No Twitter, gente que luta para preservar a vida pessoal passa o dia falando de sua vida pessoal. Às vezes, fala mais do que pretendia
DIA, NOITE E MADRUGADA
Sabrina, 310 000 seguidores: de tanto contar o que está fazendo, namorar escondido ficou difícil
É madrugada de uma segunda-feira e a apresentadora Sabrina Sato, acordadíssima, conta aos interessados o que está fazendo no momento. "Gente, estou até com vergonha, pareço uma coruja.
Não consigo dormir. Já tomei leite quente, rezei e li", lamuria-se Sabrina, que não passa mais de três horas sem fazer contato com seus mais de 300 000 seguidores, como é chamada a multidão cadastrada na sua página no Twitter, a rede virtual em que pessoas repartem sua rotina e suas impressões em mensagens rápidas, de até 140 caracteres.
No mesmo dia, depois de avisar na sua página que acabou de amamentar o filho Davi, a cantora Claudia Leitte (310 000 seguidores) fala com VEJA e, ato contínuo, twitta: "Acabei de dar entrevista! O assunto foi Twitter". Também cantora, também baiana, em outubro Ivete Sangalo fez questão de anunciar a seus 470.000 seguidores que estava indo para o hospital ter o filho, Marcelo.
"Crianças, agora vou parar de twittar porque acho que chegou a hora de ter meu baby. Obrigada pelo carinho de todos. Um beijo enorme!", digitou. Embora faça sucesso com meio mundo, ou mais, é entre as celebridades que a mania de dar palpite geralmente irrelevante, a qualquer momento, por celular ou computador, alastrou-se com mais vigor. Isto mesmo: quem antes fugia dos flagrantes para preservar a intimidade agora usa o brinquedinho para divulgar, por vontade própria, detalhes da vida pessoal.
"É o lugar que os famosos encontraram para chegar mais perto do público, impondo, ao mesmo tempo, a distância que querem estabelecer. O problema é que muitas vezes eles mesmos se esquecem e passam dos limites", alerta a consultora de imagem Renata Mello.
Até artistas muito reservados, como a cantora Sandy, apreciam a chance de manter uma relação mais próxima com os fãs. Ela lembra que, logo que entrou para a rede, em junho, chocou os seguidores (230 000, pelas últimas contas) com uma revelação espantosa: confessou que adorava picanha. Choveram comentários.
"Mesmo quando escrevo bobagem, as pessoas acham que é grande coisa. Recebi respostas do tipo ‘nossa, ela come a mesma comida que eu’", admira-se. Igualmente twitteira, a deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS, menos de 8 000 seguidores até agora) também mantém blog e perfis no Orkut e no Facebook, espaços que aproveita tanto para mostrar seu lado mais pessoal quanto para discutir com a oposição com menos formalidade. "Quem quer informação oficial vai ao meu site.
O Twitter é algo comportamental, não é uma central de informações", diz. Para os famosos, uma das maiores utilidades da ferramenta é a possibilidade de negar boatos infundados. Sandy apelou ao Twitter para desmentir que estivesse grávida; Manuela, para esclarecer que não, não estava de casamento marcado. Já Sabrina, nos tempos em que queria manter escondido seu namoro - hoje assumido - com o deputado Fábio Faria (PMN-RN), passou por apertos estratégicos.
"A gente ia ao cinema e eu comentava o filme no Twitter. Ele tinha de tomar cuidado para não comentar a mesma coisa", lembra Sabrina, que, viciada confessa, twitta até em reuniões - "Mas meu lugar preferido é sentada no meu banheiro".
Fotos Anderson Schneider e Lailson Santos
VIVA A INFORMALIDADE
Manuela (à esquerda, 7 800 seguidores) e Claudia (310 000): o gosto de falar sobre tudo, inclusive, ou principalmente, sobre as coisas mais irrelevantes
Gafes acontecem, claro (veja o quadro abaixo), e, lidas por seguidores que se contam aos milhares, viram um caso sério em questão de minutos. No começo do mês, a atriz Thaila Ayala escreveu que "é ruim sentar na primeira cadeira do avião. Todo mundo fica olhando, como se você fosse paraplégico!". Todo mundo, no caso, comentou. Thaila se desculpou e apagou a frase, mas o registro ficou.
"As pessoas ainda estão mais acostumadas com o mundo físico, onde você conta alguma coisa para um amigo e, por mais fofoqueiro que ele seja, vai falar para outras dez pessoas. No mundo virtual, qualquer comentário tem abrangência mundial", diz Wanderson Castilho, especialista em segurança na internet. Ele estima que em média 40% dos seguidores de uma pessoa no Twitter leem a mensagem no instante em que ela é enviada.
Ou seja: não adianta apagar - alguém já viu. Primeiro brasileiro a conquistar 1 milhão de seguidores, o apresentador Luciano Huck diz que se preocupa o tempo todo em não contar mais do que deve, mesma atitude de sua mulher, a também twitteira Angélica.
"A gente toma muito cuidado para não deixar escapar algo que não queremos dividir", diz Huck. "Famoso ou não, a dica é sempre olhar o número de seguidores antes de começar a escrever qualquer coisa", aconselha a consultora Renata.
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Claudio de Moura Castro
Tecnologia para ricos ou pobres?
"Há pouco tempo, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis"
Revolução Industrial pesou no lombo do operariado. Marx e Dickens, com ânimos diferentes, descreveram a miséria opressiva de Londres. Mas, a longo prazo, os maiores ganhos foram para esse mesmo proletariado.
Para Schumpeter, o desenvolvimento econômico não é mais meias de seda para os ricos – que sempre as tiveram à vontade – mas meias para os pobres. Nos países mais prósperos, um operário hoje tem um nível de conforto que um rico da época de Marx não tinha. Nas nossas paragens tupiniquins, os benefícios para os mais pobres, trazidos pelo crescimento do século XX, foram superiores aos de todos os quatro séculos anteriores.
Apenas para ilustrar, a esperança de vida passou de 30 anos para mais de 70. Obviamente, falta muito, não são poucos os excluídos e não se trata de desculpar a horrenda distribuição de renda. Mas, é interessante registrar, os avanços tecnológicos têm sido muito generosos para com os mais pobres. Não que tenham sido pensados assim, mas é o que aconteceu.
A produção de motos (1,5 milhão por ano) corresponde a mais da metade dos brasileiros atingindo 18 anos. Um jovem empregado, morando com seus pais, consegue pagar a prestação de uma motocicleta simples, desfrutando a indescritível sensação de liberdade oferecida por ter seu próprio veículo.
O telefone celular é a redenção de quem trabalha por conta própria. Enterro em vala comum para o precário sistema de recados em telefones "de favor". De fato, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis.
As fotos de família estavam a cargo dos fotógrafos das praças públicas. Hoje, um celular melhorzinho fotografa tudo, a custo zero. O computador começa a chegar ao povão (em modestas prestações). Por exemplo, o meu borracheiro tem.
Quase um terço da população tem algum acesso a ele. O crescimento das vendas é espantoso. Para um universitário, um bom computador usado custa menos do que os livros indicados anualmente pelos professores.
Ilustração Atômica Studio
Quantos municípios brasileiros não têm livrarias? Ou, se têm, seu acervo é pífio. Mas, para que livrarias, se há a Amazon.com e suas versões caboclas? Qualquer um pode comprar quase 20 milhões de títulos pressionando algumas teclas.
Quem tem Google ri dos 32 volumes da Britânica, ao custo de 1.000 dólares, pois a Wikipedia é mais simpática e de graça. Pobre não tem dinheiro para revistas ou jornais, mas agora está tudo na internet. E pode ler, em português e gratuitamente, milhares de livros de domínio público.
O rico mandava o contínuo ou o moleque de recados ao correio para postar uma carta. Agora, o pobre passa um e-mail, igualzinho ao rico. E nenhum dos dois paga o selo. E o preço absurdo dos CDs? Hoje, qualquer música pode ser encontrada na web. E, com um pouquinho de astúcia, sem gastar nada.
E passam fagueiros os garis, com seus fones ligados nos tocadores de MP3. Como dito, longe deste ensaísta subestimar a situação de pobreza de grande parte da nossa população. Não obstante, a mensagem deste ensaio é que os avanços presentes da tecnologia trazem benefícios bem maiores para o povão.
Tais elucubrações nos levam de volta ao bando de hippies da Califórnia que inventou os microcomputadores, na década de 70. Era um grupo de contracultura que via na tecnologia um antídoto para a opressão, por parte de uma sociedade impessoal, comandada por grandes empresas e por "big brothers" sinistros.
Eles buscavam alternativas tecnológicas libertadoras. Queriam ferramentas que permitissem aos pequenos expressar-se em múltiplas direções. Precisavam de soluções pouco dispendiosas.
Com o sucesso dos microcomputadores, quase todos ficaram milionários. Não precisaram das soluções baratas que criaram. Mas as ideias estavam na rua. Suas aplicações foram herdadas por bilhões de pessoas.
Restam duas cogitações. Primeiro, o povo ficou mais feliz com seus novos apetrechos? Ou aumentou sua alienação e angústia? Segundo, ele saberá usar isso tudo? Ou as lastimáveis deficiências em sua educação o impedem de usar o melhor desse potencial criado pela tecnologia para aumentar sua cultura e qualidade de vida?
Claudio de Moura Castro é economista
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Com reportagem de Laura Lopes Rick Gomez
O que desperta o desejo sexual feminino
Novos estudos sobre revelam um abismo entre o que as mulheres sentem e o que dizem sentir Ivan Martins e Francine Lima.
Ida Bauer aparece nos textos de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, sob o nome fictício de Dora. É uma moça bonita, de 15 anos, perturbada por tosses nervosas e incapacidade ocasional de falar.
Chegou ao divã do médico vienense queixando-se de duas coisas: assédio sexual de um amigo da família e indisposição do pai em protegê-la. Freud aceitou os fatos, mas desenvolveu uma interpretação própria sobre eles. O nervosismo e as doenças se explicavam porque a moça se sentia sexualmente atraída pelo molestador, mas reprimia a sensação prazerosa e a transformava, histericamente, em incômodo físico.
Como Ida se recusou a aceitar essa versão sobre seus sentimentos, largou o tratamento. Peter Kramer, biógrafo de Freud, diz que os sintomas só diminuíram quando ela enfrentou o pai e o molestador, tempos depois. Freud estava errado; ela, certa.
Anos mais tarde, refletindo sobre a experiência, Freud escreveu uma passagem famosa: “A grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não fui capaz de responder, apesar de 30 anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que querem as mulheres?”.
Meredith Chivers, uma jovem pesquisadora da Universidade Queen, no Canadá, acredita que pode finalmente responder à pergunta. Sem os preconceitos e a ortodoxia de Freud, e com recursos experimentais que ele não tinha, reuniu 47 mulheres e 44 homens em laboratório e aplicou o mesmo teste a todos eles: viram oito filmes curtos sobre sexo, com temas variados, enquanto seus órgãos genitais eram monitorados por sensores capazes de medir a ereção masculina e a lubrificação feminina.
Ao mesmo tempo, Meredith pediu que indicassem, num sensor eletrônico, quanto estavam excitados com cada cena projetada. Essa era a parte subjetiva do teste.
Os resultados foram sensacionais. Meredith descobriu, primeiro, que as mulheres, sejam elas hétero ou homossexuais, se estimulam com uma gama muito variada de cenas. Homem e mulher transando, mulheres transando, homens transando, quase tudo foi capaz de produzir excitação física nas mulheres.
Até cenas de coito entre bonobos (os parentes menores e mais dóceis dos chimpanzés) causaram alterações genitais nas voluntárias, embora tenham deixado os homens indiferentes. Qualquer que seja a sua orientação sexual, eles parecem ser mais focados em suas preferências.
Homossexuais se excitam predominantemente com cenas de sexo entre homens ou com cenas de masturbação masculina. Heterossexuais se interessam por sexo entre mulheres, sexo entre homens e mulheres e atividades que envolvam o corpo feminino, mesmo as não-sexuais. O estudo sugere que as mulheres são mais flexíveis em sua capacidade de se interessar. Seu universo sexual é mais rico.
A outra surpresa da pesquisa de Meredith, talvez sua descoberta mais importante, foi a constatação de que existe uma distância entre o que as mulheres manifestam fisicamente e o que elas declaram sentir.
As cenas de sexo entre mulheres, por exemplo, foram as que causaram maior excitação física entre as mulheres heterossexuais – mas aparecem em segundo na lista de respostas sobre as imagens mais excitantes. Ocorre o mesmo com sexo entre dois homens. Os sensores vaginais mostram ser esse o terceiro tipo de cena que mais excita as mulheres, mas ele aparece na quinta posição nas declarações.
O fenômeno de divergência entre corpo e mente não poupa os macacos. Meredith diz que o relato subjetivo das mulheres sobre os bonobos não é coerente com a excitação física que elas demonstram. “O que eu descobri foi que as mulheres ficaram fisicamente excitadas (com os macacos), mas não declararam se sentir dessa forma”, ela disse em entrevista a ÉPOCA. Os homens demonstram um grau de coerência mais elevado entre as medidas objetivas e subjetivas.
Eles declaram gostar daquilo que fisicamente os comove, embora também se confundam com escolhas, por assim dizer, difíceis. No instrumento em que registram suas preferências, os homens heterossexuais marcaram as cenas de masturbação femininas como as mais excitantes, vencendo por pouco o sexo entre duas mulheres.
Mas os sensores genitais mostraram coisa diferente: a vitória pertence claramente às cenas de sexo entre mulheres. A conclusão é que também entre os homens há uma diferença entre excitação mental e excitação física, mas ela parece ser muito menor do que entre as mulheres.
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Fernanda Colavitti
Em busca do Viagra cor-de-rosa
Uma nova droga está em testes para combater a falta de desejo feminino. Ela funciona mesmo ou é apenas uma jogada da indústria farmacêutica?
Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 21/novembro/2009.
Sexo, todo mundo sabe, é o grande barato do século XXI. Nunca se falou tanto do assunto, nunca ele foi considerado tão importante, nunca se gastou e se ganhou tanto dinheiro com isso.
Basta olhar os números de crescimento populacional – em 2050 seremos 9 bilhões de pessoas neste pequeno planeta apertadinho – para perceber outra óbvia novidade: nunca se fez tanto sexo como se faz agora. Não obstante, uma parcela imensa da população humana parece estar à margem dessa festa.
Algo como 1 bilhão de pessoas. Calcula-se que 30% das mulheres sofram de uma disfunção sexual chamada de Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH). Trata-se de uma doença descrita pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Psiquiatria.
Ela é caracterizada pela ausência de desejo sexual por um período superior a seis meses. Não é que essas mulheres não tenham parceiros, não tenham orgasmos ou não saibam obter prazer de alguma forma.
Elas simplesmente não têm vontade. São “frígidas”, para usar uma terminologia velha e quase insultuosa. E sofrem imensamente com isso. O desejo hipoativo, segundo os médicos especialistas, é uma grande fonte de angústia feminina.
Essa é a notícia ruim. A notícia boa é que o primeiro tratamento destinado especificamente a esse problema poderá chegar ao mercado entre o fim de 2010 e o início de 2011. Na última terça-feira, dia 17, o laboratório alemão Boehringer Ingelheim apresentou, durante um encontro médico na França, os resultados de um estudo que demonstrou a eficácia de uma substância chamada flibanserina no tratamento da baixa libido (leia na página 100 o quadro com os resultados completos do estudo).
As voluntárias que receberam o medicamento, já batizado “Viagra cor-de-rosa”, eram maiores de 18 anos, ainda não haviam atingido a menopausa e estavam em relações “estáveis, monogâmicas e heterossexuais” por pelo menos um ano. Todas sofriam de TDSH.
O estudo reuniu dados recolhidos por sete grupos de testes envolvendo mais de 5 mil europeias e americanas ao longo de 48 semanas. Enquanto tomavam o novo medicamento, pediu-se a elas que relatassem eventos sexuais de qualquer espécie. Valiam relação sexual, sexo oral, masturbação ou estimulação genital pelo parceiro.
O questionário perguntava se o ato foi satisfatório ou não.
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21 de novembro de 2009 | N° 16162
NILSON SOUZA
Salamaleque
Obama fez uma reverência diante do imperador japonês e foi espinafrado pelos críticos de seu país sob a alegação de que não é apropriado para um presidente americano se curvar diante de um estrangeiro. “Nós não fazemos reverências a reis ou imperadores!” – vociferou um comentarista de televisão. Eta arrogância!
Que mal há em ser gentil? Ainda mais diante dos japoneses, que exercitam diariamente a mesura como manifestação de respeito. Além disso, o presidente estadunidense é mais jovem e tem quase o dobro da altura de seu colega nipônico.
Na linguagem gestual, Obama estava dizendo: “Eu sou igual a você”. Ou, numa interpretação mais otimista, talvez estivesse tentando dizer: “Não somos inimigos”. O nariz empinado é que gera hostilidades.
Pode ser até que o protocolo entre chefes de Estado exija uma certa formalidade, evitar tapinhas nas costas, abraços calorosos demais, beijos imprevistos. Mas governantes são, antes de tudo, seres humanos.
E nós, humanos, nos tornamos civilizados exatamente quando começamos a apertar as mãos de nossos oponentes para mostrar que estávamos desarmados, que não queríamos agredir e sim compartilhar a proximidade. Quando o aperto de mão é acompanhado pela inclinação da cabeça, mais respeitosa se torna a aproximação.
Claro que há povos e povos. Nós, brasileiros, somos em geral bastante afetuosos e irreverentes, às vezes até demais. Tem uma história do ex-ministro Paulo Brossard que é exemplar sobre o excesso de informalidade com as autoridades. Uma vez um jornalista aproximou-se do então ministro, colocou as mãos sobre os seus ombros e perguntou:
– Quais são as novidades ministro?
E Brossard, sem perder a fleuma, respondeu:
– Afora essa sua intimidade, nenhuma.
Temos até um certo orgulho da nossa irreverência. Quando um governante estrangeiro aparece por aqui, não sossegamos enquanto não o vemos cair no samba ou cobrar um pênalti de mentirinha.
Rainhas, príncipes e até ditadores são, invariavelmente, submetidos ao ritual da descontração. Se Obama tivesse feito aquele gesto diante de Lula, certamente teria recebido em troca um salamaleque ainda mais espalhafatoso.
E ninguém por aqui veria fantasmas. Aliás, o presidente americano até andou fazendo coisa parecida quando lançou um estranho olhar na direção de uma jovem brasileira. Na ocasião, pelo que me lembro, nenhum crítico achou que ele estava saindo da linha. Todo mundo achou graça. E assim é que tem que ser.
Deixem o homem ser humano.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:25 AMComments: Sábado, Novembro 14, 2009
Diogo Mainardi
O bonde do MC Beltrame
"Desde que Lula passou por lá para visitar as obras do PAC, o Complexo do Alemão transformou-se num território da paz, mas unicamente para os traficantes do Comando Vermelho"
Em julho, no Morro da Chatuba, ocorreu um baile funk em homenagem a FB, o chefe do tráfico de drogas no Complexo do Alemão. MC Smith cantou:
"A festa do FB / está tipo Osama bin Laden"
No domingo passado, o Morro da Chatuba assistiu a mais um baile funk. Desta vez, os homens de FB comemoraram o abatimento de um helicóptero da PM. José Mariano Beltrame, a maior autoridade policial do estado do Rio de Janeiro, comparou o abatimento do helicóptero aos atentados terroristas de Osama bin Laden, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001. MC Beltrame, inspirado em MC Smith, já pode animar um baile funk no Morro da Chatuba.
FB está longe de ser um Osama bin Laden. Os policiais comandados por José Mariano Beltrame sempre souberam onde ele se escondia. Dez dias antes que FB ordenasse o assalto ao Morro dos Macacos, que resultou no abatimento do helicóptero da PM e na morte de mais de trinta pessoas, a deputada federal Marina Maggessi declarou o seguinte a um repórter de O Globo:
"A polícia não entra no Complexo do Alemão por causa das obras do PAC. Está todo mundo evitando tiroteio para não parar as obras do PAC. A bandidagem toda está indo para lá".
O "bonde" de FB (tema de outro funk de MC Smith), formado por mais de 100 criminosos, confirmou a denúncia de Marina Maggessi. Na última semana, ela repetiu que as obras do PAC criaram uma zona franca para o Comando Vermelho. Revelou também que as autoridades policiais foram alertadas sobre os planos de FB algumas horas antes de ele atacar o Morro dos Macacos. O que aconteceu depois disso? As delegacias da região foram impedidas de agir.
Em 4 de dezembro de 2008, Lula visitou as obras do PAC no Complexo do Alemão. Na mesma solenidade, que contou com um espetáculo do grupo AfroReggae, ele atacou o governo anterior e prometeu fazer "uma revolução para resolver o problema da segurança pública", transformando a área num "Território da Paz".
Quase um ano depois, já dá para analisar alguns dos resultados dessa revolução. Primeiro: Lula continuou a visitar obras do PAC e a atacar o governo anterior. Segundo: poucos dias atrás, um dos integrantes do AfroReggae foi morto a tiros e a PM soltou seus assassinos. Terceiro: sim, o Complexo do Alemão transformou-se num território da paz, mas unicamente para os traficantes do Comando Vermelho.
De fato, desde que Lula passou por lá para visitar as obras do PAC, a polícia nunca mais realizou uma operação contra seus criminosos. A última delas ocorreu em outubro de 2008. Nesse período, FB aumentou seu arsenal e reuniu suas tropas. Como diz o funk de DJ Will, ecoado por MC Beltrame:
"A PM aqui não entra / Aqui só tem talibã / Terrorista da Al Qaeda"
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 11:03 AMComments:
Academia de ginástica (mental)
"Sem o desenvolvimento do método científico, não teríamos os avanços tecnológicos que tanto beneficiam a humanidade"
As primeiras ondas encantaram os turistas. Eles ficaram então esperando as próximas. Contudo, foram salvos por uma inglesinha bem jovem, em cujo livro de ciências estava explicado o que era um tsunami e que perigos trazia.
Que corressem todos, o pior estava por vir! Em contraste, alguns pobres coitados de Goiânia receberam doses fulminantes de radiação ao desmontar o núcleo radioativo de um aparelho de raio X vendido como sucata. Os turistas foram salvos pelo conhecimento científico da jovem inglesa. Os sucateiros foram vítimas da sua ignorância científica. Não é fortuita a nacionalidade de cada um.
H. Habermeier mostrou que, dentro de níveis comparáveis de qualidade da educação, os países com melhor desempenho em ciências obtinham resultados econômicos mais expressivos. Ou seja, há argumentos poderosos sugerindo o efeito de uma boa base científica no desempenho econômico.
Estamos cercados de aparelhos com extraordinária densidade de ciência e tecnologia. Decifrar e manipular a natureza é crítico para a nossa produtividade. A liderança do país no etanol requer que um reles pé de cana incorpore melhoramentos genéticos de altíssima complexidade.
Esses argumentos vêm sendo repetidos ad nauseam. Apesar disso, é lastimável o desempenho brasileiro em ciências. Nas provas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), o Brasil está entre os últimos lugares, abaixo da média da América Latina, um continente de pífio desempenho educativo (vejam o livro recente O Ensino de Ciências no Brasil, do Instituto Sangari). Quero trazer mais dois argumentos possantes.
O primeiro tem a ver com a ideia de que aprender a pensar é uma das tarefas mais nobres e mais árduas da escola. Mas, ao contrário do que almas ingênuas poderiam imaginar, não se aprende a pensar em cursos do tipo "Como pensar".
Aprende-se pensando sobre assuntos que se prestam para tais exercícios. E, entre eles, as ciências oferecem um campo excepcional. Exercitamos os músculos nas academias. E exercitamos os músculos do intelecto lidando com as ciências e outros assuntos de lógica exigente.
Que fantástica academia para exercícios mentais são as teorias científicas! O rigor das definições, a precisão das leis e as abstrações disciplinadas oferecem um terreno ideal para ginásticas simbólicas. Portanto, mesmo que os conhecimentos não servissem para melhor operar em um mundo complexo, a ginástica mental que permitem é uma das fases mais nobres do processo educativo.
Ilustração Atômica Studio
Vejamos o segundo argumento. Se pensamos na contribuição da Europa nos últimos cinco séculos, muitas ideias nos vêm à cabeça. Mas talvez uma das mais decisivas tenha sido o desenvolvimento do método científico, salto que teve Bacon e Descartes como ícones. Por trás dos gigantescos avanços científicos está o método. Com ele, a ciência avança, seja com passinhos, seja com saltos. Não há marcha a ré, pois até o erro educa.
O método impõe a disciplina de formular as perguntas de maneira rigorosa e sem ambiguidades. Em seguida, propõe e fiscaliza um plano de ação para verificar se as hipóteses para responder às perguntas, de fato, descrevem o mundo real. Sem essa disciplina para escoimar de imprecisões e equívocos a busca científica das respostas, não poderíamos ter confiança nos resultados. A vulgarização do poder da ciência se traduz nas afirmativas publicitárias de que "a ciência demonstrou...".
Sem o desenvolvimento do método científico, não teríamos os avanços tecnológicos que tanto beneficiam a humanidade. Mas o meu argumento aqui vai em outra direção. O método tornou-se uma espécie de roteiro seguro para pensar bem sobre todos os assuntos, não apenas para fazer pesquisas.
Quem aprendeu a pensar como cientista e a usar o método científico tem um raciocínio mais enxuto e rigoroso. As perguntas são mais bem formuladas e já facilitam a busca sistemática das respostas.
Não importa o assunto (mas, obviamente, uma boa base científica apenas dá a embocadura para entrar com segurança no assunto, não substitui o conhecimento específico). Só falta dizer que há uma enorme diferença entre aprender a pensar como um cientista e decorar fórmulas, teoremas e leis. Infelizmente, nosso ensino pende para a segunda versão. E o Pisa joga isso na nossa cara.
Claudio de Moura Castro é economista
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 11:02 AMComments:
Peso e etnia influenciam comportamento sexual de garotas
Estudo americano diz que as gordinhas usam menos camisinha. Já entre as de origem latinas, o comportamento sexual de risco é grande para meninas acima, abaixo ou com peso normal
Segundo pesquisa dos Estados Unidos, meninas que se sentem acima ou abaixo do peso usam menos camisinha
A etnia de uma adolescente e seu peso (real ou a percepção que ela tem dele) desempenham um importante papel em seu comportamento sexual, principalmente nas relações de risco. É o que sugere um estudo da Universidade de Pittsburgh publicada na Pediatrics, segundo o site ScienceDaily.
Das cerca de 7.200 garotas que responderam à pesquisa em 2005, metade disse nunca ter tido relações sexuais. Das garotas sexualmente ativas, as com sobrepeso, ou que pensavam estar acima do peso, usavam menos camisinha do que as que tinham peso normal. As meninas abaixo do peso também eram menos propensas a usar preservativo.
O estudo também mostra que as origens étnicas influenciam a atividade sexual das meninas e seu grau de risco. As de origem caucasiana que acreditavam estar abaixo do peso eram mais propensas a ter relações sexuais, tendo quatro ou mais parceiros. Aquelas acima do peso relataram usar menos o preservativo.
Dentre as afrodescendentes, as magrinhas estavam mais propensas a usar camisinha enquanto as gordinhas disseram ter tido quatro ou mais parceiros sexuais. Já as de origem latina, seja qual fosse o peso, estavam mais propensas a se aventurarem em relações de risco: rejeitando a camisinha ou a pílula anticoncepcional, transando antes dos 13 anos, tendo mais de quatro parceiros sexuais e/ou fazendo uso de bebidas alcoólicas.
"Esse estudo contribuirá para a educação sexual porque mostra como as regras sociais em relação ao corpo, peso e ascendência podem influenciar na decisão sexual dos adolescentes. Saber como uma menina percebe o seu peso pode ser tão importante quanto saber o seu peso real", diz Aletha Akers, que liderou a pesquisa.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:58 AMComments:
ROBERTA, 36 ANOS - Advogada paulistana fotografada em sua casa. Ela levou o namorado ao bordel e agiu como prostituta
Dezenove mil formas de fazer sexo
Chega ao Brasil um livro com a mais completa compilação das fantasias sexuais modernas. Angelina Jolie está lá, assim como a cunhada, o vizinho, o vagão do trem, as trigêmeas...
Espartilho, cinta-liga, máscaras. Eu e dois homens estranhos. Plateia? Não descarto, mas um lugar reservado talvez fosse melhor. Se houvesse uma segunda mulher, também seria uma bela experiência. Não acho que viraria lésbica por causa disso. Sem falar que o homem entre nós duas ficaria maluco. Uma travessura eu já fiz: um namorado me levou a um prostíbulo. Pedi permissão à dona, pagamos, me vesti a caráter e encenamos. Ele era meu cliente. Foi inesquecível.
Acho que fantasio muito porque sou curiosa. Mas não conto nem para minhas melhores amigas. As pessoas são muito preconceituosas. Já me separei de um homem que não era criativo e não fazia nenhum esforço para realizar minhas fantasias. Ele dizia que não tinha, mas era mentira, claro. Todo mundo tem, mas a maioria esconde.
O relato da paulistana Roberta, de 36 anos, advogada, ilustra uma certeza: o debate público sobre a sexualidade é cada vez mais natural, mas as fantasias sexuais permanecem tabu. Ela própria não quis se identificar. Os desejos secretos misturam prazer e dor, realização e sofrimento e embaraçam quem os experimenta.
Por isso é raro ter um vislumbre desse pedaço da intimidade humana. Agora, porém, escancarou-se uma janela. Durante cinco anos, o psicanalista inglês Brett Kahr pesquisou fantasias sexuais. Coletou tantos relatos que ficou conhecido na Grã-Bretanha como “o homem das 19 mil fantasias sexuais”.
Os depoimentos foram tomados no consultório, nas ruas e pela internet e depois organizados por temas e padrões. No livro Sexo e psique (Editora Best-Seller), que será lançado no Brasil no fim deste mês, Kahr transcreve mil relatos de homens e mulheres. Eles vão de vontades corriqueiras e totalmente realizáveis a transgressões ligadas a incesto, violência, escatologia e necrofilia.
A estrutura lembra o famoso Relatório Hite (de 1976, atualizado em 2004), no qual a sexóloga Shere Hite expôs pela primeira vez e com total crueza os hábitos e as fantasias sexuais das mulheres americanas. Kahr sentou-se “numa ruela escondida de Londres, com um divã e cadeiras aconchegantes” e, como Hite, ouviu o que parecia inconfessável. Seu relato nos leva a um mundo de incestos e perversões que o dramaturgo Nélson Rodrigues, uma espécie de patrono da libido oculta brasileira, reconheceria de imediato como seu, ainda que os devaneios sejam ingleses.
“Existem dois tipos de fantasia: aquelas mais festivas, que revelamos com orgulho aos amigos de bar, e outras, que vêm das profundezas de nossa mente, que muitas vezes não revelamos nem aos companheiros ou muito menos a estes”, afirma. Para começar, explica Kahr, tais fantasias entranhadas na mente não têm nada a ver com o que somos na realidade. Cidadãos pacatos e civilizados podem simular violência sexual com a companheira e passar a vida sem fazer mal a uma mosca.
Um homem heterossexual pode se excitar com a ideia de uma relação com outro homem e não por isso ter uma tendência homossexual. Uma mulher independente e bem-sucedida pode se imaginar submissa e humilhada sem deixar de ser o que é.
Aquela que se imagina penetrando o marido com um pênis de borracha certamente não gostaria de vê-lo com outro homem. No livro, há uma paciente que fantasia ser torturada por Saddam Hussein, mas Kahr especula que ela fugiria se ele aparecesse perto dela – e não só porque ele está morto.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:58 AMComments:
14 de novembro de 2009 | N° 16155
NILSON SOUZA
Páginas da vida
Zuca e Pedro estiveram na Feira do Livro em dias diferentes, mas com o mesmo objetivo: autografar suas obras.
Zuca saiu de São Sebastião do Caí com uma bolsa cheia de livros, edições do autor, custeadas com seus ganhos de consultor de vendas, primeiro trabalho do escritor iniciante de um texto centrado no combate à corrupção. Passou uma hora sentado sozinho na Praça de Autógrafos, uma espécie de multipalco das celebridades do livro. Vendeu um livro e assinou um autógrafo.
Pedro desembarcou na Feira do olimpo de campeão de vendas no país. Em 36 anos de ofício, 70 obras publicadas, mais de 21 milhões de exemplares vendidos e a glória suprema de atingir o coração de crianças e adolescentes. O autor de A Droga da Obediência já tem livro transformado em filme e reconhecimento internacional. Sua sessão de autógrafos provocou filas de pequenos leitores inquietos e de mães embevecidas.
Zuca e Pedro, como este cronista sabático e incontáveis escribas, usam as letras como tijolos para dar forma concreta a suas ideias e a seus sonhos. O livro é uma espécie de casa própria construída com as próprias mãos. Só para de pé se os alicerces estiverem bem plantados, se as paredes forem sólidas e se o telhado resistir às intempéries. E, principalmente, se for edificada com matéria-prima de qualidade.
A morada de páginas pode ser a casa de Zuca, frequentada apenas por ele mesmo ou por algum extraviado que aparece para pedir um copo d’água. Pode ser também a cidade de Pedro, visitada por multidões. Ambas, porém, são amadas por seus proprietários, porque contêm as páginas de suas vidas.
Zuca, o anônimo autor de Pela Decência da Política, é Luiz Augusto Flores, que passou sozinho a sua sessão de autógrafos no primeiro dia desta semana. Pedro carrega no sobrenome uma Bandeira de sucessos literários. Os dois são personagens inesquecíveis desta obra aberta chamada Feira do Livro de Porto Alegre, que continua atraindo leitores viciados e curiosos ao centro da Capital.
Zuca tenta consertar o estrago moral e cultural do país com uma pregação ética dirigida a adultos. Pedro opera no mesmo sentido, mas sua missão talvez seja mais decisiva: ele lida com mentes infantis e adolescentes. Seus livros também abordam o contraste honestidade/desonestidade, em ritmo de aventura, de modo a fazer sentido para leitores em formação.
Bendita e democrática Feira, que oferece o mesmo palco para atores tão diferentes e revela que eles lutam pela mesma causa com a mais civilizada das armas: a palavra.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 10:58 AMComments: Sábado, Novembro 07, 2009
Buffett e seu novo brinquedo
No maior negócio de sua carreira, o megainvestidor compra a principal ferrovia dos Estados Unidos – uma aposta no futuro dos trens e da economia americana
Luís Guilherme Barrucho - Ilustração Rob
Tal como seus antepassados, que recorreram às ferrovias para desbravar o Oeste dos Estados Unidos no século XIX, Warren Buffett decidiu investir seu futuro nos trens. Apostou alto. Na semana passada, o empresário de 79 anos realizou o maior negócio de sua carreira ao comprar a totalidade das ações da principal ferrovia do país, a Burlington Northern Santa Fe, por 26,3 bilhões de dólares.
Dono de um repertório de frases cáusticas, Buffett afirmou logo após o anúncio da aquisição: "Isso só está acontecendo porque meu pai não quis me comprar um trenzinho quando eu era criança".
Longe de ser motivada por uma frustração infantil, a investida de Buffett deverá render polpudos lucros a seus acionistas. Em primeiro lugar, porque a recuperação da economia americana elevará a demanda por transportes de carga. Além disso, o encarecimento do petróleo e a busca por alternativas menos poluentes tornarão o frete ferroviá-rio ainda mais vantajoso em relação ao rodoviário.
"Coloquei todas as minhas fichas no futuro da economia americana", disse Buffett ao fechar a transação. É um voto de confiança de um dos mais visionários investidores do mundo não apenas em seu país, mas também na retomada de um setor que havia perdido importância desde a popularização dos veículos e aviões.
As ferrovias perderam gradativamente espaço. Atualmente, enquanto os caminhões carregam 68% das mercadorias que circulam nos Estados Unidos, os trens restringem-se a 15%. No Brasil, que optou pelo modelo americano de estímulo à indústria automobilística na década de 50, os trilhos também foram desprezados. Desde aquele período, a extensão da malha diminuiu 30%.
Agora os Estados Unidos – e também o Brasil, onde os investimentos decuplicaram depois das privatizações feitas na década passada – voltam a se render aos trens. Contribui para essa redescoberta o fato de que as locomotivas ganharam tecnologia e velocidade, além de ser o meio mais barato de transportar grandes quantidades de mercadorias dentro do território de um país.
Segundo a Association of American Railroads, com um galão de combustível (3,8 litros) um trem movimenta 1 tonelada de carga por 740 quilômetros. Em caminhões, essa distância cai para 180 quilômetros. "As ferrovias tornaram-se mais atrativas ao oferecer um bom retorno financeiro aliado à preocupação ambiental", afirma Rodrigo Vilaça, diretor executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários.
O investimento também cabe na estratégia de Buffett, que prefere alocar seus recursos em atividades tradicionais – ele nunca aplicou em companhias de internet, por exemplo – e que sejam bem administradas.
Diz Paulo Fernando Fleury, da UFRJ: "A Burlington Northern mudou a forma de gerenciar ferrovias nos Estados Unidos. Ela incorporou a lógica do mercado ao aprimorar a qualidade do serviço e a eficiência de custos". Isto é, o tipo de brinquedo que hoje faz a alegria de Buffett.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:26 AMComments:
Drummond antes Drummond
Um original redescoberto de Carlos Drummond de Andrade, com 25 poemas escritos nos anos 1920 e comentários de seu próprio punho, apresenta um poeta convencional, quase desprovido de humor – mas com fagulhas da inovação que marca sua obra posterior
Marcelo Bortoloti - Reprodução/Strana - CANÇÕES DA INEXPERIÊNCIA
O jovem Carlos Drummond de Andrade: poema sobre um elevador e versos sem "sinceridade sexual"
Carlos Drummond de Andrade tinha 28 anos quando conseguiu publicar seu primeiro livro, Alguma Poesia, em 1930. Foi uma edição modesta, com 500 exemplares, paga pelo próprio autor. Essa obra, que tinha poemas como No Meio do Caminho, Quadrilha e Poema de Sete Faces, mudou os rumos do modernismo no país. Para Manuel Bandeira, foi o suficiente para colocá-lo de imediato entre os três ou quatro maiores poetas do Brasil.
Num texto de 1958, Bandeira se pergunta: "Como chegou ele a tamanha destreza?". Em seguida, responde: "Conheço um pouco o segredo dela pela leitura de um livro seu que nunca foi publicado – Os 25 Poemas da Triste Alegria. O estilo do livro sabe àquela sutileza própria do setor Ronald-Guilherme (os poetas Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida), no modernismo incipiente".
O original dessa obra, de 1924, estava desaparecido. Alguns estudiosos chegavam a duvidar de sua existência. Há quatro anos, o acadêmico Antonio Carlos Secchin, professor de literatura da UFRJ e especialista em poesia brasileira, conseguiu localizá-lo. Ele comprou o original de um amigo do poeta, cujo nome se comprometeu a não divulgar. Agora, com aval da família, pretende publicá-lo em versão fac-similar.
Os 25 poemas foram escritos no começo dos anos 1920. Doze são inéditos, e os demais foram publicados esparsamente em jornais da época como o Diário de Minas. Nesse período, Drummond acabara de mudar-se para Belo Horizonte. Ali, conheceu Dolores Dutra de Morais, com quem se casaria em 1925, e ingressou na faculdade de farmácia (chegou a se formar, mas nunca exerceu a profissão).
Ao mesmo tempo, cultivava laços com os círculos modernistas de outras capitais. Em 1924, começou a se corresponder com os poetas Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Foi nesse mesmo ano que Drummond pediu a Dolores, ainda sua namorada, que trabalhava como contadora numa fábrica de sapatos, para datilografar 25 poemas escolhidos.
Ele mandou encadernar um único exemplar e o deu a Rodrigo Melo Franco de Andrade, amigo quatro anos mais velho que morava no Rio de Janeiro, então capital da República, e tinha bons contatos que poderiam ajudar na publicação da obra.
Nesses poemas, Drummond já usa o verso livre (embora ainda se declarasse admirador do parnasiano Olavo Bilac) – mas sem a "destreza" de que falava Bandeira. Sua temática são as musas esvoaçantes, o anoitecer, a angústia pela passagem do tempo. "São poemas penumbristas", define Antonio Carlos Secchin, referindo-se a um movimento secundário da literatura, associado ao simbolismo, e de forte influência francesa.
Em correspondência de novembro de 1924 a Mário de Andrade, o poeta se queixa: "Nasci em Minas quando devera nascer (não veja cabotinismo nesta confissão, peço-lhe!) em Paris. O meio em que vivo me é estranho: sou um exilado".
As imagens são dolorosamente convencionais: em Matinal, associam-se os seios brancos da amada aos lírios – que reaparecem em um verso particularmente infeliz de Canção do Grego Desencantado: "vós, que tínheis o corpo branco como um lírio".
Drummond ainda não apresentava o tratamento irônico da tradição literária que se perceberá mais tarde. Ocasionalmente, porém, fulguram esboços daqueles sintéticos flagrantes urbanos que marcariam Alguma Poesia: "Meninos atiram pedras nos lampiões / e, nos lampiões, / sorri o olho tímido do gás".
E Drummond já revela um fetiche particular: "Tuas pernas, desnudas, me fugiam", diz no poema Sensual. Em Poema de Sete Faces, de Alguma Poesia, o fetichismo multiplica-se: "O bonde passa cheio de pernas / pernas brancas pretas amarelas".
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:26 AMComments:
Como os cegos diferenciam as notas de dinheiro?
As cédulas de real apresentam diferenças perceptíveis no tato apenas quando estão novas. O Banco Central deve adotar modelo estrangeiro para que os cegos consigam identificar melhor os valores. O braile não é uma opção viável
Laura Lopes
Real As notas apresentam apenas marcas de relevo
Em qualquer lugar do mundo é possível reconhecer o valor das notas de dinheiro. Seja na Índia, na China ou nos Estados Unidos, e nem precisa saber a língua nativa, nem mesmo ser alfabetizado. Só há uma exceção para essa regra: os deficientes audiovisuais.
Como eles contam dinheiro? Aqui no Brasil, as moedas da segunda família (a segunda geração de moedas de real) possuem tamanhos e espessuras diferentes, algumas são serrilhadas nas bordas, justamente para serem diferenciadas por meio do tato. Já as cédulas têm marcas de relevo que se perdem com o uso.
"Essas marcas são pouco perceptíveis, principalmente para os mais idosos. E, com o tempo, as notas vão perdendo o relevo", diz Regina Fátima Caldeira de Oliveira, deficiente visual e coordenadora da Revisão dos Livros Braille da Fundação Dorina Nowill, de São Paulo.
Euro Cada valor tem um tamanho diferente, obedecendo à regra de quanto maior o valor, maior o tamanho. A nota também apresenta marcas táteis em relevo
A primeira solução que vem à cabeça é a inserção de caracteres em braile nas notas. Essa, no entanto, é uma saída pouco útil: o braile sairia com o desgaste das cédulas, assim como acontece com as marcas de relevo atuais. "Além disso, o braile é lido por muitas pessoas cegas, mas não por todas.
A gente não quer braile nas notas", afirma Regina, que participou de reuniões com o Banco Central e a Casa da Moeda com entidades representativas dos deficientes visuais do país, para encontrar uma solução viável e prática para o problema.
O BC comunga a opinião da Fundação Dorina. Segundo João Sidney, do chefe do departamento de Meio Circulante, "a tecnologia de impressão não tem sobrevida. Na terceira manipulação da nota, o braile já acaba".
Apesar da concordância, pouca gente sabe que o braile não é o melhor caminho a seguir. No dia 27 de outubro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) encaminhou um ofício à Casa da Moeda solicitando informações sobre a viabilidade técnica para implantação desse sistema de leitura nas cédulas e moedas do país.
A proposta, feita pelo conselheiro do Amazonas Edson de Oliveira, tem a melhor das boas intenções, em defesa dos direitos dos cegos, já que os mesmos não têm acesso à leitura das notas. Mas não funciona. "Há quem faça isso para melhorar e ajudar, mas devia falar com pessoas que lidam com o problema diriamente e que podem ter a melhor proposta", diz Regina.
Austrália As notas têm tamanhos diferentes e são reconhecidas por meio de um gabarito
Entre as propostas sugeridas nas reuniões entre as entidades e o governo, a que mais agrada Regina é o modelo adotado na Austrália e nos países que fazem parte da União Europeia (e usam o euro).
Lá, as notas possuem tamanhos diferentes, crescendo à medida que o valor aumenta. O portador de deficiência visual recebe uma espécie de gabarito que indica o valor da nota, em braile. Ao colocar a nota dentro desse gabarito, sua ponta vai cair sobre o valor correspondente a ela. Serve mais para quem ainda não decorou o tamanho das notas ou não está acostumado àquela moeda.
Canadá Além das notas terem furinhos arranjados de formas diferentes para cada valor (à dir.), um aparelhinho lê a nota e emite um sinal diferente para cada valor, por meio de voz, som ou vibração
Na opinião do BC, no entanto, o modelo canadense é que deve vigorar no Brasil. Segundo o chefe do departamento de Meio Circulante do Banco Central, não é necessário mexer no design ou tamanho do dinheiro. "O Canadá insere nas notas uma tinta invisível diferente para cada valor e distribui um aparelhinho subsidado que reconhece o magnetismo da tinta e emite um sinal para cada valor", afirma João Sidney.
Trata-se de um aparelho pequeno, que pode ser levado no bolso e distribuído gratuitamente pelo Canadian National Institute for the Blind. Sobre o gabarito, adotado pelos australianos e europeus, Sidney diz que não é a melhor solução e, como o reconhecimento é feito pelo tato, pode levar a erros de interpretação. "Eu apostaria nessa tecnologia sonora", diz. Só não se sabe quando ela entrará em vigor.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:25 AMComments:
07 de novembro de 2009 | N° 16148
NILSON SOUZA
Milagres
Meu calendário de mesa tem uma frase de Albert Einstein, ou atribuída a ele, pois hoje ninguém mais pode ter certeza de autenticidade alguma. De qualquer maneira, é um jogo de palavras tão bem-feito, que deve ter sido mesmo elaborado por uma mente brilhante.
Diz: “Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre”. Gostei da citação e resolvi mostrá-la a um colega de trabalho. Ele olhou distraído para a cartolina que eu tinha nas mãos e exclamou assustado:
– Meu Deus, já é novembro!
Também me espantei. Nem tinha percebido que o ano já está quase dobrando a esquina. A gente olha os dias e não vê o mês. Pensei: pode ser mesmo que tudo seja um milagre, mas passa depressa demais. Novembro sempre me causa desconforto, pois precede aquela reta final do ano em que as pessoas ficam ensandecidas, querem ir a todas as festas, querem comprar tudo o que veem, sentem-se obrigadas a dar presentes, correm mais no trânsito, estressam-se demasiadamente.
Final de ano é tempo de bipolaridade, de euforia e depressão. Sei que tudo é relativo – como diria o autor da frase –, há quem ame a agitação, mas costumo ficar desnorteado com tanto compromisso e tanta pressão. Se eu pudesse fabricar o meu próprio milagre de fim de ano, reeditaria uma cena de um dos filmes da série Super-Homem, aquela em que o herói voador faz o planeta girar ao contrário para o tempo retroceder.
Nem precisaria voltar muito. Eu nem usaria meus superpoderes para recuperar as alegrias da infância ou as aventuras da juventude. Bastaria retornar alguns dias neste calendário de papel, talvez até o início da primavera, só para que as pessoas reduzissem o ritmo de seus passos e a marcha de seus corações.
Temos pressa de quê?
Se não existem milagres, é bom que façamos as coisas devagar e bem-feitas, já que a construção do mundo depende da nossa inteligência e da nossa capacidade de realizar. Se tudo é fruto de um prodígio acima da nossa compreensão, de um sopro no barro ou de uma explosão galáctica, mais razão ainda para curtir com gosto e prazer a parte que nos toca.
Como não posso parar o planeta, nem fazer a vida recuar, faço o que está ao alcance de minhas mãos e retrocedo duas folhas do calendário. Encontro em setembro uma frase de Santo Agostinho – ou atribuída a ele, sempre é bom frisar – que talvez seja a resposta para esta angustiada reflexão: “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência”.
Tudo bem. Só não me obriguem a correr também.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:25 AMComments: Sábado, Outubro 31, 2009
Pequeno manual da civilidade
As pequenas vantagens de virtudes grandemente subestimadas, analisadas por quem entende tudo do assunto, desde sempre
Juliana Linhares - Montagem sobre foto divulgação NÃO LIBERTE O MONSTRO QUE EXISTE EM VOCÊ
A vida em estado natural: "Solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta"
Engana-se quem pensa que civilidade é uma matéria relacionada a senhores pomposos e mesas cobertas de talheres esquisitos. Mas é verdade que o tema foi tratado por cavalheiros com quilometragem de pelo menos alguns séculos.
Tudo o que disseram, porém, sobre a necessidade de convenções sociais para promover a boa convivência e administrar conflitos permanece de urgente contemporaneidade. Quando Schopenhauer, o gigante da filosofia alemã do século XIX, dizia que as pessoas deveriam seguir o comportamento do porco-espinho - se fica muito perto de seus pares, morre espetado; se fica muito longe, morre de frio -, não estava pensando no uso do telefone celular em público, mas bem que poderia.
Thomas Hobbes, um dos gênios do pensamento político produzidos pela Inglaterra, constatou no século XVII que em estado natural, sem as construções sociais, "a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta".
Em outras palavras, um congestionamento em São Paulo em dia de chuva. Por isso, emergem leis necessárias, entre as quais que "os homens cumpram os pactos que celebrarem" (e não parem em fila dupla, por exemplo) e "não declarem ódio ou desprezo pelo outro por atos, palavras, atitude ou gesto" (e não façam perfis falsos na internet).
Especialistas em ética, comportamento e controle dos monstros interiores fazem análises e sugestões nesse pequeno manual das virtudes da civilidade. Todo mundo pode aprender - e até lucrar com elas.
"O stress é causado em grande parte por relacionamentos humanos mal resolvidos. Se melhorarmos a capacidade de nos relacionar, teremos menos brigas, menos stress e, consequentemente, menos processos e pessoas doentes", diz o italiano Piero Massimo Forni.
Professor da Universidade Johns Hopkins e um dos maiores especialistas mundiais no estudo da civilidade, ele até calculou o custo da falta dela nos Estados Unidos: 30 bilhões de dólares por ano. Já pensaram se ele conhecesse o Congresso brasileiro?
Questão de honra
Houve um tempo em que tudo girava em torno dela: ter honra era ser um legítimo membro da tribo; não ter, preferível morrer. O conceito de honra, na sua interpretação mais tradicional, nasceu na Grécia antiga, foi remodelado em Roma e reemergiu na Idade Média.
"Na época feudal, a honra era uma qualidade atribuída aos nobres, essencialmente guerreiros, cuja função social era proteger o rei, as crianças e as mulheres", diz Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp. Hoje, a HONRADEZ pode ser mais relacionada à fidelidade aos próprios princípios ou ao próprio eu.
Ou, no popular, ter vergonha na cara. É por isso que o tribunal da própria consciência continua a pesar mesmo quando se alega que "todo mundo faz", a começar dos "caras lá de cima", então "que mal tem" em levar a avozinha para passar na frente na fila de comprar ingresso, desrespeitar a precedência na hora de pegar uma vaga no estacionamento do shopping ou deixar uma toalha guardando lugar o dia inteirinho na espreguiçadeira da piscina disputada? O mal, evidentemente, está em desprezar a própria dignidade.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 11:03 AMComments: