Mauro Covacich é o melhor romancista italiano. Ou um dos melhores. Algum tempo atrás, ele largou sua mulher por outra. E resolveu escrever um livro sobre o assunto, contando todos os detalhes do episódio. Inclusive usando o nome real dos protagonistas.
Ele fez como aqueles ingleses que arrancam a roupa e, perseguidos por meia dúzia de policiais, correm pelados pelo gramado durante um jogo do Manchester United, com o estádio lotado, até conseguir agarrar Cristiano Ronaldo.
Despir-se publicamente foi a maneira mais dolorosa que Mauro Covacich encontrou para expiar seu pecado. Cobrir-se de vergonha. Expor-se ao escárnio coletivo.
Alguém deveria editar os livros de Mauro Covacich no Brasil. Recomendo com entusiasmo. Este último se chama Prima di Sparire, e foi publicado pela Einaudi.
Aqui, no podcast, pretendo tratar apenas de uma de suas páginas, a 165, que se refere diretamente a mim. Mauro Covacich é um grande amigo meu, dos tempos em que eu morava na Itália. Ele veio nos visitar no Rio de Janeiro em 2003, no Ano Novo.
Fez uma matéria sobre a posse de Lula para o Corriere della Sera, que eu tentei contaminar com uma série de comentários debochados e preconceituosos.
Numa das passagens do livro - e estou chegando onde eu pretendia chegar, só falta mais um tantinho -, Mauro Covacich recorda sua viagem ao Brasil.
Em particular: os sanduíches de filé com queijo e meu filho mais velho, aquele que tem paralisia cerebral (Sim, eu também já corri pelado pelos campos de futebol, exibindo alegremente minha intimidade, embriagado de felicidade, ziguezagueando para escapar de meus perseguidores).
Na página 165, Mauro Covacich cita expressamente meu filho, Tito, e pergunta a sua mulher:
- Você se lembra da pena que sentíamos daquele menino?
Pena? Eu olho para minha mulher, e minha mulher olha para mim, e nós olhamos para nossos filhos, tanto um quanto o outro, o primeiro com paralisia cerebral e o segundo sem paralisia cerebral, e dizemos em perfeita sincronia:
- Como é que alguém pode sentir pena dele?
Esse é um dos aspectos mais espantosos de se ter um filho como o nosso. Nada nele provoca pena. Nada mesmo. Ele é um homenzinho seguro de si, contagiosamente alegre, independente, cheio de idéias próprias. Mas os sentimentos das pessoas acabam barateando a realidade.
Eu sempre tratei os sentimentos, todos eles, com um certo desprezo. Os sentimentos tortos despertados por nosso filho só fortaleceram isso.
Em meu caso, correr nu pelo gramado, com meu filho no cangote, à procura de Cristiano Ronaldo, teve esse efeito salutar: me treinou a ignorar o grito passional e confuso da arquibancada.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:19 PMComments:
Lya Luft
O que valem as medalhas?
"Às vezes penso que odiamos nossos ídolos, estamos sempre à espreita de uma falha para os devorar"
Atletas são os modernos gladiadores. Não enfrentam animais de quatro patas ou adversários humanos na arena do matar ou morrer. Combatem outras feras: o público, o clube, a mídia, que os encaram como máquinas de produzir gols ou cestas, marcas extraordinárias, golpes, saltos ou velocidades sobre-humanas.
Não se pode obter menos do que o primeiro lugar e a medalha de ouro. Se for de prata, amarelaram. Se for de bronze, nos envergonharam. Vejo espantada rapazes e moças que atuaram com sacrifícios e dores que nem imaginamos saírem como derrotados, xingados e aos prantos, quando não conquistaram o ouro.
Que perversa cobrança lhes fazemos, ou os levamos a fazer a si mesmos? Que insano dever os obriga a estar na ponta, na frente, na trincheira? E, depois dessa medalha de ouro, tem de vir outra igual, pois nada lhes é permitido fora isso, a não ser pedir desculpas.
Eu nunca pude praticar esportes. Mas sempre os apreciei, numa casa em que se torcia entusiasticamente nas tardes de domingo, em partidas de futebol.
Fiz parte da torcida de muitos jogos de basquete e vôlei em que primos e colegas meus disputavam aplausos ou vaias. Talvez eu ligue esportes a convívio alegre, a brilho, à busca do melhor. Saúde, competição boa, camaradagem.
Atômica Studio
Nossa crueldade com os atletas atuais é impressionante. Anos de treinamento severo, pouca vida pessoal, afastamento da família, implacáveis exigências dos outros, do público e de si próprios.
Muito atleta brasileiro de origem modesta passou a ser um novo milionário em grandes cidades européias. Sua vida se resume a pouca diversão, dieta severa, sofrimento físico, e à pressão crescente de um público sempre insatisfeito. É preciso ser mais do que bom, pelo clube, pelo país.
É uma obrigação ser um ídolo, manter-se um ídolo. Às vezes penso que odiamos nossos ídolos, estamos sempre à espreita de uma falha para os devorar. Polegar para baixo, fim de linha.
A questão não deveria ser o que esse atleta deu a seu país, mas, antes de tudo, o que o país fez pelo atleta para ele se tornar excelente.
Esporte faz parte da educação. Se ela anda em níveis trágicos, dificilmente o esporte brilha. Nossas escolas caem aos pedaços, universidades afundam na mediocridade, estudantes vagam na descrença, pressionados por mentira, farsa, negligência e esquecimento.
Onde estão as quadras esportivas públicas, para que se forme uma tradição e cresçam futuros vencedores, para que em lugar de rua e drogas crianças e jovens se empenhem em competir de forma saudável, com outros ideais além do mortal dinheiro fácil da venda de drogas?
Rola muito dinheiro por trás dos esportes e de competições como as Olimpíadas: será que nossos atletas recebem cuidado, alimentação, acompanhamento de primeira, de primeiríssima – como deveria, aliás, receber qualquer cidadão brasileiro?
Bibliotecas combinam com quadras esportivas, professores bem pagos e treinadores valorizados. Ensinar a distinguir o pior do melhor, tornar criança e jovem cidadãos conscientes e ativos, isso somado a ensinar a ler, habituar a ler, fazer escrever direito, em suma, ensiná-los a pensar e expressar seu pensamento de forma clara e ordenada.
Atletas não precisam ser broncos. Pobres não precisam ser ignorantes. Não considero boa a educação que apenas tenta formar o chamado "cidadão consciente", quando ele nem ao menos sabe de que deve ter consciência e como vai expressar isso.
Quando tachamos de "ricos babacas" os estudantes que não vivem na miséria, o que esperar deles? Que estímulo recebem os pouquíssimos alunos "ricos", sabendo disso, e como reagem os seus colegas menos privilegiados?
Esporte deveria ser convívio natural de gente saudável e pacífica, coerente e bem formada, sem medo de nenhum tipo de sucesso, e sem ter de correr atrás dele obsessivamente.
Nesta comédia de enganos, os "derrotados" por não ter o ouro devem se esconder. Os vitoriosos que fiquem atentos ao polegar: para cima ou para baixo, também para eles, se da próxima vez não cumprirem satisfatoriamente o seu papel.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:18 PMComments:
Marianne Piemonte
Personagem da semana - F.P., 11 anos - O menino que roubava carros
Jovem demais até para ser levado para a antiga Febem, ele é o terror de um bairro da periferia de São Paulo
À SOLTA
Nas ruas do Jardim Ubirajara, zona sul de São Paulo, o menino de 11 anos mete medo nos vizinhos e não respeita a famíliaEsta criança tem 11 anos.
Há um ano e meio não vai à escola, foi expulsa duas vezes por provocar brigas. Nesse mesmo período, somou sete ocorrências registradas nas delegacias de polícia de São Paulo. Furto de três carros, assalto a uma farmácia e atentado ao pudor fazem parte de sua precoce folha corrida. No dia 5 de setembro, completará 12 anos.
Como presente, deverá ser levada para a Fundação Casa, a ex-Febem. Porque antes dos 12 anos completos, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, não pode ter sua liberdade tolhida.
Porém, o pré-adolescente de 1,40 metro, cabelo raspado e topete descolorido mete medo nos vizinhos do Jardim Ubirajara, onde mora, na extrema zona sul da cidade, e na família.
Na última semana, voltou para casa de carona em carros da polícia duas vezes. Seus feitos: o roubo de um Chevette e um Gol, com mais dois adolescentes. O menino foi pego dirigindo em alta velocidade. No entanto, ele está à solta.
O promotor de Justiça da Vara da Infância e Juventude Thales Oliveira disse na quarta-feira à tarde que o menino havia sido levado para um “abrigamento”, casas onde são colocados menores em situação de risco.
“Ali eles recebem apoio psicológico, mas podem sair e receber visitas”, afirma. Naquele momento, nem o promotor sabia que F.P. havia fugido do abrigamento à noite, ameaçando os funcionários com uma caneta Bic.
No fim da tarde da quarta-feira, no quintal de cimento da casa de reboco no Jardim Ubirajara, dois cachorros vira-latas dormiam ao lado de um carrinho de plástico, uma Ferrari vermelha, e de duas bonecas de plástico duro, sem braços nem cabelos. Elizabete Antônio, de 35 anos, a mãe de F., ainda não tinha voltado para casa.
A irmã mais velha do menino infrator tentava que o padrasto dela e pai de F., o aposentado Lourenço Pinheiro, de 62, não falasse mais com os repórteres. “Se ele (F.) estivesse aqui, vocês não iam ter coragem de ficar na frente da casa”, dizia a menina de 16 anos.
Pela janela, sem trincos nem vidros, era possível ver a cama ainda feita do menino que havia três dias não voltava para casa. O motivo de seus lençóis, o filme Carros, da Disney.
Rene Samus, de 33 anos, inquilino da edícula da casa da família, conta que o pai já colocou cadeado nas janelas e até bateu no menino para que ele não saísse de casa.
Mas nada o detinha. “Eu ouvia falar que ele estava metido com coisas ruins, mas para mim ele é o garoto que brinca com carrinho no quintal.”
‘‘Fiquei feliz com a prisão, assim ele ia se recuperar” FERNANDO ANTÔNIO, 65, avô de F.
A poucos metros da casa fica o bar de seu José Joaquim, de 68 anos, onde a clientela costuma parar para tomar um conhaque com menta depois do expediente. É lá que mora o pedreiro Fernando Antônio, de 65, avô de F., pai de Elizabete.
Atrás do quarto que aluga estão a Favela do Abacateiro e seus altos índices de violência. O negro franzino e entristecido torce para que o neto fique preso. “Outro dia sonhei com ele morto. Fiquei feliz com a prisão, assim ele ia se recuperar.”
Fernando deixou Santa Rita de Ibitipoca, Minas Gerais, em 1968. Veio para São Paulo casado e foi no Jardim Ubirajara que teve os três filhos.
A mulher o abandonou com as crianças ainda pequenas. A mais velha, Elizabete, mãe de F., tinha apenas 5 anos. Por isso, os filhos foram criados com a ajuda de parentes.
“Mas parente não é como mãe, né?”, diz. Fernando enche os olhos de lágrima para contar que a filha ainda sofre de bronquite, doença que ele julga ter sido causada pela friagem que ela pegava na casa onde morou. “Era muito úmida”, disse.
DESABAFO
“Elizabete está pagando o que me fez passar”, disse o avô de F. sobre a mãe do menino, que teve passagens pela polícia e pela Febem
Ele conta que criou os filhos com muito carinho, mas faz questão de dizer que foi severo e cobrou que eles trabalhassem e estudassem. Mesmo assim, a mãe de F. teve uma passagem pela Febem por furto, onde ficou por dois anos.
“Ela tirava coisas dos lugares em que começou a trabalhar como doméstica aos 12 anos”, disse. Na década de 80, também segundo o pai, Elizabete passou mais cinco anos na cadeia pelo mesmo motivo. Há cerca de um mês, ele conta, ela foi parar na cadeia novamente.
Mas desta vez a passagem teria sido causada por uns cheques e um carro encontrado pela polícia na casa dela. Os objetos teriam sido trazidos por F.
O avô desabafa: “Elizabete está pagando o que me fez passar”.
Para Fernando, ainda bem novo F. demonstrava ser ambicioso. “Tênis para ele é só acima de R$ 200. Só veste roupa de marca e adora ir à pizzaria comer e beber”, disse. Para ele, isso deveria ter sido um sinal para os pais.
“Ninguém na casa é assim.” O avô conta que o menino andou no tráfico por um tempo, mas não acredita que ele esteja metido com drogas.
Os vizinhos contam que o menino costumava tirar rachas com os carros que roubava e se exibia costurando pelas avenidas do bairro. Ninguém sabe dizer quem o ensinou a dirigir tão cedo.
O dono de um bar próximo diz que nunca viu o menino armado: “Mas nem precisa, o povo aqui morre de medo dele”. Como o Dadinho, personagem do filme Cidade de Deus, o menino impõe respeito (ou medo) pelo linguajar da periferia e pelo jeito de encarar quem lhe passa pela frente.
“Qual é, tio?”, costuma dizer, empinando o queixo, quando quer começar uma conversa, conta o avô. O dono do bar diz que já viu casos de meninos ali que depois que “deitam” – “matam”, na gíria – o primeiro não param mais.
“A molecada aqui é perdida. Vive na rua e sem o que fazer”, afirmou. Se isso acontecer com F., o avô diz temer que o menino se torne um criminoso perigoso. E com isso uma fatalidade, a morte precoce dele.
Se o receio do avô virar realidade, o Jardim Ubirajara poderá assistir longe do cinema ao Dadinho se transformar no Zé Pequeno, aquele que foi o maior bandido e traficante da favela carioca, que começou a roubar ainda menino.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:18 PMComments: Sábado, Agosto 23, 2008
Diego Mainardi
Tapar as vergonhas
Acabei de voltar da praia. Está sol. O mar, esverdeado, transparente, está com jeito de limpinho. Me estendi na cadeira de plástico e pedi, nesta ordem, um picolé de coco, um biscoito de polvilho e um suco de laranja com cenoura.
Olhando para o horizonte, com ar satisfeito, pensei: preciso me mudar daqui.
Qual é o motivo? Aí é que está: eu nunca precisei de motivos para ir embora de onde quer que me encontrasse. Ir embora sempre me pareceu imensamente mais proveitoso do que permanecer. Ir embora de uma cidade.
Ir embora de um jantar. Ir embora de um espetáculo. Ir embora da praia. Eu gosto da praia. Eu gosto de mergulhar no mar.
Eu gosto de ter as costas suadas, grudadas na cadeira de plástico. Eu gosto de ter a pele queimada, naquele estado pré-cancerígeno. Mas muito melhor do que tudo isso é pagar os dez reais à barraqueira e voltar correndo para casa.
Compromissos familiares tornaram bem mais árdua a tarefa de ir embora. Tenho de arrastar um monte de gente comigo. Em geral, em meio a protestos.
O fato de nunca ter precisado de motivos para ir embora de onde quer que me encontrasse constitui um grande empecilho, porque me faltam argumentos para persuadir os demais.
Eu digo: "Precisamos ir embora da praia".
Respondem: "Por que precisamos ir embora da praia?"
Eu digo: "Tenho de dar um motivo?"
Respondem: "Tem".
Eu tento ganhar alguns segundos: "Tem de ser um bom motivo?"
Respondem: "Qualquer motivo serve, até mesmo um mau motivo".
Eu arrisco: "Olhem esta mancha. Deve ser um carcinoma".
Assim como um crente dispensa argumentos terrenos para acreditar em Deus, eu também dispenso argumentos para acreditar na necessidade de ir embora. Ir embora é meu valor supremo, absoluto. Migrar é minha única fé.
Sou uma espécie de padre Anchieta dos migrantes: tento converter o gentio a tapar as vergonhas, fazer as malas e ir embora. Em se tratando de brasileiros e brasileiras, essa é invariavelmente a parte mais difícil: tapar as vergonhas. Adeus.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:13 AMComments:
Claudio de Moura Castro
Agronegócio sem educação?
"Podemos discutir se as escolas são fruto da prosperidade ou se ajudam a trazê-la. Mas sabemos que o agronegócio só vinga
onde há gente bem educada"
Repetem-se as proezas do agronegócio brasileiro. O país faz bonito na soja, nos sucos, na carne, no frango e em outros produtos resultantes do feliz encontro entre sol, água, inovação tecnológica e capacidade empresarial.
A equação contém os ingredientes do sucesso. Sol e água creditamos à generosidade divina. Na tecnologia, bem conhecemos a liderança da Embrapa, que traz a reboque muita pesquisa universitária. O empresariado rural foi uma surpresa.
Persiste a imagem do coronel do interior, herdeiro de um feudalismo atrasado. Era um empresário ausente do campo e presente nas grandes capitais, onde esbanjava suas riquezas. De onde veio essa nova classe empresarial moderna, arrojada e pragmática?
A história ainda não está bem contada. Quem sabe o mapa do Brasil daria algumas respostas? Pedi a um agrônomo que me marcasse com pontinhos no mapa onde estava situado o agronegócio.
Em seguida, tomei os níveis que cada estado obteve no Ideb (um indicador do MEC que combina a velocidade de avanço dos alunos no sistema com a pontuação obtida na Prova Brasil).
Dividi os estados em quatro categorias. Em seguida, superpus um mapa ao outro. Pude ver, simultaneamente, a distribuição do agronegócio e o nível de avanço da educação. Surpresa!
O agronegócio só viceja nos estados que estão na metade de cima da qualidade da educação. Seja qual for a razão, ele não gosta de estados com gente pouco educada.
Vamos entender melhor o lado da educação. A liderança dos estados do Centro-Sul é centenária. Mas o Centro-Oeste deu um salto enorme, ultrapassando velozmente o Norte e o Nordeste.
A razão é simples: foi colonizado por migrantes do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, tradicionalmente os estados com os melhores níveis de escolaridade. Ao migrar para os cerrados do Centro-Oeste, essa gente reproduziu lá seu estilo de vida.
No interior de Goiás deparei com um negro trajando bombachas. Vinha do Rio Grande do Sul, tchê! Como levaram as bombachas, os gaúchos também carregaram para lá as escolas e a infra-estrutura de água e esgoto tratados.
O mapa, contudo, mostra algumas bolinhas avançando sobre estados educacionalmente mais pobres do Norte e do Nordeste. Mas são microrregiões colonizadas pelos fluxos migratórios sulinos, avançando no território do oeste da Bahia, sul do Piauí e do Pará.
As aparentes exceções não fazem senão confirmar o que indica o mapa: o agronegócio não se localizou onde a educação é fraca.
Poderíamos pensar que a Embrapa estaria a serviço de um capitalismo sulino, furtando-se de investir no que precisariam o Norte e o Nordeste para dar igual salto. A teoria parece boa. Mas não é. A Embrapa tem enormes investimentos em produtos para toda a geografia nacional. Ainda assim, seus grandes clientes se encontram no agronegócio.
Ao se registrar a forte aderência do agronegócio às regiões habitadas por gente mais bem educada, nota-se, também, pistas para o enigma do aparecimento de um empresariado moderno no campo.
Ao que tudo indica, seu surgimento está ainda associado aos níveis superiores de educação e modernidade do Centro-Sul e às ondas de colonização vindas de lá. Por serem mais bem educados e possuírem uma cultura empresarial, eles entendem de mercado e apropriam-se das melhores tecnologias.
No fim dos anos 70, numa visita a Ijuí, eu discutia educação rural com as lideranças de uma cooperativa agrícola. Eu falava de escolas com galinhas circulando pelas salas de aula e não nos entendíamos. Finalmente, eu vi que estava fora de seu universo.
A preocupação delas era conseguir que as instituições de ensino da região preparassem seus alunos para entender a bolsa de cereais de Chicago, já on-line na cooperativa. São esses os responsáveis pelo crescimento da soja no Centro-Oeste.
O que aprendemos com o mapa citado no presente ensaio? Podemos discutir se as escolas são fruto da prosperidade ou se ajudam a trazê-la.
Podemos entrar no campo pantanoso das relações entre educação e traços culturais. Mas, no mínimo, ficamos sabendo que o agronegócio só vinga onde há ou aparece gente mais bem educada.
Claudio de moura castro é economista claudio&moura&castro@cmcastro.com.br
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:13 AMComments:
A ordem é desacelerar
Nada de apertar a agenda para caber mais um compromisso. Adeptos do slow life declaram alforria do relógio na hora de comer, viajar e trabalhar
VERÔNICA MAMBRINI
SLOW DESIGN As peças que Vanessa faz levam até um mês para ficarem prontas
"Stop. A vida parou ou foi o automóvel?" Em poucas palavras, o poeta Carlos Drummond de Andrade expressou a aflição que corre junto com o tempo na cidade. Almoçar um lanche rápido, ficar preso no trânsito, correr para buscar os filhos na escola, descansar, se divertir – são muitas atividades para apenas 24 horas.
Para a maioria dos habitantes das metrópoles, essa rotina é comum. Mas precisa ser assim? Não, pelo menos na opinião dos adeptos do slow life (vida devagar).
Partindo do princípio de que uma pessoa vive em média 700.800 horas e que gastamos 70 mil delas no trabalho, esse movimento defende a idéia de não concentrar tanta energia só nesse aspecto da vida. Mas não há regras rígidas: tudo o que eles querem é liberdade para viver sem atropelos.
O pessoal do slow food, por exemplo, foge das refeições apressadas. Delivery, comida congelada? Nem pensar. Mas há especialidades para todos os gostos na vida slow: andar, vestir, comer, morar, educar, envelhecer, produzir.
Essas formas de viver sem pressa estão no manifesto em que Kakegawa, no Japão (onde nasceu o movimento), se declarou uma cidade slow em 2002, trazendo propostas para uso mais prazeroso e equilibrado do tempo.
SLOW FOOD Cenia Salles prega a valorização de produtos orgânicos e de pequenos produtores
O movimento ganha adeptos no Brasil, onde as pessoas começam a se reunir para discutir formas de eliminar os ralos por onde o tempo escorre na rotina. Um dos idealizadores desses encontros é o terapeuta corporal Jorge Mello.
“Organizar mal as prioridades gera frustração, porque você acaba se dedicando demais a coisas que não lhe dizem respeito”, diz Mello.
Em encontros em cafés e piqueniques apelidados de simplenics, as pessoas conversam sobre como obter mais tempo para o que gostam. O equilíbrio entre o que traz bem-estar e o que causa perturbação é chamado de “ponto de suficiência”.
A stylist Vanessa Montoro pode nunca ter pensado nesse rótulo antes, mas vive há tempos conforme o slow life. A criadora de roupas e acessórios em seda tingidos naturalmente aprendeu o prazer de tricotar e crochetar com a avó e o transformou em ofício. “Como o processo é todo manual, levo até 30 dias para fazer uma peça.
É um trabalho raríssimo, que máquina nenhuma consegue fazer”, explica. Isso tem um preço: algumas peças chegam a custar R$ 2 mil. Essa preocupação em produzir artigos que durem e sejam atemporais se enquadra numa tendência chamada slow design.
“Acho o conceito de moda absurdo: ela é passageira, te atropela. Ainda estamos no inverno e as lojas já estão em liquidação! É uma agressão, totalmente contra o que eu faço”, afirma Vanessa.
SLOW TRAVEL Mariane viajou para a Europa e conheceu 11 países em um ano. A idéia é mergulhar na cultura de cada lugar
É claro que viver assim em tempo integral é para poucos. Tanto que o movimento slow nasceu em países desenvolvidos. Na Itália, surgiu o slow food, do qual a consultora gastronômica CeCenia Salles é adepta.
Depois de ajustes na sua vida, ela mudou o escritório para casa, em São Paulo, concentrou seu diaa- dia no bairro e agora sobra tempo para refeições com a família e os amigos à mesa – como reza a cartilha do slow food.
Os adeptos, que participarão de um encontro mundial em outubro na Itália, pregam a valorização de produtos orgânicos e de pequenos produtores, e claro, dedicação às panelas. “Dá trabalho, mas, se você não abrir esse espaço, ele não existirá”, acredita Cenia.
Essa percepção do tempo que as pessoas tentam controlar está na dimensão psicológica (por isso 15 minutos num consultório médico parecem uma eternidade, mas voam entre amigos) e na social, em que é preciso se desdobrar entre trabalho, família, trânsito, etc.
Para o filósofo Luiz Felipe Ponde, quem adere à tendência passou por uma sofisticação intelectual e econômica. “É quase impossível você ser slow na Etiópia, sempre há custos envolvidos”, afirma.
Sem um centavo no bolso, Mariane Lins Cavalheiro, 24 anos, tinha acabado de se formar em administração quando decidiu passar uma temporada fora do País. Fez as malas e partiu para a Holanda, onde foi trabalhar como babá para uma família.
Descobriu o slow travel como um jeito relativamente barato de aprofundar a experiência. “Em um ano, conheci 11 países”, conta. “Você pode fazer isso em dois meses, mas aí vem a filosofia do slow travel.
É conhecer a cultura, as pessoas e fazer o que você realmente gosta.” Vale conhecer menos, divertindo-se mais. “Afinal, você não tem que voltar cansado das suas férias”, resume Mariane.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:12 AMComments:
Por TATIANA DE MELLO
Md 82, o avião da morte
"Vi uma bola de fogo e ouvi uma explosão. Ele caiu como uma folha de árvore incandescente" - a frase é da espanhola Martha Natividad de las Rosas. "Foi o que há de mais parecido com o inferno" - a frase é da também espanhola Goretti Alvarez.
A "folha de árvore" e o "inferno" mataram 153 pessoas e feriram outras 19 no meio da tarde da quarta-feira 20, no Aeroporto de Barajas, em Madri, no acidente com um avião McDonnell MD 82 da companhia Spanair.
Entre os mortos está o brasileiro Ronaldo Gomes Silva, paraense de 28 anos. Goretti iria embarcar nesse vôo, mas desistiu porque o bilhete para o arquipélago das Canárias, da empresa Ibéria, custou-lhe dez euros menos.
Martha estava no aeroporto somente por estar, passeando, quando testemunhou o acidente: o MD 82 decolou, ganhou pouquíssima altura, pegou fogo (motor esquerdo), caiu, arrastou-se para fora da pista, explodiu e partiu- se em dois. Seu destino era Las Palmas, capital das Ilhas Canárias.
Na aeronave havia 162 passageiros (entre eles, dois bebês que sobreviveram) e dez tripulantes. Foi o pior acidente aéreo na Europa nos últimos dez anos.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:12 AMComments: Sábado, Agosto 16, 2008
Diego Mainardi
A gente nunca chega até as finais
Eu estou certo. Quem está errado é Pequim. Eu durmo cedo e acordo cedo. O que sobra para alguém como eu, nos Jogos Olímpicos, é a bateria preliminar dos 200 metros de nado de peito.
Eu assisto à bateria preliminar dos 200 metros de nado de peito. E, à tarde, antes de pegar no sono - eu durmo cedo e acordo cedo, mas também tiro uma pestana bem no comecinho da tarde - assisto às reprises das burlescas trapalhadas dos atletas brasileiros.
É uma farra. Como é que eles conseguem ser ruins desse jeito? Como é que eles podem perder tanto assim? Eu vaio a TV, assobio para a TV, jogo o travesseiro na TV. Depois viro para o lado e durmo feliz.
O aspecto mais gratificante de se torcer contra os brasileiros é que a gente sempre acaba ganhando. Cada medalha de bronze perdida pode ser comemorada como um triunfo.
Mas nossos atletas em Pequim merecem ser festejados por algo muito mais transcendental do que o mero sucesso esportivo. Com suas humilhantes derrotas, eles ajudam a ratificar todos os estereótipos mais grosseiros sobre o Brasil e os brasileiros. O povo dócil. A cultura conformista.
O caráter frágil. A personalidade titubiante. O espírito resignado. O pendor para ser eternamente café-com-leite. É reconfortante saber que o país nunca trairá nossas piores expectativas.
No passado, eu era mais generoso. Só torcia para atletas cujos países conseguiam superar rígidos critérios sociais e políticos. Antes de escolher um time, eu reunia o Conselho de Segurança da ONU em minha sala de estar e fazia-o debater por horas e horas, decidindo autarquicamente quem poderia contar com meu valioso apoio. Com o tempo, isso mudou.
Aceitei a idéia de que uma prova de canoagem era simplesmente uma prova de canoagem. A China oprimiu monges tibetanos? A Rússia bombardeou a Geórgia? Continue a remar. Isso mesmo. Só mais um minutinho. Falta pouco. Estou quase dormindo. Dormi.
Quando eu acordar, o Brasil terá perdido mais umas doze medalhas de bronze. O país é uma bateria preliminar dos 200 metros de nado de peito. A gente nunca chega até as finais.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 3:40 PMComments:
Lya Luft
Velhos amantes, novos amigos
"Ex-companheiros podem se reaproximar com bondade, tolerância e parceria, porque aprenderam a ser mais tolerantes, porque ficaram mais sábios"
No meio desse mundo dominado por mediocridade e sordidez – que se manifestam sobretudo na vida pública, na qual há muito o bem do cidadão tem menos importância que o bolso e o poder dos que deviam cuidar dele –, aparecem dados positivos. Alguns, quase extraordinários, nos consolam, nos fazem pensar, nos servem de modelo.
Falo em velhos casais separados, que voltaram a ter companheiros, mas se vêem outra vez sozinhos, por viuvez ou nova separação. Separação é sempre triste. Não há nenhuma alegrinha ou animada, tudo provoca culpa ou rancor. Filhos envolvidos sofrem sempre.
O melhor que os pais podem fazer é decidir de coração aberto: "Não somos mais marido e mulher, mas somos pais desses filhos". Se isso for levado a sério, muita dor será evitada. Pessoas dignas e decentes conseguem fazer isso, passada a primeira tempestade de emoções.
Os filhos convivem com pai e mãe, ambos igualmente interessados em sua vida, sua saúde, sua escola, suas amizades, seu crescimento enquanto seres humanos. O chão só se abre quando, o que é comum, os pais – ou um deles (a triste figura é em geral a materna) – usam os filhos para denegrir ou ferir o outro. Talvez o tempo nos torne mais civilizados nisso.
Ilustração Atômica Studio
Gira a roda do tempo, chega a velhice, tão amaldiçoada por uma cultura que endeusa a juventude e os dotes físicos, para pessoas com rala bagagem interior.
Em lugar de curtir a experiência, a serenidade e a sabedoria de sua idade, essas pessoas correm atrás de caricaturas dos jovens que foram. Mas, repito, chega a velhice, que tem aspectos bons e ruins, assim como os tem a juventude. Os que outrora foram um casal estão mais uma vez sozinhos.
Velhice solitária pode ser triste e perigosa, pois, sendo mais frágeis, mais do que nunca os velhos precisam de cuidados e afeto, que os filhos nem sempre podem dar. E eis que ex-cônjuges, na velhice, sozinhos, resolvem voltar a morar juntos.
Vejo bocas abertas de espanto: "O quêêê? Depois de velhos?". Pois exatamente depois de velhos – para se fazerem companhia, para não pesarem demais aos filhos, seja por preocupação ou financeiramente, seja apenas pelo prazer de estarem de novo unidos – ex-casais voltam a morar juntos. Em geral, em quartos separados, como amigos de verdade.
E, se for para dormirem na mesma cama, qual o problema? O que temos com a vida dos outros? O que temos com a vida de nossos pais, a não ser para lhes fazer bem, para lhes dar carinho e cuidados, e zelar pela sua maior felicidade, depois de tudo o que nos deram?
Mas em geral não queremos o bem do outro: queremos controlar sua vida, e que ele seja feliz segundo nossos desejos. Cansei de ver velhos homens ou velhas senhoras obrigados, pelo amor filial, a sair de suas casas, a não viajar mais, a deixar de fazer uma série de coisas boas e ainda possíveis porque "os filhos não o querem".
Lógico que, se for um perigo para o bem-estar ou a saúde, se eles forem pessoas fragilizadas ou doentes, tudo muda de figura.
Mas não é sempre assim. Talvez exageremos nesse cuidado, podando vidas que ainda podiam ser produtivas ou mais felizes, cobrando inconscientemente as preocupações que nos causam. Filhos não são sempre bons filhos, pais nem sempre são bons pais.
Mas voltemos aos velhos ex-cônjuges que voltam a morar juntos: economia nas despesas, generosidade na parceria, menos aflição para os outros. No começo, em geral, há uma fase de acomodação ou readaptação: nem ele nem ela são os mesmos de antigamente. Mas os de antigamente brigavam por razões que hoje talvez não existam mais.
E eles podem se reaproximar com bondade, tolerância e parceria, por novos motivos: porque as implicâncias ou a traição ou o tédio não existem mais; porque aprenderam a ser mais tolerantes; porque ficaram mais sábios; porque é muito melhor dependerem um do outro, ajudando-se mutuamente, do que dependerem de filhos, muitas vezes ocupados e cansados demais com a vida cheia de compromissos que é a de hoje.
Acho uma linda idéia: ex-amantes brigados, que se tornam novos amigos. E por que não? Coisas boas também acontecem.
Lya Luft é escritora
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 3:40 PMComments:
FLÁVIO R. SILVEIRA
Preços apimentados
Carros importados do México não pagam imposto de importação - e o benefício só aumenta o lucro das montadoras
O dólar baixo é a senha: produtos importados vão ficar mais baratos no mercado nacional. Isso, de fato, está acontecendo e, em vários setores, a importação de bens tem sido um antídoto contra pressões inflacionárias.
Somadas a acordos comerciais bilaterais, que reduzem ou até eliminam tarifas de importação de produtos vindos de determinados países, as possibilidades de queda de preço poderiam ser até maiores.
Não é o que acontece, no entanto, na área automobilística. Levantamento feito pela revista Motor Show, especializada no mercado de automóveis, revela que, apesar das isenções desses tributos, veículos fabricados em países com os quais o Brasil mantém acordos dessa natureza continuam tendo, nas concessionárias brasileiras, preços bastante superiores aos praticados nas revendas das nações de origem. O caso mexicano é emblemático.
Mesmo com a isenção total dos 35% de imposto de importação vigorando desde 2002, carros fabricados no México custam aqui entre 44% e 84% a mais que lá, mesmo depois de somados valores referentes a margens de lucro, investimentos em marketing, despesas com tributos internos (como ICMS, IPI, PIS e Cofins), logística e transporte e adaptação às normas técnicas brasileiras (confira tabela).
Assim, o que os deixaria mais acessíveis para o consumidor brasileiro tem sido mais vantajoso para as montadoras.
O estudo, realizado em parceria com a consultoria CSM Worldwide, analisou 11 carros de quatro marcas - Ford, Volkswagen, Nissan e Honda. Depois, repetiu a análise, desta vez com seis modelos de quatro montadoras - Volks, Audi, BMW e Honda - importados de países com os quais o Brasil não possui acordos automotivos.
Os resultados foram bastante diferentes. No segundo caso, os preços praticados no mercado brasileiro permitem um ganho menor aos fabricantes - entre 0,7% e 42%.
"As margens de lucro com os carros mexicanos é fantástica", conclui Paulo Cardamone, diretor do braço brasileiro da CSM Worldwide e responsável pelo Serviço de Previsão de Produção de Veículos na América do Sul.
Com 29 anos de experiência na indústria automotiva, Cardamone afirma que não há uma única razão para que os preços praticados aqui sejam mais altos que os de lá. Em primeiro lugar estaria o próprio mercado, que não exige uma política mais agressiva de redução nas tabelas.
Com os preços dos veículos nacionais e importados de outras regiões mais altos, não interessa às montadoras vender seus modelos mexicanos muito abaixo do valor de seus concorrentes, reduzindo sua margem de lucro.
Em alguns casos, trabalhar com preços menores poderia até mesmo "canibalizar" outros carros da marca produzidos no Brasil, mas de categoria inferior.
"O mercado é equilibrado pelos altos preços internos. Com o preço de um Mille 1.0 no Brasil compra- se um Honda Fit completo nos Estados Unidos", explica.
Parte da explicação pela disparidade dos preços dos automóveis no Brasil e em outros países deve-se, sem dúvida, à taxa de câmbio, que de fato faz com que, convertidos para o dólar, os carros nacionais estejam entre os mais caros do mundo.
Além disso, a indústria automobilística brasileira sofre com os pesados encargos tributários - os impostos sobre produção e comercialização chegam a 35% do valor dos veículos.
Com uma carga menor, alegam as montadoras, haveria uma sensível redução nas tabelas. Procuradas, elas informaram que, em virtude de a composição de preços de seus veículos ser um assunto estratégico e sigiloso, não comentariam o levantamento.
A Ford, através de sua assessoria de imprensa, afirmou que o sedã Fusion - o mais vendido dos mexicanos no Brasil - "exige adequação de itens às normas locais, bem como ao combustível do País" e que "a incidência dos custos de logística e transporte marítimo e terrestre tem forte impacto no preço de um veículo". As respostas de Volks, Nissan e Honda seguiram pelo mesmo caminho.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 3:38 PMComments:
CLAUDIA JORDÃO
Decifrando a matemática
Terror dos estudantes, a disciplina começa a ser ensinada de forma lúdica para cair no gosto dos alunos
GOSTO PELOS NÚMEROS O Colégio Ítaca estimula o consumo de literatura sobre matemática no ensino médio É na aula de culinária que os alunos da educação infantil do Pentágono têm o primeiro contato com números e medidas
A simples pronúncia das palavras álgebra, aritmética ou geometria é o suficiente para arrepiar os cabelos de boa parte dos alunos em uma sala de aula. A constatação não é de hoje.
Pelo contrário, geração após geração, a matemática tem lugar cativo no posto de disciplina mais detestada pelos estudantes. E não é só isso. Talvez por ocupar o topo da lista das menos amadas, ela não é assimilada como deveria – fato que também se confirma a cada ano.
De acordo com levantamento do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), divulgado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os brasileiros obtiveram notas que os colocam na incômoda 53ª posição em matemática, num total de 57 países avaliados.
As provas foram realizadas em 2006 com estudantes de 15 anos e divulgadas no ano passado. Mas, afinal, por que essa disciplina continua sendo tão difícil de aprender – e ensinar – no Brasil?
A professora Suely Druck, presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, garante que a aversão por números não é exclusividade do povo brasileiro. “Essa é uma disciplina complexa mesmo”, diz. Segundo Suely, há um problema central na hora de ensinála. “Diferentemente das outras matérias, a matemática é seqüencial.
Ou seja, se o aluno não aprender a somar e a subtrair, não será capaz de multiplicar ou dividir”, diz. E, no dia-a-dia escolar, essa característica se torna traiçoeira.
“Se a criança começa aprendendo mal a matéria, seu desempenho estará condenado pelos próximos anos, porque ela não conseguirá acompanhar e ficará desmotivada”, conclui. Por causa disso, a dirigente defende que professores de primeira a quarta série do ensino fundamental tenham formação específica na disciplina.
Atualmente, no País, eles são formados em pedagogia e o mesmo profissional inicia a criança no mundo das letras, das ciências e dos números.
“Nas viagens que faço, nos quatro cantos do País, é comum ouvir de professores que os estudantes chegam à quinta série detestando matemática”, conta.
No ensino fundamental do Magno, o xadrez é usado para trabalhar o raciocínio (acima). Já os pequenos aprendem fazendo compras
Ex-ministro da Educação no governo Lula, o senador Cristovam Buarque (PDTDF) faz coro. “A matemática precisa ser apresentada à criança quanto antes, por profissionais capacitados e de maneira interessante”, diz.
Na opinião do senador, pais e educadores devem proporcionar o uso de brinquedos educativos a partir de um ano de idade.
“É nessa fase que eles começam a tomar gosto pelas formas geométricas, além de usar a lógica e o raciocínio.” Boa parte das escolas de educação infantil no País já atentou para isso e busca ensinar matemática de maneira diferente na tentativa de desmistificar o bicho-papão.
É o caso do Colégio Pentágono, em São Paulo, que estimula o aluno através de aulas de culinária. Com dois anos de idade, as crianças são convidadas a contar – o número de ovos, por exemplo.
A partir dos quatro, elas vivenciam situações concretas de manipulação de quantidade, associadas ao conceito de números. “Ao medir a farinha a ser usada no biscoito, pão ou bolo, a criança está vivendo na prática a matemática”, diz Gisela Bertipaglia, coordenadora de educação infantil de uma das unidades da escola.
O Colégio Magno, também em São Paulo, desenvolve atividades com o objetivo de ensinar educação financeira para alunos de três a seis anos.
Para praticar os ensinamentos, eles usam dinheiro de mentira e compram produtos de brinquedo na Vila OZ – um espaço que reproduz uma cidade, com mercado, peixaria e floricultura, montado dentro da escola. “Nessa fase, se a criança não observa, ela não entende”, explica Cláudia Tricate, diretora da instituição.
A preocupação em preparar o estudante para um convívio menos estressante com a matéria se estende, em algumas escolas, para os ensinos fundamental e médio. No Magno, por exemplo, o xadrez é praticado nas aulas de matemática de primeira a nona série, como forma de melhorar o raciocínio do aluno.
No Colégio Ítaca, também na capital paulista, a professora de matemática Maria Ângela de Camargo concilia a disciplina em si com literatura sobre o assunto na sala de aula do segundo e terceiro ano do ensino médio.
“Nessa época, quando os jovens se preparam para o vestibular e têm que ler e estudar muito, é um desafio inovar”, diz ela. Mas há dez anos a educadora vence a batalha.
“Procuro aproveitar todas as oportunidades que tenho para mostrar que a matemática é sensacional”, diz. Os livros indicados são O diabo dos números (Hanz Magnus Enzensberger), aos alunos do segundo ano, e O último teorema de Fermat (Simon Singh), aos do terceiro.
Se em escolas particulares os professores encontram dificuldades para atrair os alunos e desmistificar a matemática, os problemas crescem em progressão geométrica no ensino público.
Nele, a educação brasileira vive um trinômio perverso: má-formação de professores, baixos salários e péssimas condições de ensino. “
O educador é solitário. Ele ensina sem biblioteca, sem laboratório, sem internet e sem tempo para se reciclar, por causa de sua carga horária pesada”, diz Suely. Na análise de Buarque, há também a contrapartida do estudante. “Criança pobre não se alimenta bem.
Portanto, é mais complicado ainda assimilar a matéria”. Com dificuldades maiores ou menores, essa disciplina cheia de números e símbolos ainda é o bicho papão das salas de aulas, apesar do empenho em torná-la menos assustadora e mais atraente.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 3:38 PMComments: Sábado, Agosto 09, 2008
Marcos Todeschini - Paulo Pereira
Trabalho - Saudosos do escritório
Depois de conquistarem a regalia de trabalhar em casa, eles se viram solitários – e buscam compartilhar salas
Uma secretária só Eles trabalham em diferentes empresas, mas dividem tudo
Trabalhar em casa era um sonho acalentado por funcionários de algumas das maiores multinacionais na década passada. Com o surgimento da internet, parte delas aderiu ao home office, modalidade que deu àquelas pessoas, pela primeira vez, a alternativa de executar tarefas longe do escritório.
Nos Estados Unidos, 10 milhões de empregados passaram a cumprir parte do expediente em casa. No Brasil, foram 4 milhões.
Depois de uma década levando uma vida que eles próprios definiam como "mais livre" e "menos entediante", a novidade é que uma parcela começa a dar inesperados sinais de nostalgia em relação aos tempos de escritório.
É o que explica o fato de algo como 10% desses brasileiros terem saído em busca de uma alternativa. Eles estão alugando salas em espaços povoados por centenas de pessoas.
Lembra o passado, mas com uma diferença fundamental: essas pessoas permanecem fora das empresas para as quais trabalham. A experiência é relatada com grande entusiasmo por profissionais como o engenheiro Cledson Sakurai, 36 anos, desde 2002 numa multinacional francesa na área de tecnologia.
Ele trocou o silêncio do home office por um desses escritórios abarrotados de gente. "Trabalhar sem ninguém ao lado pode se tornar solitário e improdutivo."
O modelo de escritórios compartilhados, nos quais atuam pessoas das mais diversas empresas e áreas, popularizou-se nos Estados Unidos de três anos para cá, quando firmas especializadas no aluguel de salas comerciais perceberam estar diante de um novo fenômeno.
Pessoas que haviam conquistado o direito de trabalhar em casa começavam a se queixar do isolamento e de certa falta de infra-estrutura.
Em pesquisas, esses profissionais diziam sentir saudade da secretária e da velha sala de reuniões ("tratar de negócios em casa nunca deu certo"). Mas não queriam voltar à vigilância dos chefes. Os novos escritórios suprem tais demandas – e têm se revelado ainda ambientes favoráveis à produtividade tão almejada pelas empresas.
É por isso que algumas delas, as mesmas que haviam liberado seus funcionários para trabalhar em casa, patrocinam sua estada nas salas compartilhadas. Lincoln Brasil, diretor da Silva Rosa, consultoria na área de tecnologia, diz que, há dois anos, banca o aluguel de empregados nessas salas.
"Eles passaram a organizar melhor o tempo e a respeitar mais os prazos." Houve também um ganho financeiro para a empresa. "Enxugamos a estrutura fixa e, com isso, cortamos 85% dos gastos."
Lailson Santos
Eles pagam a conta
Lincoln e Marcos Sakamoto: suas empresas alugam salas para quem prefere trabalhar lá
Existem quase 1 000 escritórios do gênero nos Estados Unidos. No Brasil, não passam de uma centena – mas o modelo tende a se popularizar por duas razões.
Primeiro, muitas empresas começam a incentivar a permanência em tais estruturas, a exemplo do que fez o Google, nos Estados Unidos.
O segundo motivo é uma particularidade brasileira: o número de pessoas que trabalham por conta própria aumenta. Só nos últimos cinco anos, cresceu 22%. Esses profissionais também já procuram os escritórios compartilhados – impulsionados pelo preço (algo como 1 000 reais por mês) e pela chance de ampliar a rede de contatos.
Foi um "colega de espaço" que apresentou o publicitário João Paulo Filomeno, 28 anos, a um de seus melhores clientes. "Em casa, teria perdido um ótimo contrato", diz ele.
Para os donos dos escritórios, o negócio também se revela lucrativo. A maioria já vivia do aluguel de salas comerciais nos moldes tradicionais: um inquilino só e nenhum serviço adicional.
O processo de adaptação ao novo modelo, que inclui tornar o ambiente wi-fi e comprar equipamentos para salas de reuniões, é simples e barato. O investimento tem bom retorno.
"Com mais gente pagando pelo mesmo espaço, a margem de lucro do meu negócio subiu 50%", diz Daniel Corrales, sócio da Private Office, maior empresa especializada em salas compartilhadas do país. Ao apostar na nova fórmula, ele e os outros contam com a atração daquelas pessoas para quem a possibilidade de trabalhar de pijama já não tem a mesma graça.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:49 AMComments:
Stephen Kanitz
Por uma sociedade justa e eficiente
Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados? Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas
Ilustração Atômica Studio
No primeiro ano de faculdade aprendi um truque que muito me auxiliou na hora de obter notas melhores. Descobri que, numa prova na qual cai um tema que você não estudou, que o pegou de surpresa, sobre um assunto de que você não sabe absolutamente nada, o melhor é não entregá-la em branco, que seria a coisa mais lógica e correta a fazer.
Nessas horas, escreva sempre alguma coisa, preencha o papel com abobrinhas, pois, quanto maior o número de páginas, melhor.
Isso porque existem dois tipos de professor no Brasil: um deles é formado pelos que corrigem de acordo com o que é certo e errado. São geralmente professores de engenharia, produção, direito, matemática, recursos humanos e administração.
Escrever que dois mais dois podem ser três ou doze, dependendo "da interpretação lógica do seu contexto histórico desconstruído das forças inerentes", não comove esse tipo de professor. Ele dá nota dependendo do resultado, e fim de papo.
Mas, para a minha alegria, e agora também para a sua, existe outro tipo de professor, mais humano e mais socialmente engajado, que dá nota segundo o critério de esforço despendido pelo aluno e não apenas pelo resultado.
Se você escreveu dez páginas e disse coisas interessantes, mesmo que não pertinentes ao tema, ficou as duas horas da prova até o fim, mostrou esforço, ganhará uns pontinhos, digamos uma nota 3 ou até um 3,5.
O que pode ser a sua salvação. Na próxima prova você só precisará tirar um 6,5 para compensar, e não uma impossível nota 10. Se você estudar um mínimo e usar esse truque, vai tirar um 5.
Uma vez formados, os alunos desse tipo de professor são muito fáceis de identificar. Seus textos são permeados de abobrinhas e mais abobrinhas, cheios de platitudes e chavões. Defendem que a renda deve ser distribuída pelo esforço, e não pelo resultado, e que toda criança que compete deve ganhar uma medalha.
Defendem que todo professor de universidade deve ganhar o mesmo salário, independentemente da qualidade das aulas, e que a solução para a educação é mais e mais verbas do governo, sem nenhuma avaliação de desempenho.
Esses dois tipos de professor obviamente não se bicam. É a famosa briga da turma da filosofia contra a turma da engenharia. São as duas grandes visões políticas do mundo, é a diferença entre administração pública e privada.
O que é mais justo, remunerar pelo esforço de cada um ou pelos resultados alcançados? O que é mais correto, remunerar pela obediência e cumprimento de horário ou pelas realizações efetivas com que cada um contribuiu para a sociedade?
Como o Brasil ainda não resolveu essa questão, não podemos discutir o próximo passo, que são as injustiças da opção feita. É justo só remunerar pelo resultado? É justo remunerar somente pelo esforço?
Podemos até escolher um meio-termo, mas qual será a ênfase que daremos na educação dos nossos filhos e na avaliação de nossos trabalhadores? Ao esforço ou ao resultado?
Quem tentou ser útil à sociedade mas fracassou teria direito a uma "renda mínima"? É justo dar 3,5 àqueles cujo esforço foi justamente enganar seus professores e o "sistema"? Não seria justo dar-lhes um sonoro zero? Precisamos optar por uma sociedade justa ou por uma sociedade eficiente, ou podemos ter ambas?
Como aluno, eu tive de me esforçar muito mais para as provas daqueles professores carrascos, que avaliavam resultados, do que para as provas dos professores mais bonzinhos. Quero agradecer publicamente aos professores "carrascos" pela postura ética que adotaram, apesar das nossas amargas críticas na época.
Agora entendo por que tantos de nossos cientistas e professores pertencem à Academia de Letras, por que somos o último país do mundo em termos de patentes, por que tantos brasileiros recebem sem contribuir absolutamente nada para a sociedade e por que nossos políticos falam e falam e não realizam nada.
Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados? Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas.
Stephen Kanitz é administrador - www.kanitz.com.br
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:48 AMComments:
MAURO HALFELD
O que fazer quando a Bolsa está em queda
é professor, consultor de investimentos, comentarista da rádio CBN e escreve semanalmente em ÉPOCA.
Para enviar uma pergunta, acesse a coluna em www.epoca.com.br/halfeldPor que quem investe em ações costuma comprar na alta e vender na baixa? Porque pouca gente aceita ser solitária.
É difícil manter uma estratégia que vai na contramão do mercado – comprar pechinchas quando os amigos e os parentes estão vendendo e vender quando todo mundo está indo às compras. Mas quem tiver sangue-frio e convicção em relação a sua estratégia e desprendimento para enfrentar o barulho da multidão provavelmente vai colher bons resultados.
Eu nunca tinha investido em ações até novembro do ano passado. Seguindo a sugestão de um colega de trabalho, apliquei em um fundo de ações do meu banco pensando em complementar minha aposentadoria.
Já perdi mais de 20% de meu capital e não estou suportando ver o extrato da conta. O dinheiro não pára de evaporar e estou cada vez mais ansioso. O que devo fazer? – Paulo Henrique
Ganhar dinheiro no mercado de ações é uma tarefa para os fortes de coração. É preciso estar emocionalmente preparado para enfrentar as adversidades. Convém também manter certo desprezo pelo senso comum e ter frieza para não se arrepender antes da hora e juntar-se à multidão aos primeiros sinais de prejuízos.
Para quem se angustia com o vaivém do mercado e com as perdas registradas nos momentos de queda das cotações, a alternativa é andar junto com a multidão, mas bem pertinho da porta, para pular fora no primeiro sinal de pânico.
O problema é que você pode acabar saindo na hora errada, atraído por falsos boatos. Pior ainda, pode demorar a ouvir o alarme de incêndio e acabar morrendo pisoteado pelo resto do mercado.
Para fugir desse dilema, o ideal, Paulo, é manter a calma e procurar agir de forma coerente com seus objetivos financeiros de longo prazo. Mais cedo ou mais tarde, a razão acaba por voltar ao mercado. Aí, os mais nervosos pagarão a conta pelo desespero.
No mercado acionário, é preciso estar preparado emocionalmente para enfrentar as adversidades
Meu noivo quer que eu assine um acordo pré-nupcial, mas, sinceramente, fiquei meio ofendida. A família dele tem uma situação financeira melhor que a minha e me senti sendo excluída de uma parte da vida dele. O que devo fazer? – Fernanda
Em vez de você ficar ofendida, procure pensar nos benefícios que um acordo pré-nupcial pode trazer para seu casamento.
A transparência, a sinceridade e a confiança contribuem para reforçar a união do casal e, na falta delas, podem até levar à separação. Discutir questões financeiras antes de se casar é um excelente primeiro passo para uma relação dar certo.
Essa conversa, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, é muito saudável. Vai ajudar você e seu noivo a se preparar para enfrentar a vida a dois. Ninguém faz uma sociedade sem saber quais são os planos do sócio. No casamento, não deve ser diferente.
Por isso, encare o acordo pré-nupcial como uma grande oportunidade de saber quais são as ambições e os projetos de seu noivo e de expor suas idéias. Pensem em como vocês vão fazer para realizar juntos esses planos e aproveitem para programar os investimentos para o futuro.
O acordo pré-nupcial é recomendado para quem já tem um bom patrimônio pessoal antes do casamento ou para quem tem empresas, filhos ou obrigações financeiras de uma relação anterior. As pessoas que têm dívidas antes do casamento ou a expectativa de receber uma herança também devem pensar seriamente em fazer esse pacto.
Embora não seja nada romântico, ele é uma forma de os noivos se prepararem para o caso de separação ou morte de um dos cônjuges.
Recomendo que vocês busquem a orientação de um advogado para que tudo saia de acordo com a legislação. Desejo felicidades ao casal e uma excelente vida a dois!
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:48 AMComments:
09 de agosto de 2008
N° 15689 - NILSON SOUZA
Almas capturadas
Depois que a Celia Ribeiro me fez algumas observações filosóficas sobre fotografias, passei a olhar os retratos do tempo com um misto de curiosidade e espanto. Garantiu-me a nossa especialista em boas maneiras que as posições e os semblantes das pessoas na hora do clic são reveladores de seus sentimentos.
Um olhar oblíquo congelado para a eternidade, a proximidade ou o distanciamento, uma simples mão no ombro, tudo isso pode significar maior ou menor afeto de um personagem para o outro.
Numa foto de família, por exemplo, um bom intérprete de fisionomias é capaz de dizer quem é o filho favorito, qual é o estágio de relacionamento entre o casal, quem é amigo verdadeiro, quem está feliz com o momento e quem sorri apenas porque o fotógrafo mandou dizer xis.
Achei o tema fascinante. Nunca tinha observado fotografias com este olhar quase psicanalítico, embora já tenha percebido verdadeiras confissões no rosto de pessoas flagradas pela máquina.
Alguém já escreveu que o retrato é um texto visual, que registra não apenas o momento, mas também a história passada e as ambições futuras dos retratados. Pode ser. Porém o que mais me impressiona é essa sua capacidade de escancarar sentimentos.
Faz sentido: o rosto de uma pessoa normalmente expressa coragem, sofrimento, medo, paixão, alegria e tristeza. O rosto é o espelho da alma. Um retrato, portanto, nada mais é do que uma alma capturada.
Claro que as pessoas também posam para fotografias. A quantidade de expressões forçadas na hora da foto é infindável. Certamente fotografias desse tipo são menos reveladoras.
Quando a nossa colunista de elegância comentou sobre os sentimentos dos personagens fotografados, estava se referindo a retratos antigos, especialmente de parentes que se juntam para registrar alguma passagem da vida familiar.
Às vezes, a gente mesmo se vê numa foto e não tem certeza do que estava pensando ou sentindo naquele momento. Mas há situações em que não fica qualquer dúvida.
Tenho uma fotografia de quando tinha três ou quatro anos de idade, na qual apareço rindo muito, com um braço erguido e uma laranja na mão.
A câmera, não tenho dúvida, flagrou minha alma infantil num instante de felicidade plena, que nunca mais se repetiu. Por uma razão singela: eu estava no colo de meu pai.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:48 AMComments: