Com algum cuidado com a vaidade e a sorte de ter uma boa saúde, os anos passam e a vida (quase) não muda
Vi na Folha, terça-feira última, um belo caderno especial com o nome "Sem medo de envelhecer", e como costumo me meter em coisas para as quais não fui chamada, vou dar minha opinião.
Só que, sinceramente, não conheço bem o assunto. Vivo da mesma maneira que vivi a vida inteira; quase nada mudou. Deixei de fazer alguma coisa que fazia antes? Poucas, que não me fazem falta (a natureza é sábia), mas sei que fiquei mais impaciente com as pessoas. De resto, tudo igual, praticamente.
Tenho observado que, dependendo do país, a velhice é encarada de maneira diferente. Na Europa, por exemplo, não se refere a uma pessoa dizendo que ela é velha -nem jovem; essas palavras não são usadas quando se fala sobre alguém, seja homem, seja mulher. Ao falar, eles podem dizer eventualmente "deve ter em volta de 50" (ou 60, ou 70), e só.
O Brasil é difícil para quem não é mais uma gatinha -com os homens é diferente, é claro-, e a cada ano surge uma "safra" nova, palavra, aliás, bem deselegante; quando um novo verão se anuncia, algumas, que conseguiram alguma notoriedade no anterior, pela beleza, pelo frescor da juventude, deixam de ser famosas. Só permanecem na crista da onda as que têm um algo mais.
Com algum cuidado com a vaidade e a sorte de ter uma boa saúde, os anos passam e a vida (quase) não muda.
Todos podem -e devem- continuar trabalhando, indo à praia, viajando, dançando, comendo, bebendo, namorando, e muitos são mais felizes do que na plena juventude.
Porque sabem o que querem, não perdem tempo com o que não interessa; as mulheres, como já não têm tantas ilusões, sabem que podem ser felizes sem a necessidade de um amor, um companheiro, um marido; um homem, enfim.
Se encontrarem, ótimo, mas quando olham para trás e lembram do quanto sofreram quando se acharam apaixonadas -um homem era necessário para que uma mulher pudesse existir-, devem pensar: "ah, quanto tempo perdido".
Hoje, homens e mulheres numa faixa de idade mais alta podem fazer tudo o que querem, sem precisar nem mesmo de um amigo/a, porque são mais seguros, coisa que ninguém é quando jovem. A não ser quando desistem e passam a viver não suas próprias vidas, mas as dos filhos, e depois, as dos netos. Aí é a aposentadoria da vida, uma escolha pessoal.
A cultura brasileira é cruel no quesito idade. Dizer que uma pessoa é -ou parece- jovem é um elogio, e chamar de velho é uma maneira de insultar, geralmente usada quando não encontram outra coisa para dizer àqueles de quem não gostam, com quem não concordam.
A rigor, o assunto nem deveria existir -a não ser, é claro, para ajudar os que não podem viver com independência, precisando de cuidados especiais, o que pode acontecer com gente de qualquer idade, gente que teve a má sorte de ter problemas de saúde.
Nessa minha última viagem, percebi que em Paris, por exemplo, ninguém é apontado como gay; que seja um homem (ou mulher) que tem relações amorosas com pessoas do mesmo sexo, disso não se fala -tanto como não se fala se alguém é jovem ou não. As pessoas são como são, e ninguém perde tempo "carimbando" ninguém; simplesmente não tem importância.
Mas aqui, ai da mulher que é ou foi bonita, quando os anos vão chegando. Essas não são perdoadas, e a idade que têm é assunto de discussão, se têm dois anos a mais ou a menos.
Por isso, resolvi aumentar a minha, e se me perguntam, digo que acabei de completar 91 anos; assim, corro o risco de ouvir um "mas que incrível, não parece", o que é sempre bom de ouvir.
E como estou saindo de férias, mando um beijo e até março.
danuza.leao@uol.com.br
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:58 AMComments: Sábado, Janeiro 28, 2012
Sociedades poligâmicas são mais violentas, diz pesquisa
Segundo pesquisadores, a adoção da monogamia diminui competição entre solteiros e reduz as taxas de estupros, sequestros e homicídios
Cena de 'Big Love', extinta minissérie da HBO sobre um clã polígamo. Para cientistas canadenses, esse tipo de relação acirra tensões e gera violência (Reprodução/Nova Temporada)
Como seria o mundo se a poligamia fosse a regra? Segundo um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, o mundo seria mais violento, com altas taxas de estupros e homicídios.
A pesquisa, que acaba de ser publicada na revista Philosophical Transactions of the Royal Society, afirma que a monogamia se tornou a regra em quase todas as culturas do planeta justamente por evitar problemas que se tornariam crônicos em um sistema em que as pessoas têm mais de um cônjuge.
POLIGAMIA
É a união reprodutiva entre mais de dois indivíduos de uma mesma espécie. Entre os humanos, já foi a regra. O Velho Testamento faz várias referências ao assunto. O personagem Jacó, por exemplo, teve duas esposas e 12 filhos, que teriam dado origem às doze tribos de Israel.
Ainda é praticada no Oriente Médio e em partes da África e da Ásia, além dos Estados Unidos, onde seitas fundamentalistas, não reconhecidas pela organização principal da religião mórmon, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, permitem o casamento poligâmico.
Regulamentada pelo Alcorão, é relativamente comum no mundo islâmico, apesar de estar perdendo adesão. O profeta Maomé chegou a ter 16 esposas, mas hoje o permitido são, no máximo, quatro. Foi proibida no Nepal em 1963, na Índia, parcialmente, em 1955, na China em 1953 e, no Japão, em 1880. Nunca foi permitida no Brasil.
A maioria das civilizações já permitiu alguma forma de poligamia em determinado momento de sua história. Invariavelmente, a prática beneficiava (e ainda beneficia, onde ela é vigente) os sujeitos mais poderosos, que podem sustentar mais esposas. Esses fatos intrigaram os pesquisadores, que acabaram concluindo que o bem estar social motivou a institucionalização da relação monogâmica.
"Nosso objetivo foi entender a razão de o casamento monogâmico ter se tornado a regra na maioria das nações desenvolvidas nos últimos séculos, já que historicamente a maioria das culturas praticou a poligamia", afirmou Joseph Henrich, professor de antropologia cultural.
A razão, descobriu o estudo, é a estabilidade social que a monogamia traz, um contraponto às altas taxas de crimes como estupros, sequestros, roubos e homicídios das sociedades poligâmicas. Para os pesquisadores, grupos de homens solteiros são os responsáveis por crimes desse tipo.
"A escassez de mulheres disponíveis aumenta a competição entre os solteiros", afirma Henrich. Como o número de homens e mulheres é parecido, mesmo com uma pequena maioria de mulheres, se alguns homens casam com várias mulheres, outros ficam sem nenhuma.
O maior ganho evolutivo da monogamia, conforme a pesquisa, é garantir uma distribuição igualitária de casamentos. Com a diminuição no foco da competição, as famílias podem gastar mais tempo fazendo planos, produzindo riqueza e investindo na educação dos filhos. Além disso, a menor competição aproxima a idade média de maridos e esposas, o que faz com que a mulher ganhe poder de decisão no casamento.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:26 AMComments: Quarta-feira, Janeiro 25, 2012
25 de janeiro de 2012 | N° 16958
MARTHA MEDEIROS
Britadeiras
O filme Precisamos Falar sobre Kevin não concorrerá ao Oscar, tampouco a excelente atriz Tilda Swinton, mas uma cena já entrou para a categoria das inesquecíveis – ao menos para mim.
Antes, informações: o filme é a adaptação do livro homônimo de Lionel Shriver. Quem o leu não esquece o soco no estômago. É sobre um garoto perverso que termina por promover uma chacina na escola. A história é narrada pela mãe, que conta sobre o susto que levou com o nascimento daquele bebê que ela não identificava como uma bênção dos céus, sobre sua enorme dificuldade em contornar conflitos e sua descoberta de que formar uma família feliz não é tão simples como dizem.
É a desconstrução do mito da competência materna. Orientações bem-intencionadas podem não adiantar, nosso amor pode não ser bem transmitido, nossas atitudes podem não servir de exemplo. Existe algo tão influente quanto tudo isso: nossa dor interna. Ela contamina, ela comunica, ela desgraçadamente dá o tom das relações. O livro, tanto quanto o filme, é violento pela brutalidade dos sentimentos que ficam trancafiados.
A cena que me pareceu a mais simbólica e angustiante do filme mostra essa mãe com o filho ainda bebê – uma criança que não parava de chorar um minuto sequer. Não é incomum pais entrarem num surto de estresse com choro de crianças.
Recentemente, um americano jogou o filho de uma lancha por ele não parar de chorar, assim como outros adultos já levaram suas crianças a óbito por total descontrole emocional. No filme, a mãe não chega a esse radicalismo, ainda que esteja sempre a um segundo de explodir.
Então. Ela passeia por uma rua movimentada da cidade com o bebê no carrinho. Ele chora. Vem chorando há dias. A mãe não dorme, não vive, apenas escuta o choro ininterrupto daquele bebê. Até que ela passa por trabalhadores que estão fazendo reparos em bueiros no meio da rua. Trabalho pesado, barulhento, infernal. Ela sai da calçada com o carrinho e chega bem perto do trabalhador que está perfurando o asfalto com uma britadeira. Bem perto mesmo.
Estaciona o carrinho ao lado da britadeira que faz um barulho torturante. Close em seu rosto: por um instante, ela tem o conforto de trocar o choro do filho por outro ruído que, aos seus ouvidos, soa como um solo de flauta. O breve enquadramento daquela mulher com o carrinho no meio da rua e o homem trabalhando com a britadeira a seu lado é um mix de desespero e poesia como raramente vi no cinema.
Quantas pessoas não desejariam quebrar uma perna se isso desviasse a atenção de uma dor de amor insuportável? Não é que a mãe de Kevin não aguentasse mais o barulho do choro: ela não aguentava mais o barulho da sua culpa por ser incapaz de cumprir o papel de mãe amorosa e abnegada daquele pequeno demônio de fraldas. O som da britadeira, ao menos, não tinha nada a ver com ela.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:07 AMComments: Sábado, Janeiro 21, 2012
Carol Nogueira - Daniel, participante do BBB12 - Daniel, participante do BBB12 (Divulgação/TV Globo/Frederico Rozário)
Mãe do modelo Daniel acusa a Globo de racismo
Para Maria Aparecida Echaniz, todo BBB tem movimento sob o edredon e nunca ninguém foi expulso. Agente do modelo coloca a culpa em Monique: "Ela estava dando mole para ele e agora não quer admitir que fez sexo na casa"
A expulsão do modelo Daniel Echaniz do Big Brother Brasil 12, sob a suspeita de ter abusado de Monique, sua colega de confinamento, após uma bebedeira na primeira festa, começa a ganhar contornos de batalha judicial. Embora a direção da TV Globo tenha tomado o cuidado de evitar a palavra “estupro” – justificou a expulsão por comportamento inadequado às regras do programa -, a mãe do modelo, Maria Aparecida Echaniz, considerou injusta a exclusão e atribuiu o desfecho do caso a racismo.
“Movimentação debaixo de edredom sempre aconteceu, em todos os BBBs. Por que só ele foi expulso desta vez?”, questionou Maria Aparecida. “Ele é negro, então começa a formar o quebra-cabeça, não tem muito o que explicar: isso é discriminação. Se ele foi expulso pelo que aconteceu debaixo do edredom, então os dois deveriam ter sido excluídos, porque ele não fez nada sozinho.”
Maria Aparecida diz que ainda não conversou com o filho e que ninguém da Rede Globo ou da direção do BBB a procurou para dar explicações. “Talvez não queiram me abalar, não sabem como vou receber a notícia, mas o fato é que já estou informada, pela TV e pela imprensa, que começou a me ligar”, afirmou.
Embora ainda não tenha tomado decisões sobre o que fazer, ela não descarta uma ação na Justiça. “Não vou tomar nenhuma decisão agora, vou esperar a cabeça acalmar, descansar, porque não durmo desde ontem”, explicou. “Depois é preciso pensar no que fazer, porque nada nesse mundo é de graça.”
Maria Aparecida diz ter certeza de que o filho não estuprou Monique. “Ele é alegre, nunca deu trabalho na vida, sempre foi estudioso e verdadeiro, nunca falou de ninguém pelas costas”, afirma. “Não é por ser meu filho, não, mas ele é uma pessoa muito correta.”
Daniel Echaniz, após a eliminação, foi encaminhado para um hotel, onde está à disposição do delegado que investiga a suspeita de estupro. A mãe diz que ele também prestaria depoimento, mas não sabe dizer se já foi ouvido. Maria Aparecida diz estar assustada com a proporção que o caso tomou. "Eu e meus outros filhos estamos mal, não tenho nem dormido direito”, afirmou. “Imagino que a mãe da Monique esteja passando pela mesma coisa, ninguém gosta de ter um filho exposto dessa forma.”
“Deu mole” – Quem também saiu em defesa de Daniel na tarde desta terça foi seu agente, Sérgio Mattos. Dono da agência 40 Graus e conhecido como um dos maiores caça-talentos do Rio, ele não acredita em estupro e diz que Daniel "é do bem". "Ele sempre foi um ótimo profissional, fez bons trabalhos com o Mario Testino, fotografou com Isabeli Fontana, Raica...
Todo mundo elogia ele, nunca teve nenhum problema de comportamento”, explica. “Ele estava bem na carreira internacional, morava em Milão, mas voltou ao Brasil para morar em São Paulo e estudar teatro."
Para explicar as cenas sob o edredom, Mattos colocou a culpa em Monique. “A menina estava dando mole para ele”, afirmou. “O problema é que ela não tem coragem de assumir que fez sexo dentro da casa.”
Mattos já havia sido execrado no Twitter, ainda no domingo, por lançar opiniões semelhantes para defender seu cliente em um tuíte em que perguntava: “Monique geme dormindo?". Hoje, ele tentou justificar o tuíte. “Escrevi o que vi no vídeo: ela mexe o braço e geme”, afirmou.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:19 AMComments:
Brasil é o 2º mais desigual do G20, aponta pesquisa
Logotipo Exame.com O Brasil é o segundo país mais desigual entre os membros do G20, de acordo com uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira pela Oxfam, organização voltada ao combate à pobreza.
De acordo com o estudo, a desigualdade cresceu em 14 dos países que fazem parte do clube dos mais ricos do mundo desde 1990.
“Muitos governos e responsáveis pela elaboração de políticas colocaram o crescimento econômico em primeiro plano e o interesse das pessoas pobres em segundo, permitindo que suas rendas caíssem mais ainda em relação aos que estão no topo e deixando para eles os custos do crescimento econômico, como a degradação ambiental”, disse a organização, em comunicado.
A pesquisa mostra que a desigualdade cresceu mais rapidamente na Rússia, China, Japão e África do Sul no período de 1990 a 2010. Países mais ricos, como Canadá, Reino Unido e Alemanha, também registraram aumento na desigualdade. Entre as economias emergentes, a Coréia do Sul foi a única que conseguiu reduzir as desigualdades.
“Contrariando o mito popular, uma maré econômica em alta não ergue necessariamente todos os barcos e pode, na verdade, afundar alguns deles”, afirmou Caroline Pearce, coautora do relatório, em comunicado à imprensa.
Embora o Brasil seja o segundo país mais desigual do bloco – com mais de 60% da renda concentrados nas mãos dos 10% mais ricos, perdendo apenas para a África do Sul –, o relatório elogia os recentes avanços do país no combate à pobreza.
O documento destaca que entre 1999 e 2009, cerca de 12 milhões de brasileiros saíram da pobreza, diminuindo a proporção de pessoas que vivem com menos de 1,25 dólar por dia para um em cada nove – contra um em cada 25 no passado.
Se o ritmo for mantido, na próxima década o país poderá reduzir a pobreza em mais 80%.
“Os destinos contrastantes das pessoas pobres no Brasil e na África do Sul – dois países com taxas de crescimento similares – mostram o papel crucial do governo para reduzir a pobreza e a desigualdade”, diz Pearce.
O relatório destaca ainda cinco políticas governamentais que podem ser adotadas para reduzir a desigualdade: transferência redistributiva de renda, saúde e educação universal, tributação progressiva, remoção de barreiras aos direitos e oportunidades iguais para as mulheres e reforma agrária.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:19 AMComments:
21 de janeiro de 2012 | N° 16954
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES
Contos Tradicionais - 1ª Parte
O homem e a mulher vem contando para os filhos e netos, desde os tempo imemoriais, contos bonitos, com fadas e princesas, príncipes e heróis. Contos às vezes com aspectos tenebrosos, mas sempre com um final feliz.
As crianças que ouvem esses contos, e que muitas vezes adormecem antes do fim, crescem, tornando-se pais e mães, avôs e avós e quando acontece cuidarem de um filho ou de um neto com sono rebelde, lembram-se dos contos que seus maiores contaram. E fecha-se a cadeia, com o conto passando de geração a geração e espalhando-se de país em país.
Quando o poeta francês Charles Perrault (1628 –1703) lançou a sua coletânea de contos tradicionais, a Europa Central vinha repetindo essas histórias geração após geração. Perrault, ambicioso literato, não era brilhante, nem inteligente. Teve o ouro nas mãos e não o valorizou.
Só não lhe escorregou pelo meio dos dedos porque teve o bom senso de publicar o conjunto de contos que recolheu, embora vergonhosamente assinasse o livrinho com o nome de seu filho de 11 anos. O sucesso dos contos foi imediato, mas dos versos de Perrault, que ele tanto valorizava, nunca mais se ouviu falar. Seu nome é conhecido unicamente pelos contos.
Aparecem na coleção de Perrault contos como Chapeuzinho Vermelho, Pequeno Polegar, Bela Adormecida, Barba Azul (todos integrantes, com variantes próprias, do folclore gaúcho) e outrao, que não se integraram no nosso folclore, por uma razão ou por outra. Alguns dos contos de Perrault tiveram variantes em coleções anteriores, quase desconhecidas, mas é fora de dúvida que foi o trabalho do medíocre poeta francês e excelente folclorista “avant la lettre” que lançou tais contos à celebridade.
Sim. Não são contos de Charles Perrault, mas contos tradicionais, conhecidos em toda a Europa Central, recolhidos das avozinhas rurais e que, quando muito, receberam do coletor um tratamento “literário”, expungidos os modismos e deformações regionais ricas da rica língua francesa no século 17. Perrault preservou assim um acervo espiritual que era do povo e devolveu-o ao povo, seu legitimo dono.
Ao seu povo, primeiramente. Logo, ao povo da Europa Central e depois ao mundo, acabando por chegar alguns desses contos quase intactos aos galpões gaúchos do Rio Grande do Sul.
Impressiona sobremaneira como o arcabouço desses contos se mantém integro e resiste ao tempo, à geografia e aos diferentes idiomas.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:18 AMComments:
21 de janeiro de 2012 | N° 16954
NILSON SOUZA
Aplausos para a honestidade
Compartilhei nos últimos dias com meu círculo de amigos um desses vídeos de internet que merecem ser rotulados de imperdíveis. Trata-se de uma propaganda da Coca-Cola, feita na véspera do clássico do futebol português Benfica x Sporting – um jogo que despertava grande interesse do público.
Pois exatamente no Estádio da Luz, onde estavam sendo vendidos os ingressos, os autores da ideia do comercial deixaram uma carteira no chão, com a identidade de um sócio do Sporting e um bilhete para a concorrida decisão.
O objetivo era testar a reação das pessoas que encontrassem a carteira do rival – e que estavam sendo filmadas por câmeras ocultas. Pois 95% dos torcedores que depararam com o achado dirigiram-se ao balcão de recepção para entregar não só a carteira, mas também o ingresso.
Todos os que devolveram foram saudados por funcionários da empresa patrocinadora e premiados com uma entrada para o jogo. O desfecho é emocionante: quando o filme da pegadinha passa no telão do estádio, 60 mil pessoas aplaudem de pé (http://www.youtube.com/watch?v=xxFbpmDMD0E).
Os aplausos para a honestidade, que também são um reconhecimento à inteligência de quem bolou o comercial, suscitam imediata comparação com a nossa realidade. Muitas das pessoas que viram o vídeo fizeram o mesmo comentário:
– Se fosse aqui, dava o contrário. Apenas uns 5% devolveriam.
Fiquei pensando nestas observações. Será que somos mesmo um povo com pouco apreço por este valor tão caro ou andamos com a nossa autoestima abalada? A verdade é que os relatos de falcatruas costumam ganhar mais destaque do que histórias de integridade, até mesmo porque pessoas honestas não andam alardeando suas virtudes. Apesar dos comentários negativos, todos os conhecidos gostaram do vídeo.
– É de arrepiar! – ouvi de um.
Ora, se a honestidade nos encanta, então temos, sim, vocação para o exercício deste princípio ético que está na base da civilização. Se passarmos da teoria à prática, não são poucos os brasileiros que devolvem troco errado, respeitam sinalização de trânsito e vagas de deficientes, jamais levam para casa alguma coisa que não lhes pertence.
Não tenho percentuais, mas conheço muita gente que faz a coisa certa mesmo quando ninguém está observando. Este registro é a minha maneira de bater palmas para eles.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:18 AMComments:
21 de janeiro de 2012 | N° 16954
PAULO SANT’ANA
O meu corpo
Acontece-me atualmente um fato importante, uma transformação extraordinária: emagreci 18 quilos.
Antes da doença, eu tinha 83 quilos. Agora, estou com 65 quilos.
Em matéria de vestuário, dá-se-me o seguinte: servem ainda as jaquetas, as camisas, as cuecas, que embora frouxas são seguras pelas calças.
Mas as calças ficaram folgadas demais e soam como ridículas no meu corpo. Comprei na semana passada, às pressas, duas calças. Vou ter de comprar mais, sou outro homem, tenho outro corpo com o qual não estou acostumado.
Interessante, nesse emagrecimento fulminante, no entanto, não emagreceram o meu cérebro, o meu cerebelo, o meu córtex, isto é, meus dois hemisférios cerebrais permaneceram inalterados.
Fico imaginando idiotamente que se tivessem emagrecido o meu cérebro, o meu cerebelo e o meu córtex, se tivesse emagrecido a minha calota craniana, certamente as minhas ideias teriam diminuído de qualidade e meu raciocínio ficaria depauperado, em suma, eu teria emburrecido.
Mas não, pelo que depõem algumas pessoas chegadas a mim, com todo os indícios de que falam a verdade, fiquei intelectualmente intacto desse vendaval de emagrecimento que assolou meu organismo.
Olho-me no espelho e noto que estou diante de um esqueleto. Assustam-me minhas tíbias, úmeros, patelas, rádios e cúbitos, fêmures, assusta-me que esses meus ossos possam estar debilitados.
O médico diz que não, que logo após um câncer devem ser verificados todos os órgãos, pois pode haver recidivas das doenças neles.
Mas todas as tomografias que fiz na semana passada dão conta de que meus pulmões estão limpos e não há anormalidade em nenhum lugar.
Acho que o chocalho dos meus ossos continua perfeito e só me assusta que o pergaminho da minha pele esteja muito enrugado.
Evidente que este processo de emagrecimento gradativo e impactante se deve à minha desnutrição. Não tenho apetite e só me alimento com duas refeições diárias: pela manhã, um complemento alimentar feito de pó com leite e, à noite, a tentativa de uma janta.
Aquilo que eu fazia antes, dois ou três lanches diários entre duas refeições, nem pensar... porque não entra a comida, por mais esforço que eu faça, ela não desce na garganta, nem me atrevo a perpassá-la pelos lábios.
Mas estou vivo, tenho sensações, estabeleço atraentes conversas com amigos, administro as coisas da minha casa e dos meus pertences pessoais satisfatoriamente.
E principalmente continuo escrevendo minhas colunas. Não sei se para me adular, os amigos e alguns leitores me mandam dizer que estão ótimos meus escritos.
E lá vou eu, se passar por essas procelas, tenho tudo para ainda ser feliz.
Estou à espera de que o sol desponte e eu volte a ser uma pessoa normal, pois sinto que ainda tenho muito para dar aos meus semelhantes, ao redor do meu mundo e a mim próprio.
Força, Pablo!
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:18 AMComments: Sábado, Janeiro 07, 2012
08 de janeiro de 2012 | N° 16940
MARTHA MEDEIROS
Esquecimento e memória
Outro dia li um ensaio interessante sobre a arte de esquecer. Dizia que a memória até pode ajudar a conservar nossa história, mas que o esquecimento é fundamental para a regeneração da vida, que só esquecendo o passado podemos nos dedicar a planejar o futuro, algo assim.
É uma tese controversa. Avanços históricos, sociais e tecnológicos estão intimamente ligados ao conhecimento do que já se fez antes. Já nas questões pessoais, um pouquinho de esquecimento pode, realmente, ajudar a desatar nós e a seguir em frente, mas isso em se tratando de pessoas que possuam mesmo um futuro.
Para pessoas mais idosas, não pode haver velhice pior do que aquela em que se está mergulhado no breu.
Inúmeras doenças degenerativas corroem a memória, deixando a pessoa enredada no presente instante. Ela esquece o que comeu no almoço, esquece com quem estava conversando há meia hora e sobre o quê. Menos mal que, mesmo com esse esquecimento de fatos imediatos, consegue produzir flashbacks, lembrar da infância, de acontecimentos remotos. Mas se a memória for inteirinha para o brejo, de que adiantou ter vivido?
Não consigo imaginar chegar lá adiante, velhinha, depois de ter atravessado tantos conflitos, tantos amores, cometido tantos erros e tantos acertos, e não poder comemorá-los, todos.
O que justifica uma vida não são nossas boas intenções, nossas ideias jogadas ao vento, nossos quases: vida é a coisa realizada. O que se fez e o que se sentiu. Se elas forem esquecidas, esvaziam-se nossos 80 anos, nossos 90 ou cem anos. Qualquer longevidade passará a valer um segundo.
Quero olhar para as fotos e me reconhecer no sentido mais amplo, enxergar o que eu sentia naquele momento do clique, dizer “parece que foi ontem” sem sofrimento. Quero lembrar de sabores, de sorrisos, de gestos, esses flashes que vêm e povoam a estrada atrás de nós. Quero inclusive lembrar dos arrependimentos e das dores, que vistos de longe parecerão menores, e essenciais. Quero rir muito do meu passado. Rir muito de mim, me recordando de trás pra frente.
Porque se não for assim, nossa vida terá valido para os outros, os que nos lembram, mas não terá valido para nós mesmos. Seremos uns desmemoriados sem alicerces, vagando num presente ilusório, desaparecendo a cada minuto que passa.
O esquecimento é um anestésico que não me tenta. Se temos que morrer um dia (que jeito), que seja abraçados às nossas recordações. A integridade de uma vida está em seu reconhecimento, mesmo que se reconheça, junto às boas lembranças, a proximidade do fim. É o preço. Pior é morrer com a bênção de não se dar conta da morte iminente, mas com o destino cruel de não poder avaliar, através da memória, se valeu ou não a pena.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:31 PMComments: Sábado, Dezembro 31, 2011
31/12/2011 e 01/01/2012 | N° 16933
MARTHA MEDEIROS
2012, me surpreenda
As melhores coisas do ano sempre foram aquelas que eu não previ
Ano-Novo é uma convenção. Os dias correm em sequência. De 31 de dezembro para 1º de janeiro ocorrerá apenas mais uma sucessão de 24 horas em que nada mudará, tudo seguirá do mesmo jeito.
Pois é, sei disso, mas é um ponto de vista sem nenhuma alegria. Sou das que compram o pacote de Ano-Novo com tudo que ele traz em seu imaginário: balanço de vida, reafirmação de votos, desejos manifestos e esperança de uma etapa promissora pela frente.
Faço lista de projetos e tudo mais. Só que, quando chega o fim do ano e avalio o que consegui cumprir, descubro que o inesperado superou de longe o esperado. As melhores coisas do ano sempre foram aquelas que eu não previ. Então tomei uma decisão: nessa virada, não vou planejar coisa alguma e aguardar as resoluções que 2012 tomará para mim, à minha revelia.
Mas poderia dar algumas sugestões?
2012, anote aí: que as coisas mudem, mas não alterem meu estado de espírito. Não deixe que eu me torne uma pessoa ranzinza, mal-humorada, desconfiada, sem tolerância para as diferenças. Aconteça o que acontecer, que eu me mantenha aberta, leve e consciente de que tudo é provisório.
Não quero mais. Quero menos. Menos preocupações, menos culpa, menos racionalismo. Pode cortar os extras. Mantenha apenas o estritamente necessário para me manter atenta.
Está anotando?
Espero que você esteja com ótimos planos para sua amiga aqui. Lançarei livro novo? Permita que eu seja abusada: dois. Sendo que nenhuma coletânea de crônicas, nem romance. Me ajude a variar.
Que lugares conhecerei que ainda não conheço? Que pessoas entrarão na minha vida que, quando cruzo com elas na rua, ainda não as identifico? Que boas notícias ouvirei das minhas filhas? Quantos shows terei o prazer de assistir? Estou curiosa para saber o que você está aprontando para incrementar os meses que virão.
Prometo que estarei preparada para receber o abraço afetuoso de quem antes me esnobava, para a frustração por tudo o que for cancelado, para voltar atrás nas minhas teimosias, para me dedicar a algo que nunca fiz antes.
Estarei disposta a tirar de letra os espíritos de porco e assumir a responsabilidade pelas asneiras que eu mesma cometer. E estarei pronta também para uma grande surpresa, ou até duas. Três, meu coração não aguenta.
Se a dor me alcançar, que me encontre com energia e sabedoria para enfrentá-la. Que eu não me torne dura diante dos horrores, nem sentimentaloide diante das emoções. 2012, os acontecimentos são da sua alçada. Da minha, cabe recepcioná-los com categoria.
Quais são seus planos para mim, afinal? Talvez nem todos sejam do meu agrado, portanto, que eu não tenha constrangimento em dizer “não, obrigada”, caso seja preciso. Mas que eu me sinta mais predisposta para o sim.
Se estamos de acordo, pode vir.
FELIZ 2012 pra você
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:00 AMComments:
31/12/2011 e 01/01/2012 | N° 16933
VERISSIMO
Retrô 2011
Foi o ano das quedas e das substituições
Começando com a de Lula por Dilma, foi um ano de substituições. A do Palocci pela Gleisi Hoffman. A do Mubarak por uma junta militar. A da Fátima Bernardes pela Patrícia Poeta.
Também foi um ano de quedas: a do Kadaffi, a do Berlusconi, a do programa espacial da NASA, a do Paul McCartney.
Foi o ano em que um casal atraiu a atenção do mundo inteiro, que quis saber tudo sobre sua união, nos menores detalhes. Strauss-Kahn e a camareira do hotel ocuparam a imaginação de todos durante semanas. A união do príncipe William com a plebeia Kate Middleton também foi bastante comentada.
O maior desastre do ano foi o tsunami que arrasou a cidade de Fukushima, no norte do Japão, e atingiu sua usina nuclear. Coisa parecida aconteceu no centro do Japão, em Yokohama, com o time do Santos, felizmente sem vítimas fatais.
O primeiro ministro grego inventou de anunciar um plebiscito para saber se o povo grego apoiava as medidas de austeridade pedidas pela comunidade europeia para resolver sua crise. A comunidade europeia reagiu com horror: “Democracia numa horas destas?!”. O primeiro ministro grego não só teve que desistir do plebiscito como perdeu o cargo, para aprender.
Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama mudou seu slogan de “Sim, nós podemos” para “Sim, me ferraram” referindo-se à maioria republicana no Congresso que não o deixa governar como queria. No Brasil, o Fernando Henrique bolou uma versão tucana do “Yes, we can”, “Yes, we care”, sim, nos importamos, para dizer que o PSDB também pensa no “social” e não é apenas o Serra e o Aécio se chutando por baixo da mesa.
O PT logo adotou sua versão, “Sim, nós pensávamos que podíamos”, o PMDB a sua, “Sim... ou não, depende” e o DEM a sua “Yes, we ...quem?”.
Supondo-se que exista uma espécie de entreposto no Além, onde se faz a triagem das almas, pode-se também imaginar que esteja havendo um atraso na identificação dos mortos do ano, para saber quem sobe e quem desce. A chamada pelas senhas estaria demorada e já estariam havendo reclamações, lideradas pela Amy Winehouse, que ameaça quebrar tudo se o processo não for apressado.
– Pô! Não dá pra pra ver pela cara quem vai pra cima e quem vai pra baixo? – grita Amy.
Só na ala de mortos VIPs lá estão Steve Jobs, Osama Bin Laden, Itamar Franco, José Alencar, Lucien Freud, Ernesto Sabato, John Herbert, Sócrates...
Cristopher Hitchens, um dos últimos a chegar, também protesta. Está ansioso para se encontrar com Deus e convencê-lo de que Ele não existe.
Finalmente, alguém vem explicar a demora nas entrevistas. É que a chegada da Elizabeth Taylor alvoroçou todo o mundo. Os entrevistadores abandonaram seus guichês. Estão todos cercando a Elizabeth, pedindo seu autógrafo...
– Hiiiiiii – diz Amy. – Já vi que vamos ficar aqui até o ano que vem.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 9:00 AMComments:
31/12/2011 e 01/01/2012 | N° 16933
NILSON SOUZA
Simpatias infalíveis
Se você quer ganhar um Ano-Novo cor de arco-íris, como sugeriu Drummond na sua receita poética, não caia na lorota de chupar sementes de romã – nem de bergamota.
Apenas pinte o seu ano com o pincel da imaginação e as tintas do coração.
Se você quer ganhar um Ano-Novo próspero, exitoso e feliz, como consta nas mensagens de cartões, não coma lentilha nem dê pulinhos nas ondas – pois é tudo onda.
Em vez disso, semeie suas próprias sementes de uma planta frutífera chamada gentileza.
Se você quer ganhar um Ano-Novo envolto em cifrões, como preveem os magos da economia, não coloque folha de louro na carteira – ainda que louro rime com ouro.
Seja mais pragmático, acorde cedo e mergulhe de cabeça, corpo e alma na praia do trabalho.
Se você quer ganhar um Ano-Novo repleto de esperanças, como prometem os manuais de autoajuda, não precisa servir maçãs sobre toalha branca – para reis que não virão.
Caia na realidade: é possível saber quantas sementes tem numa maçã, mas não quantas maçãs tem numa semente.
Se você quer ganhar um Ano-Novo pleno de venturas, como desejam amigos e parentes, não desfile pela casa com malas vazias – até para não se tornar mala também.
Faça, isto sim, um plano de voo para conhecer o seu próprio paraíso, que talvez nem esteja tão distante.
Se você quer ganhar um Ano-Novo marcado por uma grande paixão, como prediz a cartomante da esquina, não vista roupas íntimas de cores berrantes – pois o Carnaval está longe.
Seja mais elegante, invista na sua autoestima e terá mais chance de encontrar alguém especial.
Se você quer ganhar um Ano-Novo enfeitado de elogios, como sonham os cronistas de amenidades, não dê conselhos nem faça trocadilhos – pois certamente irão acusá-lo de plágio ou repetição.
Preferível, então, deixar de lado a poesia e lembrar aos leitores que a verdade é a mais poderosa das simpatias.
Está bem, não sejamos tão racionais. Vem aí um ano que ninguém usou ainda e que pode ser seu, meu, de quem vier. Se você quiser pular ondas, pule e não dê bola para os descrentes. Coma lentilha, milho verde, o que melhor lhe aprouver. O importante é que você se divirta e receba 2012 com alegria, humor e tolerância.
Saúde e feliz Ano-Novo!
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:59 AMComments: Terça-feira, Dezembro 20, 2011
Jairo Marques
Natal sem solidão
As razões para não gostar da data podem ser revertidas em atitudes que proporcionem energia e fé
Por todos os cantos, escuto gente falando que "odeia o Natal". Por trás de tão desaforada frase para Papai Noel e suas renas, imagino que haja sempre embutido um gole azedo de alguma tristeza ou um pote de amargura pelo abandono, pela dificuldade ou incapacidade de comemorar a vindoura noite feliz.
De fato, para quem tem de encarar os piscas-piscas da cidade na solidão ou se banhando nas lembranças de quem ou de um tempo que se foi é o ó do borogodó.
Também é um porre queimar todo o 13º salário em presentes para sobrinhos endiabrados. Mais chato ainda é ter de suportar aquele cunhado folgado dizendo que a "coxa do peru tem dono".
Mas penso que seja preciso evitar maldizer esse tempo que ainda sobrou para parte da humanidade: doar-se à solidariedade e ceder o banco reservado aos velhos no ônibus, mudar de atitude e deixar de estacionar em vagas reservadas às pessoas com deficiência, lembrar os entes e amigos engavetados na estante do atropelo -ou do egoísmo- do cotidiano, suavizar pequenas injustiças alheias com as próprias mãos.
As razões para não gostar do Natal podem ser, com algum esforço, revertidas em atitudes que proporcionem energia e fé para dias melhores a quem não tem nem a oportunidade de escolha e irá mesmo passar esses dias no calundu.
Obviamente ninguém tem a obrigação de estar feliz nesta época do ano. Porém é uma chance coletiva e legítima de tentar amenizar o Natal de solidão forçada para alguns que moram em asilos, de rechear positivamente a fantasia dos que se "hospedam" em orfanatos, de incentivar dias melhores para os que dormem nas enfermarias, nas UTIs.
Eu mesmo já passei muitos Natais atravessados, levando comigo toda a "famiage". Em um deles, eu estava de molho, em reabilitação da paralisia infantil, no hospital Sarah, em Brasília, cercado por macas, pinos cirúrgicos, dores de todos os tipos e sabores.
Lembro que houve um show do Eduardo Dusek, que tocou "Barrados no Baile" e divertiu o povo com seus trejeitos no piano. Enfermeiros, médicos e voluntários se juntaram a pais, mães e irmãos para celebrar a data e desejar que os estropiados, no futuro, pudessem passar o dia 25 em outra situação, talvez, quem sabe, disputando a coxa do peru com o cunhado.
De lá para cá, não resolvi ir às missas do galo nem faço questão de fazer ceia à meia-noite, mas lá em casa tem enfeites, tem uma voz interior que empurra a ser mais solidário e há iniciativas diversas para não odiar o Natal, para não dar brecha à solidão e dar fôlego para os bons pensamentos. Há sempre alguém se agarrando na esperança de um mundo melhor, sobretudo quando o próprio mundo criou essa possibilidade.
E esta "Pollyanna sobre rodas" defende um Natal sem solidão. Adote um cachorro sarnento e faça dele um lulu de madame -vale também comprar um labrador babão e botar nele o nome de Banzé. Engula o orgulho com uma taça de espumante e ligue para o ingrato de seu filho mais velho que só quer saber de passear em Gramado.
Se nada funcionar, coloque o disco do "rei" na vitrola e deixe que ele repita, até ficar rouco, aquela frase gostosa: "Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo...".
jairo.marques@grupofolha.com.br
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:29 PMComments: Quarta-feira, Dezembro 14, 2011
14 de dezembro de 2011 | N° 16917
MARTHA MEDEIROS
Não pega
Hoje será votado o projeto que pretende alterar o nome da Avenida Castelo Branco. A ideia é de que a avenida deixe de homenagear um representante da ditadura militar para se chamar Avenida da Legalidade, que é um movimento que orgulha os gaúchos.
Os autores do projeto, os vereadores Fernanda Melchionna e Pedro Ruas, estão bem-intencionados e seus argumentos são razoáveis, mas é uma iniciativa que, vitoriosa ou não, pouca diferença fará. Ninguém vai passar a dizer: “Me atrasei, fiquei preso na Legalidade”. Todos continuarão saindo e entrando livremente de Porto Alegre pela Castelo Branco.
No Rio, as pessoas desembarcam no Galeão, mesmo que o aeroporto se chame Antonio Carlos Jobim desde 1999. Alguém se refere a Cat Stevens como Yusuf Islam? É o nome do cantor desde que ele se converteu ao islamismo. Quem escutava Jorge Ben quando criança não consegue chamá-lo hoje de Jorge Benjor, e muitos moradores vizinhos à Praça Carlos Simão Arnt (praça o quê? Ah, a praça da Encol) seguem chamando o supermercado Nacional de Febernatti.
Não importa se por homenagem, conversão religiosa, numerologia ou mudança de propriedade: temos profunda resistência a trocar de hábitos. Na época da escola, tínhamos uma colega cujo apelido era Gorda. Hoje, a Gorda é uma mulher linda e magra que faz questão de que a chamemos pelo nome, Marina.
Mas alguém consegue? Quando ela nos apresenta algum namorado ou se está diante de uma cliente, ai de nós, suas amigas de infância, se perguntarmos: “Onde é que tu conheceste a Gorda?”. Ela nos fulmina com os olhos como quem diz: “Te pego na saída”.
Mas não pega.
Porque, depois de um tempo, Gorda deixa de significar acima do peso, assim como Castelo Branco deixa de significar presidente do regime militar. Ninguém racionaliza sobre nomes próprios. A menção torna-se automática, sem nenhuma codificação, sem nenhum racionalismo. Tanto faz se uma loja for inaugurada com um nome esdrúxulo ou chique, pois todos os nomes são rapidamente despidos de qualquer sentido.
Lembro que houve uma época em que a butique mais elegante de Porto Alegre chamava-se Levajeito: nome de lojinha de subúrbio. Assim como lanchonetes de fundo de quintal são batizadas com nomes em inglês e apóstrofo – identificações superficiais, pois o que segue relevante é a identidade intrínseca do local.
Infelizmente, é assim: o costume elimina a significância. Vá saber se em algum rincão do Brasil não há uma rua chamada Orlando Silva, que tanto pode estar homenageando o cantor das multidões como o ministro que saiu do governo sob acusações de irregularidades. Na hora de dizer Orlando Silva, 256, apartamento 101, quem pensa no ilustríssimo que a inspirou?
Não que seja um mau projeto. Só me parece inútil.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:57 AMComments: Sábado, Dezembro 10, 2011
11 de dezembro de 2011 | N° 16914
MARTHA MEDEIROS
Sem querer interromper
Não é um defeito que mereça entrar no rol dos crimes hediondos, mas é bem chato: pessoas que falam em cima da fala da gente. Ainda nem terminamos a frase, e o nosso interlocutor já está falando junto, numa demonstração clara de que não importa o que estamos dizendo, ele próprio tem algo mais importante a dizer.
Pode parecer uma crítica, mas é, na verdade, uma autocrítica: entre essas pessoas, estou eu mesma. Minha família é ótima, alegre, desinibida, mas tem essa mania incontrolável: todos falam em cima dos outros. Não somos italianos, e sim ansiosos (nascidos e criados num país fictício chamado Ânsia).
É um costume que passa de geração para geração. Mães, pais, avós, tios, primas, todos praticam essa esquizofrenia de não permitir que ninguém termine uma fala, ninguém. A conversa é de doidos, mas as festas são animadas.
Fui incorrigível, desse mesmo jeito, por muito tempo, até que comecei a perceber o quanto a situação é desagradável para quem não faz parte da nossa árvore genealógica. Levei uns puxões de orelha das amigas, o que me salvou. Hoje, se não estou 100% curada, posso dizer que já consigo me conter um pouco.
Procuro não sair falando junto, em cima, atrapalhando o trânsito das palavras. Ouço o que o outro tem a dizer, mas ainda cometo o pecado de terminar a frase por ele. Basta que o coitado vacile na conclusão da sua argumentação, buscando uma palavra que não vem, e eu rapidamente encontro a palavra que ele procurava. Quase sempre acerto, o que não me redime. Por que raios não esperei ele próprio encerrar seu discurso? Nascida em Ânsia, num lugarejo chamado Impaciência.
Nós, os acelerados de berço, não fazemos por mal, mas precisamos nos dar conta de que duas pessoas falando juntas é a anticomunicação. Sabemos como é azucrinante ter que concluir nosso pensamento e ao mesmo tempo ouvir o que o nosso interlocutor está dizendo.
Por isso me compadeço de entrevistadores que usam um ponto eletrônico no ouvido, aquele dispositivo que permite que se receba instruções do diretor do programa. Que sufoco ouvir duas vozes ao mesmo tempo, a do entrevistado falando sobre sua obra e a do diretor avisando: “Arruma o cabelo que caiu no rosto”, “Não esquece de perguntar sobre o escândalo do ano passado”, “Corta esse chato e chama o comercial”.
Duas vozes simultâneas: adeus, diálogo. Faz alguns anos que prometi a mim mesma: não vou mais me atravessar. Vou aguardar minha vez. Esperar a amiga falar, o namorado concluir. Vou escutar. Vou respeitar. Quieta, deixa ele acabar. Ai, que aflição, não vou conseguir. Putz, não me segurei. Falei em cima, de novo.
Desculpe, desculpe. Termine o que você estava dizendo.
Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:42 PMComments: