linhagem de estrelas musicais que desafia o domínio masculino, de Tina Turner a Lady GaGa, passando por Madonna. No auge da carreira, Beyoncé chegou ao Brasil para mostrar do que a mulher da primeira década dos anos 2000 pode – e deve – ser capaz.
A cantora desembarcou na quinta-feira, em Florianópolis, poucos dias depois de ter lançado seu primeiro perfume – Heat (calor) – e feito a festa na 52a edição do Grammy: levou seis dos dez troféus que disputava, feito inédito para uma artista mulher. Trouxe o marido, Jay-Z, e o pai, Matthew Knowles.
Escoltada por 20 policiais em cinco carros blindados, Beyoncé baixou o vidro do carro que a levava do aeroporto ao hotel no centro da cidade e acenou. Jay-Z buzinou. Ali mesmo, os fãs anteciparam o delírio que marcaria seu primeiro show, à noite.
Os espetáculos agendados para o Brasil fazem parte da reta final da turnê I am... , em que relembra momentos essenciais da carreira e apresenta os hits de seu terceiro álbum solo, I am... Sasha Fierce, de 2008.
A cantora Ivete Sangalo foi escalada para abrir os shows em São Paulo e Salvador. Wanessa, a ex-Camargo, cumpriu a função no show de Florianópolis e repetiria a participação no Rio de Janeiro no domingo e na segunda-feira.
O evento em Florianópolis, ao ar livre, no Parque Planeta, foi um exemplo de megashow pop contemporâneo, alimentado por alta tecnologia, danças arrebatadoras e até do abrir e fechar de imensas cortinas, ao modo de um teatro.
Em duas horas de palco, Beyoncé provou ser uma diva do pop, capaz de dançar e cantar (não apenas fingir que canta) no meio do público, ao mesmo tempo que conversava e tocava os espectadores.
Saiba mais
* »Ele pôs o anel no dedo dela
No palco, ela se apoia em 22 artistas, entre bailarinos, cantores e a banda feminina Suga Mama. Beyoncé se mostra uma artista madura. Nos intervalos entre as músicas, encara o público e faz charme com o cabelo.
Quando a música volta a bombar, sai requebrando e solta seu vozeirão. Os espectadores, a maioria na faixa dos 18 aos 30 anos, vão ao êxtase. Só faltou voar. Não é que ela não seja capaz. As limitações técnicas do palco é que não permitiram sua ascensão por cabos de aço.
É um roteiro de sedução: Beyoncé troca de figurino dez vezes e varia o repertório, revezando momentos românticos, como quando canta “Ave Maria” de Franz Schubert, e dançantes.
Cantou sucessos como a balada lenta “If I were a boy”, mostrando seu registro especial de mezzosoprano. Antes de embalar “Single ladies (Put a ring on it)”, o telão apresentou uma edição divertida de vídeos caseiros de anônimos e famosos fazendo a coreografia, entre eles o presidente americano, Barack Obama (só a parte da mãozinha, é claro). Beyoncé sabe usar, como poucos artistas, os recursos multimídias.
O telão widescreen de última geração – nem nos mais recentes grandes shows de rock se viu imagem de tão perfeita qualidade – reforça e dá novos sentidos a suas letras. Beyoncé se despediu sacudindo uma bandeira brasileira entregue por um fã e cantando “Halo”, em homenagem a Michael Jackson. “Brasil, Brasil, eu posso sentir sua aura”, afirmou.
No total, Beyoncé “sentirá a aura” de 30 países. De Salvador, na quarta-feira, ela seguirá para Argentina, Chile, Peru e Trinidad, onde encerrará a turnê iniciada há 11 meses. Terá cumprido 115 dias de espetáculos por Estados Unidos, Europa, Japão e América do Sul. Diz que, depois da maratona, pretende descansar por pelo menos seis meses, adiando a produção de seu quarto álbum.
“Tenho um monte de melodias e ideias”, afirmou. “Mas preciso dizer a mim mesma: ‘Fique quieta! Fique quieta!’.” Será a primeira pausa em sua carreira. Só nos primeiros dois meses da turnê, na Europa e nos Estados Unidos, ela arrecadou US$ 36 milhões. Seus fãs não economizam para lotar ginásios e estádios de futebol, pagando ingressos que começam na faixa dos US$ 50.
Por aqui, os valores variam de R$ 60 a R$ 750. É a média de preços dos últimos shows internacionais realizados no Brasil, hoje um dos polos de atração de megaespetáculos. E consegue dar uma boa margem para contemplar a maioria dos fãs, modestos ou abonados, que baixam seus CDs de graça pela internet.
Mesmo tendo feito sucesso numa época em que a pirataria atingiu duramente o mercado fonográfico, de acordo com sua gravadora, a Sony, Beyoncé já superou a marca dos 100 milhões de álbuns vendidos, desde os tempos do grupo Destiny’s Child.
No ano passado, a revista de negócios americana Forbes a colocou no alto da lista das celebridades mais bem pagas antes dos 30 anos: só entre 2008 e 2009, Beyoncé arrecadou US$ 87 milhões.
Junto a Jay-Z, somou US$ 122 milhões no mesmo período, o que os torna o casal mais bem-sucedido de Hollywood atualmente. Deixa (bem) para trás Brad Pitt e Angelina Jolie, com “humildes” US$ 55 milhões.
Mister Shadow EM AÇÃO
Beyoncé começa o primeiro show no Brasil, em Florianópolis, cantando “Crazy in love”. No palco, 22 artistas, entre bailarinos, cantores e a banda só de mulheres, Suga Mama
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:51 AMComments:
06 de fevereiro de 2010 | N° 16238
NILSON SOUZA
Agentes duplos
Dia desses vesti uma fantasia de Papai Noel para fazer uma reportagem e me senti o pior dos farsantes. Cheguei mesmo a relutar antes de aceitar a missão. Argumentei para a editora que não gostaria de enganar as crianças, fazendo-me passar por um Papai Noel de verdade. Ela derrubou o meu argumento com uma pergunta marota, mas irrefutável:
– E existe Papai Noel verdadeiro?
Ainda assim, foi com um certo constrangimento que vivi por alguns minutos o papel de outro personagem que não eu próprio. Não tenho a mínima vocação para ator. Se tivesse que representar, seria um deplorável canastrão. Por isso, acompanhei com espanto a série que Zero Hora publicou nesta semana sobre espiões infiltrados nos movimentos sociais e políticos organizados.
Como pode alguém enganar tanta gente por tanto tempo? Descontadas as bravatas tardias, pois é evidente que algumas pessoas contam vantagem para parecer mais espertas do que realmente são, os agentes duplos impressionam tanto pelo que fizeram no passado quanto pelas revelações atuais.
Vá entender o ser humano! Até o famoso Garganta Profunda do caso Watergate, que resultou na renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, resolveu soltar a língua depois de permanecer mais de 30 anos no anonimato. Dizem que ele levou uma grana da revista Vanity Fair, mas não duvido que tenha sucumbido à própria vaidade mesmo.
É o que parecem estar fazendo esses personagens que agora saem das sombras e contam com orgulho suas aventuras de espionagem. Confesso que me chocam um pouco. Pode ser até que tenham feito bem o seu trabalho, mas eu não compraria um carro usado de nenhum deles. O mínimo que se pode pensar de um agente duplo é que ele é 50% mentiroso.
Até gosto de gente que representa bem, mas só quando sei que se trata de uma representação. Detesto pegadinhas e coisas do gênero por isso. Não acho a menor graça quando me sinto enganado.
Mas aplaudo atores talentosos, capazes de dar tanta autenticidade aos seus personagens que eles mesmos se esquecem da identidade original.
Outro dia ouvi uma divertida entrevista do cantor e comediante Moacyr Franco na qual ele falou com saudade sobre um ex-companheiro de palco falecido, o humorista Ronald Golias. “Deus mandou o personagem e esqueceu de mandar o homem”, disse Moacyr.
Golias tinha mesmo uma cara preparada para despertar risos e sorrisos. Não precisava nem representar. Jamais poderia ser um agente duplo, pois era extremamente verdadeiro na sua farsa.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:50 AMComments: Sábado, Janeiro 30, 2010
31 de janeiro de 2010 | N° 16232
MARTHA MEDEIROS
É impossível ser feliz sozinho?
Pense nos melhores momentos da sua vida: você estava sozinho ou acompanhado?
A limentar muita expectativa é o caminho mais curto para a frustração. Mais uma vez a máxima se confirmou: fui assistir a Amor sem Escalas, o badalado filme do mesmo diretor do excelente Juno, e não fiquei impactada como se prenunciava. Achei bom, apenas.
Tem alguns diálogos espertos e uma inversão de papéis inusual (no que se refere a relações entre homens e mulheres), mas, apesar do frescor que Jaison Reitman imprime a seus filmes, desta vez ele por pouco não escorregou pro sentimentalismo barato. Dentro do mesmo tema – é possível ser feliz sozinho? – prefiro Estrela Solitária, de Wim Wenders, que tratou sobre o isolamento do ser humano com muito mais poesia e beleza.
Ainda assim, uma frase me marcou. “Pense nos melhores momentos da sua vida: você estava sozinho ou acompanhado?”.
Pode não ser comum, mas há pessoas que não têm nenhuma vocação para constituir família, e nem por isso merecem a cadeira elétrica. Eles simplesmente preferem estar em movimento, não ter amarras, e essa liberdade cobra um preço que, se costuma ser alto para a maioria, para outros pode ser uma dívida fácil de quitar.
Eu bem que gosto de ficar sozinha. Já tive ótimos momentos comigo mesma dentro de um trem, em frente ao mar, lendo um livro. Mas reconheço que os momentos sublimes, aqueles eleitos como inesquecíveis, aconteceram quando eu estava “avec”. Reconhecer isso não faz eu desprezar a solidão, mas me impede de adotá-la como estilo de vida permanente.
Sozinha eu posso ser mais livre, mas não sou desafiada. Compartilhar a vida com alguém exige participação: a gente é impelido a se manifestar, a traduzir em gestos e palavras o que estamos sentindo, e isso engrandece o momento, cria vínculo, avaliza o que está sendo vivido, confere magia ao instante, credibiliza aquilo que está nos deixando emocionado.
Não precisa ser um momento repartido apenas com seu grande amor: pode ser também com os pais, com um irmão, um amigo, até mesmo com desconhecidos. Quando se olha nos olhos dos outros e se compreende o que se está passando, a sintonia se dá, mesmo silenciosa.
Lembrei de Scarlett Johansson sozinha num bar de hotel em Tóquio, percebendo o também solitário Bill Murray tomando seu uísque, em Encontros e Desencontros. A secreta comunicação do olhar entre ambos dava sentido ao que não havia sentido algum.
Pode acontecer entre dois, e também pode acontecer entre muitos. Um estádio de futebol lotado, com a massa gritando pelo mesmo time. Um show vibrante, todos cantando a mesma letra. Imagine se o espetáculo fosse exclusivo pra você: que graça teria?
Estando sozinhos, a sensação interna sobre o que está sendo vivido é quase triste, mesmo que não seja.
Juntos, até o que não parece alegre, fica.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 7:28 PMComments:
31 de janeiro de 2010 | N° 16232
VERISSIMO
Padre Alfredo
O padre Alfredo estava ficando velho. Todos na paróquia concordavam: era triste, mas o padre Alfredo precisava se aposentar. Durante anos ele servira a comunidade com dedicação e sabedoria. Mas seu tempo estava acabando.
Era bonito vê-lo batizando netos de gente que ele também batizara, mas era constrangedor vê-lo se confundindo e derramando a água benta na cabeça do avô em vez do neto. E comentava-se que suas aulas de catecismo também tinham se tornado confusas. Por alguma razão, ele insistia que o pai de Jesus não se chamava José, mas Clóvis.
O primeiro sinal de que o padre Alfredo deveria ser substituído foi na inauguração do microfone, na missa. Ele resistira o quanto pudera, mas finalmente fora convencido a aceitar a novidade. Todos os padres estavam usando microfones durante o serviço religioso.
Alguns traziam o microfone preso no peito, para ficarem com as mãos livres. Quando empunhou o microfone pela primeira vez, o padre Alfredo examinou-o em silêncio por alguns minutos e depois levou-o à boca e começou a cantar um bolero. O que mais espantou os fiéis foi o padre Alfredo saber toda a letra de Tu me Acostumbraste.
O padre Alfredo dormia durante as confissões. Só acordava quando o penitente, estranhando o silêncio do outro lado do gradil, falava mais alto.
– E então, padre?
– Ahn?
– Qual é a penitência?
– Penitência?
– Pelos meus pecados.
– Dezessete Ave-Marias e vinte e nove Padre-Nossos.
– Mas padre, não houve penetração.
– Não interessa.
– O senhor nem ouviu os pecados!
– Mais trinta salve-rainhas pela insolência. E corta os doces por um mês.
Mas o que levou membros da comunidade a pedir a interdição do padre Alfredo foi seu comportamento na cerimônia de casamento do Agenor e da Maria Estela. Igreja lotada. Autoridades presentes. Grande pompa. O organista tocando seleções de Lloyd-Webber.
Entre aias, padrinhos, madrinhas e parentes, mais de cinquenta pessoas no altar. E o padre Alfredo, que aderira ao microfone preso no peito, perfilado no seu lugar, com os olhos fechados. Tensão na igreja.
Num casamento recente, o padre Alfredo lançara-se numa longa dissertação sobre o significado da união entre o homem e a mulher, começando com Adão e Eva, passando por Clóvis e Maria e chegando aos nossos dias, com o sacramento tão desprestigiado, e tanta gente vivendo junta sem benefício de matrimônio.
E terminara pedindo à congregação uma salva de palmas para o casal à sua frente, que decidira se casar na igreja. Ele mesmo liderara o aplauso, como um chefe de torcida. O que o padre Alfredo iria aprontar agora?
O padre Alfredo custou a começar a cerimônia. O pai da noiva já se preparava para cutucá-lo, temendo que o padre estivesse dormindo em pé, quando ele abriu os olhos, sorriu para os noivos, e perguntou:
– Vocês têm certeza?
Noivo e noiva se entreolharam. O padre continuou:
– Vocês sabem o que estão fazendo?
O Agenor se sentiu na obrigação de responder.
– Sim, padre.
– Já pensaram no que vem por aí? Uma vida inteira, juntos? As brigas, às vezes por mesquinharia? O ciuminho? Os sogros se metendo? As diferenças: filme de pancadaria ou filme romântico? Luz acesa para um ler quando o outro quer dormir? Um não podendo viver sem ar refrigerado, apesar da rinite do outro?
Já pensaram?
E um murmúrio de perplexidade percorreu a plateia quando o padre Alfredo acrescentou:
– E ainda por cima tem os filhos. Outra incomodação.
O padre retirou-se do altar com um abano, aconselhando os noivos:
– Pensem melhor, pensem melhor...
Não havia dúvidas. O padre Alfredo precisava se aposentar.
Por alguma razão, ele insistia que o pai de Jesus se chamava Clóvis
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 7:28 PMComments:
31 de janeiro de 2010
N° 16232 -MOACYR SCLIAR
Namorando homens mais moços
Na hora da conquista, é bom que as “panteras” saibam que “carros de praça” viraram “táxis”
Nos Estados Unidos, elas são conhecidas como “cougars”, palavra que designa um tipo de felino e que a gente pode traduzir como “panteras”. São mulheres de meia-idade que não têm qualquer problema em namorar homens mais jovens – às vezes, bem mais jovens.
Exemplos: Madonna, Mariah Carey, Demi Moore, além de Susan Sarandon casada com Tim Robbins, 12 anos mais jovem (os dois recentemente se separaram). Hollywood também abordou o tema em pelo menos dois filmes famosos.
Um deles é A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967) de Mike Nichols, no qual um jovem egresso da universidade (Dustin Hoffman, então um garoto) apaixona-se por Mrs. Robinson, a bela esposa do sócio de seu pai.
A outra película é Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1972), de Hal Ashby, mais caricatural ainda, porque o melancólico garoto Harold apaixona-se por uma mulher de 79 anos, Maude (magistralmente vivida por Ruth Gordon).
E agora está em cartaz Chéri, do excelente Stephen Frears, baseado no romance de Colette, uma autora que já foi best-seller e que conta a história da paixão de uma cortesã já aposentada, Léa, por Chéri, filho de sua antiga companheira de profissão e rival, Madame Peloux. Sucedem-se as cenas tórridas, mas no final o filme é uma bela meditação sobre o que, realmente, é o amor.
Estamos acostumados com casais em que o homem é mais velho do que a mulher (não muito mais velho: isso nós estranhamos). É uma escolha que, do ponto de vista do homem, e sob o enfoque evolucionista hoje em alta, faz sentido: o macho quer uma fêmea capaz de uma longa vida reprodutiva, garantindo, portanto, a continuidade da espécie. Acontece que não só a biologia condiciona nossa existência. Fatores psicológicos e sociais também estão em jogo.
No caso do rapaz apaixonado pela pantera, imediatamente pensamos numa fixação edipiana, aquela que, segundo Freud, faz com que alguém busque na mulher a imagem da própria mãe. Mas existem outras razões, de ordem, digamos, prática. Uma mulher madura não tem a insegurança e os temores das mulheres mais jovens.
Pode ser financeiramente independente, o que dispensa o companheiro da necessidade de sustentá-la. Por outro lado, existe o problema do envelhecimento, das rugas, dos achaques; e, se o rapaz pensa em filhos, a situação se complica.
De qualquer modo, e apesar de todos os obstáculos e preconceitos, o modelo pantera veio para ficar. Um estudo feito nos Estados Unidos com mulheres acima de 40 anos que viviam sós mostrou que 34% estavam namorando homens mais moços: Léa, Mrs. Robinson e Maude ficariam felizes.
Mas é preciso adotar algumas precauções, como descobriu, certa vez, uma amiga nossa. Mulher de meia-idade, separada, ela marcou um encontro com um rapaz bem mais jovem num bar. No final da noite, ele se desculpou: não poderia levá-la para casa porque não tinha carro.
– Não te preocupes – ela disse – eu chamo um carro de praça.
A surpresa dele mostrou que ela havia cometido um erro, ao menos de linguagem. Faz tempo que os “carros de praça” viraram táxis. É bom que as panteras saibam disso.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 7:28 PMComments:
31 de janeiro de 2010 | N° 16232
PAULO SANT’ANA
Soneca na sinaleira
Aconteceu uma cena notável, quinta-feira passada, na sinaleira da Rua Bogotá, esquina da Avenida Assis Brasil, Zona Norte.
Eram sete horas da manhã e um motorista embriagado dormiu no volante, congestionando e atrapalhando todo o trânsito. Uma fileira imensa de carros ficou atrás do veículo dirigido pelo embriagado.
O nosso repórter de trânsito, Mauro Saraiva Jr., que chegou junto com a polícia, acordou o motorista embriagado e eu ouvi a entrevista na Gaúcha.
– O senhor está embriagado?
– Negativo.
– O senhor está se sentindo bem?
– Positivo.
– O senhor aceita se submeter ao bafômetro?
– Positivo.
– Por que o senhor ficou parado na sinaleira?
– Parei por causa da blitz.
O fato é que não havia blitz nenhuma na sinaleira, não se sabe como o bebum enxergou uma blitz.
Afora esse fato singular, as pessoas estão dormindo nas sinaleiras de Porto Alegre.
Conheço inúmeros motoristas que tiram sonecas nas sinaleiras. Um deles me disse que quando está com bastante sono se dirige para a esquina das Avenidas Princesa Isabel e João Pessoa e forra o poncho dormindo naquela sinaleira de três tempos. Demora, demora, o motorista tira uma pestana prolongada.
Para tratamento sonoterápico, sugiro aos motoristas que se dirijam à Rua Lucas de Oliveira, que atravessa a cidade do Partenon até a Auxiliadora: não existem sinaleiras mais demoradas e frequentes.
A Avenida Assis Brasil, onde em uma das sinaleiras o motorista bêbado foi apanhado em sono profundo, dá pra parar o carro na sinaleira, descer do veículo, ir comprar um refrigerante e frutas e voltar para o volante a tempo de seguir depois que o sinal abre.
Quem vem pela Avenida Praia de Belas na altura do Pão dos Pobres e quer converter à esquerda para entrar na Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, prepare-se para dormir na sinaleira. Quando passo por ali, vejo o ronco dos motoristas confundir-se com o do motor dos carros.
No Laboratório do Sono, o Dr. Dênis Martinez costuma receitar uma infalível receita contra a insônia: dirigir 15 dias seguidos no trânsito de Porto Alegre. Não há quem resista e não pegue no sono ao parar nas sinaleiras da Capital.
E há duas sinaleiras que estão ficando famosas pelo sono que provocam nos motoristas que as cruzam: a da Faixa Preta (Dr. Campos Velho), esquina da Avenida Cavalhada, e a da Avenida Ipiranga, esquina da Borges de Medeiros, que já ganharam até apelidos dos motoristas porto-alegrenses: Dormonid e Lexotan.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 7:27 PMComments:
A Toyota na funilaria
A empresa revolucionou a maneira de fazer carros e tornou-se líder mundial. Agora enfrenta um recall constrangedor – que poderá arranhar a sua imagem
Luís Guilherme Barrucho - Redd Saxon/AP
PÁTIO CHEIO
Falha no acelerador interrompeu a venda nos EUA de oito modelos da fabricante japonesa
Foram necessários setenta anos para que a japonesa Toyota realizasse o sonho de seu criador, Kiichiro Toyoda. Em 2007, a empresa tornou-se a maior fabricante de carros do mundo, superando a americana General Motors.
O sucesso só foi possível graças à tecnologia que se tornou sinônimo de conforto e segurança, a preços competitivos. Na semana passada, essa reputação sofreu um golpe.
A Toyota convocou 2,3 milhões de proprietários nos Estados Unidos para solucionar um defeito no acelerador, produzido por um fornecedor canadense. Houve incidentes em que o carro continuava acelerando, mesmo depois de o motorista parar de pressionar o pedal.
O defeito envolve oito modelos da Toyota, entre eles seus dois sedãs mais vendidos nos Estados Unidos, o Camry e o Corolla. O mais constrangedor: incapaz de solucionar a falha, a empresa suspendeu a produção e a venda desses veículos.
O recall, que não afeta o Brasil, também foi estendido à Europa e à China. Ao todo, estima-se que mais de 4 milhões de automóveis terão de passar pelo conserto.
Foi a segunda grande falha registrada em menos de quatro meses no mercado americano. Em setembro, a Toyota já havia chamado 4,2 milhões de veículos de volta às concessionárias, por causa de um problema com o tapete do motorista, que se enroscava nos pedais. Como se não bastasse, a companhia tem perdido mercado para novatas, como a coreana Hyundai.
Para completar, padece de um equívoco estratégico: fez apostas tímidas nos mercados que mais crescem atualmente, como a China e o Brasil, ao contrário da alemã Volkswagen, que já dá sinais de superá-la.
O resultado é que desde que a montadora japonesa alcançou a liderança mundial, há dois anos, suas vendas caíram quase 20%. Estaria sob ameaça o reinado da marca? "Acredito que não", afirmou a VEJA Jeffrey Liker, da Universidade de Michigan. "Os princípios da Toyota são suficientemente fortes para evitar que dois problemas isolados contaminem toda a empresa."
A companhia cresceu seguindo catorze princípios criados por Kiichiro Toyoda e pelo engenheiro Taiichi Ohno, entre eles a busca pelo aprimoramento contínuo. A Toyota estabeleceu um novo modelo de administração, o just in time, em que a montagem e os embarques de carros são imediatos e correspondentes à demanda, o que reduz o custo para manter estoques.
As concorrentes a copiaram e se reergueram, enquanto a japonesa parece ter baixado a guarda. Diz Alan Middleton, da Universidade York, no Canadá: "Quando as empresas se tornam grandes demais, existe o risco de se acomodarem e deixarem a criatividade de lado". Para permanecer no topo, a Toyota precisará ter humildade oriental e reler os seus próprios princípios.
Junko Kimura/Getty Images
LÍDER CABISBAIXO
Akio Toyoda, neto do fundador e atual presidente da Toyota: críticas pela resposta tímida diante das falhas
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 7:27 PMComments:
Lya Luft
Educação de quarto mundo
"Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso?"
No meio da tragédia do Haiti, que comove até mesmo os calejados repórteres de guerra, levo um choque nacional. Não são horrores como os de lá, mas não deixa de ser um drama moral. O relatório "Educação para todos", da Unesco, pôs o Brasil na 88ª posição no ranking de desenvolvimento educacional.
Estamos atrás dos países mais pobres da América Latina, como o Paraguai, o Equador e a Bolívia. Parece que em alfabetizar somos até bons, mas depois a coisa degringola: a repetência média na América Latina e no Caribe é de pouco mais de 4%. No Brasil, é de quase 19%.
No clima de ufanismo que anda reinando por aqui, talvez seja bom acalmar-se e parar para refletir. Pois, se nossa economia não ficou arruinada, a verdade é que nossas crianças brincam na lama do esgoto, nossas famílias são soterradas em casas cuja segurança ninguém controla, nossos jovens são assassinados nas esquinas, em favelas ou condomínios de luxo somos reféns da bandidagem geral, e os velhos morrem no chão dos corredores dos hospitais públicos.
Nossos políticos continuam numa queda de braço para ver quem é o mais impune dos corruptos, a linguagem e a postura das campanhas eleitorais se delineiam nada elegantes, e agora está provado o que a gente já imaginava: somos péssimos em educação.
Pergunta básica: quanto de nosso orçamento nacional vai para educação e cultura? Quanto interesse temos num povo educado, isto é, consciente e informado - não só de seus deveres e direitos, mas dos deveres dos homens públicos e do que poderia facilmente ser muito melhor neste país, que não é só de sabiás e palmeiras, mas de esforço, luta, sofrimento e desilusão?
Precisamos muito de crianças que saibam ler e escrever no fim da 1ª série elementar; jovens que consigam raciocinar e tenham o hábito de ler pelo menos jornal no 2º grau; universitários que possam se expressar falando e escrevendo, em lugar de, às vezes com beneplácito dos professores, copiar trabalhos da internet.
Qualidade e liberdade de expressão também são pilares da democracia. Só com empenho dos governos, com exigência e rigor razoáveis das escolas - o que significa respeito ao estudante, à família e ao professor - teremos profissionais de primeira em todas as áreas, de técnicos, pesquisadores, jornalistas e médicos a operários. Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso?
Quando empregarmos em educação uma boa parte dos nossos recursos, com professores valorizados, os alunos vendo que suas ações têm consequências, como a reprovação - palavra que assusta alguns moderníssimos pedagogos, palavra que em algumas escolas nem deve ser usada, quando o que prejudica não é o termo, mas a negligência.
Tantos são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e recompensa.
Sou de uma família de professores universitários. Exerci o duro ofício durante dez anos, nos quais me apaixonei por lidar com alunos, mas já questionava o nível de exigência que podia lhes fazer. Isso faz algumas décadas: quando éramos ingênuos, e não antecipávamos ter nosso país entre os piores em educação.
Quando os alunos ainda não usavam celular e iPhone na sala de aula, não conversavam como se estivessem no bar nem copiavam seus trabalhos da internet - o que hoje começa a ser considerado normal. Em suma, quando escola e universidade eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra.
Há gente que acha tudo ótimo como está: os que reclamam é que estão fora da moda ou da realidade. Preparar para as lidas da vida real seria incutir nos jovens uma resignação de usuários do SUS, ou deixar a meninada "aproveitar a vida": alguém pode me explicar o que seria isso?
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 7:27 PMComments:
RUTH DE AQUINO
Mulher tem que ser braba mesmo?
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.brO presidente Lula foi internado com hipertensão. O nome já diz: é tensão demasiada, dez compromissos em cinco cidades numa semana, levando na bagagem sua pré-pós-candidata, a ministra Dilma Rousseff.
Num dia, Lula diz, orgulhoso, que “a bichinha está palanqueira”. Dias depois, em Pernambuco, pela primeira vez assume em comício o gênio forte da ministra: “As pessoas falam que a Dilma é braba. Vou lhe contar uma coisa. Mulher tem mais é que ser braba mesmo”.
Não sei o que será pior na campanha para Dilma: mudar ou não mudar o jeito, o tom, os temas. No fundo, colocou-se a ministra numa roubada. Seu amigo, o ex-guerrilheiro e ex-prefeito petista de Belo Horizonte Fernando Pimentel, afirma que ela deve assumir a fama de durona porque “tentar fazer Dilma parecer com Lula é ilusão”. É como diz Pimentel. Ela não é operária, não passou fome e não nasceu no Nordeste.
É mineira de classe média alta, educada nos melhores colégios. Quando se apresenta a círculos menores, Dilma conta que o pai é búlgaro. Não dá para dizer isso em palanque. Búlgaro de quê?
O desafio cada vez mais claro e árduo de transferir votos para Dilma pode estar na raiz da hipertensão do presidente. Não é preciso ser médico para desconfiar. Porque, quando Dilma se acredita popular e se solta... aí mora o perigo. Em Pernambuco, conta a repórter de O Globo Letícia Lins, a ministra cometeu gafe após gafe ao inaugurar um posto de saúde ao lado de seu padrinho.
Ela disse que o escritor Ariano Suassuna nasceu em Pernambuco – mas foi na Paraíba. Atribuiu a Suassuna a frase “nós somos madeira que cupim não rói”. A frase é do compositor Lourenço Barbosa, o Capiba. Errou o nome da cidade em que estava. Falou no prefeito “Romildo”, de Olinda. Só que ele se chama Renildo. Saudou Romero Jucá (PMDB) como líder do partido no Senado. Jucá é líder do governo.
Vamos dar crédito à ministra. É verão, faz muito calor. E o que lhe falta de traquejo lhe sobra em nervosismo. Não pode ser fácil mesmo tentar substituir Lula, o homem do povo que já governa o Brasil há quase oito anos e que, em Davos, na Suíça, receberia na sexta-feira o título de Estadista Global, caso a pressão não o traísse.
Não sei o que será pior para Dilma na campanha: mudar ou não mudar seu jeito e seu tom
O problema não são as gafes da ministra, ainda pequenas (quem será que está escrevendo os discursos de Dilma?). A pergunta é outra: o povo brasileiro quer mesmo uma dama de ferro no poder? Será que, como disse Lula, “mulher tem que ser braba”? “Quem tem que ficar arreganhando os dentes todas as horas é o homem.
A mulher tem que ser séria mesmo”, disse Lula. As urnas dirão se o povo concorda. Como Dilma se comportará, atacada em debate? O marqueteiro João Santana terá de fazer mágica. Amigos dizem que ela tem treinado postura e discurso. Só faltaria escolher “temas mais populares, deixando de lado o tom técnico”.
Na festa de 100 anos de dona Maria Amélia, a mãe de Chico Buarque, no Rio, Dilma estava lá, ao lado de Lula. O presidente foi um sucesso. E a ministra? Os convivas dizem que ela se esforçou para demonstrar simpatia.
Mas, em festa de bamba, clima pré-Carnaval, ninguém vai conversar sobre PAC, pré-sal ou etanol. Ou sobre “a comissão da verdade”. Nome complicado esse. Pois, se existe uma comissão da verdade sobre vítimas da repressão, imaginamos que as outras... Bem, as outras devem ser de mentirinha.
Lula, sempre galante em sua defesa de Dilma, chamou de “babaca” o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, que não perde a chance de atacar o ponto fraco da ministra: “Foi ela quem liderou isso (o veto à suspensão de obras da Petrobras consideradas irregulares pelo Tribunal de Contas) . Ela quer mandar em tudo. É autoritária”.
É pouco? Vem aí um trio da pesada para o diretório nacional do PT. Todos réus do mensalão: José Dirceu, cassado em 2005 e ex-ministro da Casa Civil; José Genoíno, presidente do PT até 2005, obrigado a sair pelo escândalo; João Paulo Cunha, presidente da Câmara no primeiro mandato de Lula. Objetivo: costurar alianças e articular a campanha da Dilma.
Um trio de ferro para uma dama de ferro.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 7:26 PMComments: Sábado, Janeiro 23, 2010
Beyoncé, a poderosa
Provocativa, mas nunca vulgar, a cantora americana – que se apresenta no Brasil em fevereiro – conquista os adolescentes sem ofender os pais. Ela é hoje o maior nome da música pop mundial
Sérgio Martins
Mr Photo/Corbis Outine/Latinstock
AS MEDIDAS DA ESTRELA
Altura: 1,70 m
Peso: 59 quilos Busto: 89 cm
Cintura: 64 cm Quadris: 102 cm
Discos vendidos no mundo: 25 milhões
Rendimentos anuais: 87 milhões de dólares
A MULHER DO SÉCULO
Beyoncé Knowles: hino feminista sobre um tabu do feminismo – a aliança de casamento
A revista Billboard, especializada em música pop, elegeu Beyoncé Knowles, de 28 anos, a mulher de 2009. Com mais de 25 milhões de discos vendidos em seis anos como artista-solo – aos quais se somam os 50 milhões de cópias do Destiny’s Child, grupo em que começou a carreira –, a americana é de fato um colosso do showbiz.
Na lista das 100 celebridades mais poderosas do mundo (seja lá o que isso for), publicada no ano passado pela revista Forbes, ela aparece em quarto lugar, atrás da atriz Angelina Jolie, da apresentadora Oprah Winfrey – e de outra cantora, Madonna, que, aos 51 anos, ainda bate na conta bancária a concorrente bem mais jovem.
De acordo com a revista, Beyoncé tem ganhos anuais de 87 milhões de dólares, contra 110 milhões de Madonna. Na música pop, porém, o momento conta mais do que a história – e este é o momento de Beyoncé. Seu último disco, I Am...
Sasha Fierce, vendeu 2,7 milhões de cópias nos Estados Unidos, enquanto Hard Candy, o mais recente de Madonna, ficou em 1 milhão. Beyoncé – que desembarca no Brasil no início de fevereiro para shows em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador – é a voz mais ouvida nos iPods da moçada (e também está no aparelho do presidente Barack Obama, segundo declarou o próprio).
Sua balada Halo foi a música mais executada nas rádios brasileiras em 2009. Ela embolsa 20 milhões de dólares anuais emprestando o rosto e todo o resto a marcas como L’Oreal e Diamonds, perfume da grife Giorgio Armani. Mais do que a cantora do ano, Beyoncé é, até agora, a mulher do século no mundo pop.
Os shows do I Am... Tour, que os fãs brasileiros poderão ver em breve, trazem aquele gigantismo característico das grandes estrelas da música americana: duas horas e meia de duração, com muita coreografia, telões e efeitos especiais – em certo momento, a cantora voa sobre a plateia, suspensa por cabos. O repertório alterna baladas chorosas como Halo com canções dançantes que misturam as batidas do hip-hop à soul music das décadas de 60 e 70.
Beyoncé equilibra esses elementos com mais energia e carisma do que concorrentes como Rihanna ou Alicia Keys. Seus singles são o padrão-ouro do pop: fazem download instantâneo na cabeça de quem os ouve.
Mesmo quando tratam de ciúme e desilusão amorosa, as canções de Beyoncé dão voz a personagens femininas poderosas, como a tal Sasha Fierce (o sobrenome, em inglês, quer dizer feroz, bravia) que dá título a seu mais recente disco. Mas ela divide as feministas.
As mais radicais consideraram seu hit Single Ladies um retrocesso para a causa. Trata-se, afinal de contas, de uma mulher declarando que deseja uma aliança de casamento. Beyoncé, a propósito, é casada com o rapper Jay-Z. O maridão tem seu passado barra-pesada (já esfaqueou um desafeto), mas parece ter se aprumado.
Ao contrário de divas barraqueiras como Britney Spears e Mariah Carey, Beyoncé é boa moça até prova em contrário. Mantém uma fundação, a Survivor, que presta assistência a pobres e a vítimas de catástrofes como a destruição de Nova Orleans pelo furacão Katrina, em 2005. Seu cachê no filme Cadillac Records, no qual interpretou a cantora Etta James, foi revertido para associações que cuidam de viciados em drogas.
Na eleição presidencial de 2008, esteve engajada na campanha de Obama – até cancelou shows na Europa para fazer corpo a corpo (no caso, corpão a corpo) com eleitores na Virgínia e na Flórida. Valeu a pena: Obama convidou-a para fazer o show de seu baile inaugural na Presidência.
O histórico de correção política da cantora foi arranhado no réveillon, quando fez um show particular, em uma ilha do Caribe, para Mutasim-Billah, filho do ditador líbio Muamar Kadafi. E o cachê até que foi baixo: 2 milhões de dólares.
Provocativa, mas nunca vulgar, a música de Beyoncé alcança o público adolescente sem ofender os pais. Com seu ritmo fácil e repetitivo, Single Ladies até virou hit entre os bebês.
O vídeo de um menino de fralda dançando em frente a uma TV que exibe o clipe da canção já foi visto mais de 7 milhões de vezes no YouTube. O pai do garoto até criou um site, a fim de arrecadar dinheiro para a futura educação universitária do pequeno dançarino.
Esse apelo infantil, porém, é acidental: Beyoncé, com suas formas exuberantes (há especulações sobre implantes nos seios), é a estrela mais sexy da música atual.
Com tendência a engordar, ela às vezes recorre a esquisitas dietas líquidas para vencer a balança. Também tem uma discretíssima celulite. Homens de verdade não fazem a mínima ideia do que seja celulite. Mas sabem que Beyoncé tem poder.
SUCESSO DE BERÇO Beyoncé e suas dançarinas:
campanha para Obama e show para o filho do ditador líbio
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:01 AMComments:
Claudio de Moura Castro
Na Idade das Trevas
"A infindável batalha entre os formuladores de políticas de desenvolvimento tecnológico e a nossa impenetrável máquina burocrática"
Cruzando um corredor da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia), o impetuoso diretor é alvejado por uma pergunta à queima-roupa, formulada com ironia: "Há quanto tempo você trabalha aqui?". Isso porque ele tinha proposto que os pedidos de empréstimo fossem processados em um prazo máximo de um mês.
Ousou arrostar a pachorrenta burocracia. Era mais um capítulo de uma infindável batalha entre os formuladores de políticas de desenvolvimento tecnológico e a nossa impenetrável máquina burocrática.
As políticas para criar tecnologia brasileira sugerem a existência de vida inteligente nas agências de fomento. Em contraste, as regras para implementar tais políticas permanecem na Idade das Trevas.
Ilustração Atomica Studio
Nossos formuladores revelam argúcia. Há ideias inteligentes e um mínimo de continuidade na sua implementação. Nota-se também um saudável aprendizado, ao entender os equívocos e procurar corrigi-los.
A Lei da Inovação criou engenhosas pontes entre universidades e empresas, tornando possível oferecer subsídios monetários aos empresários inovadores. Ademais, o governo agora pode virar parceiro, entrando com capital de risco. Houve um crescimento vertiginoso das publicações científicas.
Hoje o Brasil é o 13º maior produtor de ciência em periódicos respeitáveis. Se publicações no exterior podem ser vistas como exportação de conhecimento, exportamos mais ciência (2% do total mundial de publicações) do que mercadorias (pouco mais de 1% do comércio internacional).
Somos um dos três únicos países a extrair do próprio subsolo e refinar urânio. A meteorologia está pronta para enfrentar os desafios do aquecimento global. Não há nenhuma empresa de petróleo no mundo com o mesmo domínio tecnológico da Petrobras.
É respeitada a nossa aeronáutica. Somos os primeiros em alguns setores do agronegócio (por exemplo, no etanol). Quase todos os grandes produtos de exportação têm ampla dose de tecnologia tupiniquim.
Ou seja, há vida inteligente no governo, pois algumas iniciativas privadas dependem de políticas públicas. Porém, as discussões de políticas tecnológicas são engolfadas pelos ruídos de gente que nada entende. Jorram palpites desencontrados.
Mais grave é o terrorismo dos sistemas de controle. São necessários, é certo. Contudo, Advocacia-Geral da União, Ministério Público, Receita Federal e tribunais de contas fazem coro para encontrar minudências técnicas que atrasam ou impedem o fluxo de pedidos de grande interesse para a nação.
Em vez de entenderem e apoiarem quem merece, esses órgãos garimpam tecnicalidades impeditivas e presumem a desonestidade dos postulantes. Segundo advogados empresariais, usar a Lei da Inovação tornou-se um risco para todo e qualquer projeto. Melhor não usar o que promete a lei, para não se arriscar aos humores de algum fiscal iracundo.
Atolam pesquisas de importância estratégica, derrotadas na maratona surrealista de importar reagentes ou equipamentos para os laboratórios das universidades públicas.
Não há correspondência entre fúria controladora e volume de recursos, pois tendem a ser quantias irrisórias. Foram abandonadas (exceto na Saúde) as políticas de compras públicas, responsáveis pelos sucessos passados da nossa indústria bélica e aeroespacial (por exemplo, a Embraer).
Os papéis engarrancham na burocracia, independentemente do talento do cientista ou da promessa do projeto. Licitações públicas escolhem propostas baratas mas frágeis, por medo das punições dos tribunais de contas (essa foi uma das razões da debacle do Enem).
As regras do serviço público são incompatíveis com a agilidade exigida pela ciência e tecnologia. Daí a abundância de mecanismos - como as fundações - para oferecer a velocidade imprescindível.
Mas, tão logo aparecem, os órgãos de controle fazem tudo para destruir esses atalhos administrativos. Na área ambiental, um parecer equivocado dá processo criminal. Ir para a cadeia por uma licença ambiental? Quem se arriscaria? Mas é o paraíso dos burocratas do "não" e dos crentes com visões simplórias.
A vida inteligente colide com órgãos de controle que permanecem na Idade das Trevas. Ou seja, temos boas políticas e as empresas estão aprendendo as artes da inovação (muito tarde, até). Mas, na hora de implementá-las, os entraves e os riscos se multiplicam. Bons quadros públicos se acovardam, com razão. As empresas não têm tempo, recursos nem competência para vencer as forças malignas da inércia. É até surpreendente que tenhamos conseguido alguns sucessos.
Claudio de Moura Castro é economista
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:00 AMComments:
Estresse pode causar câncer, diz estudo
De acordo com pesquisadores americanos, condições estressantes podem emitir sinais que favorecem o desenvolvimento da doença
REDAÇÃO ÉPOCA
Estresse pode ativar mecanismos que favorecem o aparecimento do câncer
Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, publicado no site da revista Nature, afirma que o estresse pode emitir sinais que fazem com que células desenvolvam tumores.
O grupo liderado por Tian Xu, professor e vice-presidente do conselho de genética de Yale, descreve uma nova maneira pela qual o câncer age no organismo.
De acordo com o estudo, as mutações que causam o câncer podem atuar em conjunto para promover o desenvolvimento de tumores mesmo quando localizados em diferentes células em um mesmo tecido. A tese vai de encontro à defendida pela maioria dos cientistas, que defendem que uma célula precisa de mais de uma mutação para que os tumores se desenvolvam.
Para chegar a essa conclusão, o grupo trabalhou com Drosophila melanogaster (conhecidas popularmente como moscas da fruta) para analisar as atividades de dois genes conhecidos pelo envolvimento no desenvolvimento de tumores. O primeiro é o RAS, que aparece em 30% dos cânceres. O outro é o gene scribble (“rascunho”), que contribui para o desenvolvimento de tumores quando sofre mutação.
Segundo os resultados, uma célula com apenas a mutação RAS é capaz de se desenvolver em um tumor maligno se auxiliada por uma célula próxima que contenha um gene scribble defeituoso.
Os pesquisadores também observaram que condições estressantes, como uma ferida, por exemplo, podem disparar o desenvolvimento do câncer. O mecanismo por trás desse fenômeno, segundo os pesquisadores, é um processo de sinalização conhecido como JNK, que é ativado por condições de estresse.
“Diversas condições podem disparar esse processo de sinalização, seja o estresse físico ou emocional, infecções ou inflamações”, afirma Xu.
O estudo, segundo ele, deve apontar novas formas de prevenção e tratamento do câncer.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:00 AMComments: