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Domingo, Maio 13, 2012



Maior medo de uma mãe



A grande inquietação de uma mãe, ao contrário do que se imagina, não é saber se ela dará conta de trocar as fraldas, se o choro do filho é de febre ou de fome, se ela está sendo severa ou molenga demais ou se o filho se sente suficientemente amado. Isso, ao vivo, a mãe resolve.

Quando ele é bebezinho ou ainda tão pequeno que não consegue resolver na-da — nem comer — sem a sua ajuda, a mãe tem seus questionamentos, mas ao mesmo tempo é preenchida por uma alegria descomunal, porque ele está lá, numa continuidade de seu ventre, naquela ligação mágica, milagrosa e intraduzível.

Toda mãe sabe que os problemas realmente começam quando ele parte para tomar, sozinho, a condução para a escola ou quando vai dormir na casa dos amiguinhos. É o primeiro indício do que há de mais óbvio — e cruel — na criação de um filho: que ele pertence não a ela, mas ao mundo.

Ninguém saberá mais do que ela – nem ele próprio – o que é melhor para o filho. Ninguém o amará mais do que sua mãe, ou lhe desejará mais alegrias do que ela. Se alguém, por ventura, atirar em sua direção, quem terá o impulso de se jogar na frente senão sua mãe? E pode aparecer qualquer mocinha apaixonada que o amor dela jamais chegará aos pés do seu. Mas, um dia, ele preferirá a companhia dela à sua, e isso vai matá-la por dentro.

O maior desafio daquela que o ensinou a dar os primeiros passos é justamente deixá-lo caminhar sozinho. E, na primeira noitada em que ele não telefonar para dizer onde está, a que horas chegou e com quem está andando, ela sentirá uma dor dilacerante, uma preocupação que nunca teve, nem consigo própria – até porque ela se garante, mas seu bebê não.

Custa-lhe telefonar de cinco em cinco minutos para dizer se comeu direito, se está triste ou feliz, se gostou do filme que acabou de ver no cinema? Uma mãe deveria ser atualizada, via aplicativo de iPad, dos mínimos passos e estados de espírito do filho; só assim ela ficaria relativamente em paz.

Isso vale para qualquer tipo de mãe, da mais extremada à mais independente, que gosta de dizer aos quatro ventos que o Dia das Mães não lhe importa, que é uma data como outra qualquer e que nem pensem em vir almoçar neste domingo porque ela marcou uma aula de dança. Na semana passada, num almoço entre amigas, uma delas avisou à mesa que pretende firmemente colocar um chip em seus filhos para localizá-los a qualquer hora assim que a engenhoca for permitida — isso, claro, com a anuência deles. Essa ideia ingênua causou espécie nos presentes, que riram da doce ilusão dessa mãe.

Um dia, alguém virará para ela e dirá o quanto seu filho é inteligente, gentil, educado e amado por todos. Ela quase desmaiará de surpresa e emoção e só então saberá o que é a tal da felicidade.

A angústia de saber se você é ou não boa mãe não é uma questão de ego, mas a preocupação com o futuro do ser mais amado do universo. Afinal, o grande medo da humanidade é o futuro e, no caso de uma mãe, esse medo vem em dobro, porque ela teme pelo futuro de duas pessoas — o dela e o do filho (mais o dele do que o dela). Se algum dia ela lhe faltar, o que será dele?

Pois eu vou dividir com vocês uma historinha pessoal. Perdi minha mãe para o câncer muito cedo, aos quatro anos, e só sobramos eu e meu pai. Só entre aspas, porque logo se mudaram para nossa casa minha tia e minha avó, para se ocupar de mim. Seis anos depois, foi meu pai quem partiu, e eu fui adotado pela mãe, pela irmã e pela sobrinha dele. Antes disso, quando ele ficou viúvo, conheceu uma namorada, Angélica, que tinha uma filha com síndrome de Down, Emi. E o grande medo de Angélica era o que aconteceria a Emi caso um dia ela lhe faltasse.

Ela fundou, então, uma escola voltada somente para crianças portadoras de deficiência neurossensorial, cheia de professoras atenciosas e amiguinhos como Emi. Um dia, Angélica partiu ao encontro do meu pai. E fomos eu e sua outra filha que assumimos a escola de Emi.

O detalhe é que a maioria das alunas tinha idade bem avançada e havia perdido seus pais. Se o medo do futuro é pertinente a todas as mães, imagine a uma mãe de excepcional. Uma delas, Belinha, de quase 80 anos, foi adotada pela fonoaudióloga da escola. Portanto minha tia virou minha mãe; eu, de certo modo, fui mãe de Emi; e a fonoaudióloga foi mãe de Belinha, e assim caminhou a humanidade.

Nem todo órfão tem essa sorte, é verdade. Mas é preciso acreditar na capacidade de solidariedade do ser humano, uma rede de mãos dadas que nos fez chegar até esse patamar evolutivo. Não é preciso ter medo; é preciso ter fé.

Fé nas pessoas, fé na família, fé no amanhã, fé no filho e fé nos amigos que hão de ajudá-lo quando você lhe faltar ou quando você não estiver por perto. Tudo pode dar errado, assim como tudo pode dar certo, pois toda pessoa tem, no fundo, uma mãe em potencial dentro de si. Mas é preciso disciplina, paciência e generosidade para despertá-la.

Penso hoje nas mães dos presos, naquelas que perderam seus filhos, naquelas que perderam suas mães, nas que se dividiram entre tantas jornadas de trabalho para prover o sustento da família.

Mas, sobretudo, naquelas que perfilharam, ainda que não oficialmente, os filhos de outros e, a partir da dor, construíram um jardim de infinitas possibilidades. É para esses anjos, que foram muito além de um ventre físico, que dedico este dia.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:52 PM Comments:



RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA

A Justiça do amor

Um pai foi condenado a pagar à filha R$ 200 mil de indenização por abandono afetivo. A decisão, inédita, é do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Essa história mexe com sentimentos – e não com reconhecimento de paternidade ou pensão alimentícia. Não deveria pertencer à Justiça, e sim à vida e à consciência de cada um. Como legislar sobre a prática do amor?

É um caso comum. Uma professora de 38 anos, Luciane Nunes, que mora em Votorantim, interior paulista, decidiu há dez anos processar o pai, Antônio Carlos Jamas dos Santos, dono de postos de combustível em quatro Estados, por não ter cuidado dela direito, na infância e na adolescência. Luciane havia nascido de uma longa relação extraconjugal do pai, que durou oito anos.

A mágoa da menina foi agravada por ciúme e rejeição. Os filhos que o pai teve em casamento formal com outra mulher estudaram nas melhores escolas, aprenderam várias línguas. Ela não. Além de uma vida mais confortável, seus meio-irmãos tiveram a atenção paterna em casa. As brincadeiras, as broncas, os carinhos, os conflitos. Ela não.

Luciane cresceu, casou, teve filhos. Mas não superou o ressentimento. Decidiu colocar o pai de castigo numa sala de tribunal. Mostrar publicamente que, como empresário, ele pode ser bem-sucedido e morar em condomínio de luxo. Mas, como pai, embora a tenha reconhecido, não a amou o suficiente. Não a educou. Deixou a tarefa a cargo da mãe. Antônio Carlos conta uma história bem diferente: diz que tentou se aproximar várias vezes da filha, mas a mãe não permitia e era agressiva.

Como encontrar a verdade? Não invejo a juíza Nancy Andrighi, do STJ, que justificou a sentença. “Amar é faculdade, cuidar é dever.” A juíza está certa, não há como discordar. Ela listou algumas obrigações constitucionais da paternidade, “deveres inerentes ao poder familiar”: convívio, cuidado, criação e educação dos filhos. É melhor pensar direito antes de engravidar. Para dar à luz e não às trevas.
A professora que processou o pai por abandono afetivo obteve vitória judicial. Mas não o amor dele

Luciane é hoje uma mulher que conseguiu, após uma década de processo, uma vitória judicial importante. Mas não o amor do pai nem a paz interna. A indenização, fixada inicialmente em R$ 415 mil, foi reduzida à metade. Antônio Carlos diz que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF). Se o Supremo julgar e der razão a Luciane, abrirá caminho para uma enxurrada de filhos que não se sentem amados.

Por enquanto, o abandono afetivo não é previsto em lei. Há dois projetos. Um deles propõe detenção de até seis meses para pais acusados de não dar afeto ao filho menor. O outro propõe indenizar por danos morais os filhos e os idosos sem afeto. Quantos velhos são esquecidos em asilos sem receber visita ou ouvir uma só palavra de filhos e netos?
É complicado legislar sobre o exercício do amor e suas subjetividades. Se todos decidíssemos pedir indenização por uma carência temporária ou persistente de afeto, as Varas de Justiça teriam de fechar. Não dariam conta.

O sentimento de abandono nem sempre traduz a realidade. Algumas pessoas acham que amar pressupõe um contato diário. É preciso falar todos os dias. Pessoalmente, pelo telefone ou computador. Há quem se sinta sempre abandonado, mesmo com dezenas de amigos.

O trauma é maior se quem não demonstra amor é o pai ou a mãe. A falta de afeto pode causar profundos estragos emocionais nas crianças e nos adolescentes. Alguém duvida disso, mesmo sem ser psicanalista ou psicólogo?

Para ser pai e mãe, não basta dar nome e dinheiro. Tem de acompanhar, conversar, orientar, ouvir, disciplinar, brigar, beijar, rir e chorar. Ajudar no dever de casa. Consolar, estimular. Não é nada fácil ser pai ou mãe. Todos erramos em alguma medida, por excesso ou falta de zelo. Como somos humanos, dificilmente encontraremos o equilíbrio certo para cada filho, todos diferentes entre si.

Não sei se a mãe de Luciane bloqueou o acesso do pai à filha. Muitas mulheres agem assim, por vingança e ignorância. Mas conheço um número maior de mães que se esforçam, em vão, para o pai se envolver mais na educação do filho. Há homens, separados, que acham que, para ser pai, basta almoçar uma vez por mês com os filhos, compartilhar fotos e trocar uma ideia pelo Facebook, mesmo morando na mesma cidade. Não basta.

A decisão que beneficia Luciane, nas palavras da juíza Nancy, “abre um caminho para a humanização da Justiça”. Talvez abra caminho também para injustiças. Uma indenização não muda sentimentos. Não obriga ninguém a passar a amar. Ao contrário, azeda uma aproximação futura.

Se existe algum benefício na decisão do STJ de São Paulo, é levar as famílias a uma reflexão. Já que amar é cuidar, por acaso sou omisso ou negligente com meus filhos? E com meus pais? O Dia das Mães é um bom domingo para pensar se cuidamos direito de quem mais amamos.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:52 PM Comments:


Mães de fibra

O sábado já é das mães. Em seu post na seção Mulheres pelo Mundo, Renata Neder da ONG International ActionAid, escreve sobre os relatos de pessoas do mundo inteiro sobre suas mães.

Como esse post estará publicado na véspera do dia das mães, queria escrever algo sobre o papel das mães nas nossas vidas e no mundo. E aí me lembrei de um exercício do qual participei na Tanzânia uma vez. Para abrir uma sessão sobre gênero e orçamento, fizemos uma discussão sobre a importância e o papel das mulheres na vida de todos nós. Cada um deveria falar de uma mulher que tenha sido importante ou marcante na sua vida.

Todos, sem exceção, falaram de suas mães. Mães da Nigéria, de Serra Leoa, do Quênia, da Zâmbia, do Sudão. Mães de vários países, mas com o mesmo coração enorme de mãe, que carrega o maior amor do mundo. Resgatei algum desses relatos:

Mwanza (Quênia): “Quando eu era pequeno, não queria ir para a escola de jeito nenhum. Não queria ir e além disso era muito longe. Eu morava em uma área rural e a escola ficava a 10 quilômetros da minha casa. Mas a minha mãe, apesar de não ter estudado, fazia questão que eu estudasse.

Ela me levava e me buscava todos os dias na escola para garantir que eu não iria deixar de ir, para garantir que eu iria estudar. 10 km para ir e 10km para voltar… e ela me levava a pé todos os dias. Hoje eu agradeço a ela pelo que sou, por onde eu cheguei. Não teria chegado até aqui se ela não tivesse sido firme em me fazer ir para a escola.”

Felix (Nigéria): “Minha mãe teve 15 filhos, mas 3 morreram. Ficamos só 12 irmãos. Ela ficou viúva muito cedo e por isso sofreu muito preconceito, uma mulher sozinha com 13 filhos… Ela não conseguia empréstimos para ajudar no seu pequeno negócio porque era mulher. Mas mesmo com todo o preconceito e com todas as dificuldades, ela fez de tudo para mandar todos os filhos para a escola. Minha mãe era uma lutadora.”

David (Nigéria): “Eu sou o filho mais novo e o único homem. Meu pai fez de tudo por mim, tudo o que eu precisava, meu pai me dava. Mas meu pai não fazia o mesmo pelas minhas irmãs. Meu pai não queria que as minhas irmãs estudassem. Mas minha mãe fez questão que todas as filhas também estudassem e ela deu um jeito de pagar todas as taxas da escola. Quando a minha irmã mais velha foi para outra cidade, longe de casa, para poder continuar os estudos na escola secundária, meu pai disse que ela estava era indo para a prostituição.

Mas mesmo assim, minha mãe e minha irmã se mantiveram firmes, e ela seguiu os estudos. Depois que ela se formou na universidade e começou a trabalhar, quando ela ganhou seu primeiro salário, ela voltou pra casa para mostrar o resultado de ter ido à escola. Só assim, e depois de tantos anos, meu pai finalmente se desculpou pelo que disse. Se não fosse pela força da minha mãe, nenhuma das minhas irmãs teria estudado.”

Ndjira (Zambia): “Minha mãe teve que largar a escola muito cedo, não pôde continuar os estudos. Mas ela fez questão de que todos os seus filhos estudassem. Quando eu estava na escola, a minha mãe estudava comigo matemática. Mesmo ela tendo largado muito cedo a escola primária, ela estudou comigo matemática até eu me formar. Era incrível… ficava imaginando como ela poderia saber e conseguir estudar toda aquela matemática comigo tendo largado a escola primaria assim tão cedo… Era mesmo um dom. Eu tenho certeza que se ela tivesse tido uma oportunidade, ela teria sido alguma matemática ou cientista importante.”

Relendo esses relatos e pensando em tantas outras histórias que conheço, penso como é linda – e árdua – a luta das mães para dar uma vida melhor aos seus filhos. Mãe é isso aí, é não ter medo de enfrentar o mundo, é essa coragem desmedida, é essa força infinita, é esse amor imenso.

Presto aqui, então, minha modesta homenagem à fibra dessas mães, sua coragem, seu amor infinito e incondicional. E como, às vezes, a mãe que dá amor e batalha por nós não é a mãe em si, mas sim a avó, a tia, a irmã, o pai… essa homenagem se estende também a elas.

Para todas as mães que querem um mundo melhor para os seus filhos, e também o melhor de seus filhos para o mundo, um feliz dia das mães!

E para a minha mãe, um beijo especial com muito amor. Amor de filha também é infinito!


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:52 PM Comments:
Sábado, Maio 05, 2012



06 de maio de 2012 | N° 17061
MARTHA MEDEIROS


O dinheiro que grita

Todo mundo quer ter dinheiro e não há nada de errado com isso, desde que seja conquistado por mérito próprio, sem roubar de ninguém tampouco do município, do Estado e da nação.

Dinheiro limpo é bem-vindo: nos proporciona viagens, prazeres, conforto, cultura, saúde. Saúde não apenas física, mas mental, e não estou falando do fato de poder pagar um analista se for preciso, mas da tranquilidade de não ter dívidas. Uma pessoa sem dívidas dorme melhor, pensa melhor, respira melhor.

Além de limpo e honesto, dinheiro bom é dinheiro silencioso. Que não se exibe, não se pavoneia, não aponta para si próprio dizendo: olhem eu aqui! Conheço milionários que tem com o dinheiro uma relação discreta. Claro que moram bem, viajam, possuem um bom carro, mas não ostentam, não botam seu dinheiro no sol para brilhar e ofuscar os outros. O dinheiro tem que ser elegante como o seu dono. Ninguém precisa lidar com o dinheiro como se fosse um bicheiro.

Mas é como muitos lidam. Mesmo não abrindo a camisa para mostrar suas correntes douradas nem transitando em limusines, ainda assim há quem não se importe que seu dinheiro grite – aliás, até fazem questão de ter um dinheiro bem marqueteiro.

São mulheres que colocam todas as joias que possuem para ir a uma festa, usam bolsas com monogramas gigantes, instalam chafarizes nas piscinas e compram os dias de folga dos empregados porque não toleram a ideia de irem até a cozinha buscar seu próprio copo d´água num domingo.

Homens que andam em carros que valem uma cobertura, pets que vestem Prada, vinhos que são escolhidos pelo preço e namoradas idem, que amor verdadeiro é coisa de pobre.

O rico que esnoba pessoas humildes tem um dinheiro que grita. O rico que trata a todos com respeito e gentileza, tem um dinheiro silencioso.

O rico que só gasta com grifes, tem um dinheiro que grita. O rico que investe também no que é popular (e valoriza uma pechincha, por que não?) tem um dinheiro silencioso.

O rico que perdeu o prazer de apreciar as coisas gratuitas da vida, tem um dinheiro que grita. O rico que não perdeu a conexão com aquilo que lhe dava prazer quando não era tão rico, tem um dinheiro silencioso.

Quem dificulta o acesso a si mesmo através de um sem número de assessores, guarda-costas, secretários, agentes e demais bloqueadores humanos, tem um dinheiro que grita. Quem segue disponível pro afeto, tem um dinheiro silencioso.

Costuma-se diferenciar um do outro dizendo que um é o novo rico, e o outro, o rico de berço. Pode ser. Quem nunca teve, se deslumbra. Reconheço que é muito bom viver bem e poder pagar as próprias contas, tenham elas quantos dígitos tiverem. Mas dinheiro deveria ser educado da mesma forma que um filho: nunca permita que ele seja insolente e ruidoso.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 3:44 PM Comments:
Sábado, Abril 21, 2012



22 de abril de 2012 | N° 17047
MARTHA MEDEIROS


A capacidade de se encantar

Muita gente diz que adora viajar, mas depois que volta só recorda das coisas que deram errado. Sendo viajar um convite ao imprevisto, lógico que algumas coisas darão errado, faz parte do pacote.

Desde coisas ingratas, como a perda de uma conexão ou ter a mala extraviada, até xaropices menos relevantes, como ficar na última fila da plateia do musical ou um garçom mal-humorado não entender o seu pedido. Ainda assim, abra bem os olhos e veja onde você está: em Fernando de Noronha, em Paris, em Honolulu, em Mykonos. Poderia ser pior, não poderia?

Outro dia uma amiga que já deu a volta ao mundo uma dezena de vezes comentou que lamentava ver alguns viajantes tão blasés diante de situações que costumam maravilhar a todos.

São os que fazem um safári na Namíbia e estão mais preocupados com os mosquitos do que em admirar a paisagem, ou que estão à beira do mar numa praia da Tailândia e não se conformam de ter esquecido no hotel a nécessaire com os medicamentos, ou que não saboreiam um prato espetacular porque estão ocupados calculando quanto terão que deixar de gorjeta.

Não saboreiam nada, aliás. Estão diante das geleiras da Patagônia e não refletem sobre a imponência da natureza, estão sentados num café em Milão e não percebem a elegância dos transeuntes, entram numa gôndola em Veneza e passam o trajeto brigando contra a máquina fotográfica que emperrou, visitam Ouro Preto e não se emocionam com o tesouro da arquitetura barroca – mas se queixam das ladeiras, claro.

Vão à Provence e torcem o nariz para o cheiro dos queijos, olham para o céu estrelado do Atacama sofrendo com o excesso de silêncio, vão para Trancoso e reclamam de não ter onde usar salto alto, vão para a Índia sem informação alguma e aí estranham o gosto esquisito daquele hambúrguer: ué, não é carne de vaca, bem? Aliás, viajar sem estar minimamente informado sobre o destino escolhido é bem parecido com não ir.

Estão assistindo a um show de música no Central Park, mas não tiram o olho do iPad. Vão ao Rio, mas têm medo de ir à Lapa. Estão em Buenos Aires, mas nem pensar em prestigiar o tango – “programa de velho!” São os que olham tudo de cima, julgando, depreciando, como se o fato de se entregar ao local visitado fosse uma espécie de servilismo – típico daqueles que têm vergonha de serem turistas.

É muito bacana passar um longo tempo numa cidade estrangeira e adquirir hábitos comuns aos nativos para se sentir mais próximo da cultura local, mas quem pode fazer essas imersões com frequência? Na maior parte das vezes, somos turistas mesmo: estamos com um pé lá e outro cá. Então, estando lá, que nos rendamos ao inesperado, ao sublime, ao belo. Nada adianta levar o corpo pra passear se a alma não sai de casa.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 5:41 PM Comments:




22 de abril de 2012 | N° 17047
OUSADIA


Periguete do horário nobre

Maria-chuteira do subúrbio, a personagem Suelen diverte sua intérprete, Ísis Valverde, em “Avenida Brasil”

Aprimeira personagem da carreira de Ísis Valverde não queria sequer mostrar o rosto. Já a atual não se esconde e mostra tudo. Desde a misteriosa Ana do Véu, sua estreia na TV, no remake de Sinhá Moça (2006), os demais papéis interpretados pela mineira foram uma espécie de preparação para o atual trabalho. Suelen, a periguete de Avenida Brasil, parece uma combinação de mulheres sensuais já vividas por Ísis na TV.

Em 2007, ela interpretou a garota de programa Telma em Paraíso Tropical. Um ano depois, viveu a espevitada manicure Rakelli em Beleza Pura. Safadérrima, Suelen é a versão maldosa e picareta de ambas. Em cenas que vão ao ar esta semana, ela irá apanhar do ex-cafetão, que vai até o Baile Charme, no bairro do Divino, cobrar uma antiga dívida. Ou seja, a facilidade que a moça tem de tirar a roupa vem do passado.

Atualmente, o objetivo de Suelen é continuar transando para obter favores e vantagens: a biscate está cercando o jogador Iran (Bruno Gissoni), atleta do Divino Futebol Clube.

Enquanto não se aquieta, a suburbana já se deitou com o patrão (Diógenes, vivido por Otávio Augusto, em cenas para lá de engraçadas) e anda usando o apaixonado Leandro (Thiago Martins). A periguete deixa claro que, embora Leandro seja gostoso, é pobre – e de pobre basta ela.

Após transar com a morena, o jogador foi só elogios:

– Garota, tu não é de brincadeira. Coisa de campeão!

Outro que já caiu na cama com a bela, entre um anúncio e outro de promoções de roupas na calçada da frente da loja A Elegância, foi o rapper Darkson (José Loreto). Só Roniquito (Daniel Rocha), homossexual no armário, não vê nada além do mau caráter da colega vendedora.

O azar do filho do patrão, porém, não acaba tão cedo. Nos capítulos mais recentes, sem dinheiro para pagar o aluguel, a periguete foi despejada e pediu abrigo a Diógenes. O comerciante concordou com a presença da moça em sua casa, até porque ela prometeu fazer comida para o trio. Mas a presença da morena na casa é promessa de sedução pura. Pobre Leandro.

– Suelen tem a libido um pouco acima do normal. Ela vive várias situações que podem desagradar a algumas pessoas, mas vão fazer outras darem gargalhadas – diverte-se Ísis.

O único cara com quem a moça faz sexo sem muitas segundas intenções é Iran (Bruno Gissoni). Com o rapaz, Suelen reforça sua vocação de maria-chuteira. Fará de tudo para conquistar o jogador.

No capítulo de sexta-feira, por exemplo, a interesseira descobriu que o jogador iria sair com Olenka e resolveu atrapalhar os planos de ambos. Foi ao motel onde o casal marcou um encontro e se enfiou nua sob os lençóis. Olenka entrou no quarto e armou um barraco. Iran saiu do banho, Olenka foi embora e o jogador caiu na lábia de Suelen: acabou indo para a cama com a vendedora de roupas.

– O que eu acho mais bacana é ela ser um personagem politicamente incorreto, mas ao mesmo tempo uma mulher decidida – opina Ísis sobre o sucesso da personagem.

A atriz conta ainda como o corpão da periguete, sempre exposto, foi esculpido: dieta básica e musculação pesada. Discreta fora da ficção, porém, Ísis diz que não pretende expor as curvas em revistas masculinas. A Playboy anda tentando: foi divulgado que a publicação daria até R$ 1,5 milhão para ter a mineira em sua capa, o que seria um dos cachês mais altos já pagos.

– Com a minha nova personagem, sei que o público masculino aumentou. Mas não vou posar nua. Jamais – afirma a atriz de 25 anos.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 5:40 PM Comments:




22 de abril de 2012 | N° 17047
VERISSIMO


A fonte

Lembro que fiquei emocionado quando li que tinham localizado a nascente do rio Amazonas. Quem sabe por que nos emocionamos? Tem gente que chora em largada de rali, ou vendo comercial de talco para criança, e depois não sabe explicar por quê.

Não havia nada de emocionante na notícia que li, mas me comoveu, por alguma razão. Nada mudou na natureza do rio e na nossa percepção dele com aquela nova informação, por assim dizer, biográfica. Todos os rios nascem em algum lugar, por que o nascedouro do Amazonas despertaria aquela pieguice? Mas sei lá, me comovi.

Exploradores da National Geographic Society tinham descoberto que o Amazonas começa como pingos de uma geleira do Nevado Mismi, uma montanha no Peru.

O filete de água que escorre pela parede rochosa do Nevado Mismi é o ponto mais distante da foz do Amazonas, lá no Atlântico, na bacia de rios andinos que se juntam para formar o rio maior. No pingo já está a pororoca. No nosso começo está o nosso fim, como disse o poeta, não me pergunte qual.

Rios são metáforas fortes: de vida que passa e ao mesmo tempo fica, de tempo que se esvai e nunca termina, do passageiro e do eterno. “Essa água que não para, de longas beiras” (Guimarães Rosa em A Terceira Margem do Rio). Suas nascentes são metáforas mais obscuras: do começo e da razão profunda de tudo. Do primeiro mistério.

Durante muito tempo a localização da nascente do Nilo foi um desafio para exploradores europeus. Sua busca, em contraste com o desinteresse dos nativos, para os quais a origem do rio era obviamente um dadivoso deus das águas, simbolizou o domínio do pensamento colonizador científico sobre uma cultura mágica.

Joseph Conrad foi buscar na vertente podre do Congo, no coração escuro da floresta, uma representação do manancial de loucura e maldade da espécie, nossa danação no nosso começo.

Rios, no fim – ou no começo – simbolizam o que a gente quiser. A goteira do Nevado Mismi representa o que? Talvez a única oportunidade de se olhar o Amazonas como algo amável, e manejável. Depois ele cresce, fica poderoso e incompreensível, e quando entra no Brasil já ficou demais. Simbolizando nossa histórica dificuldade em saber o que fazer com tanta natureza.

De novo Guimarães Rosa:

“Só na foz dos rios é que se ouvem os murmúrios de todas as fontes”.

Isso também: o rio vai acumulando ruídos desde o seu nascer silencioso, sua fonte só fará barulho quando ele se despejar no mar. O filete de água que que escorre pela parede do Nevado Mismi já é estrondoso.

Só lhe falta história para ser ouvido.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 5:40 PM Comments:
Domingo, Abril 15, 2012


JOHN GAPPER

O Facebook tem medo da internet

O Yahoo!, de 1994, levou 18 anos para chegar à situação atual; o Facebook terá
sorte se durar tanto tempo

Não admira que Mark Zuckerberg tenha se comportado de modo tão defensivo na semana passada. Enquanto pagava US$ 1 bilhão para eliminar a ameaça que o Instagram representava para o Facebook, antigos gigantes da web passavam por momentos de humilhação.

O Yahoo!, que revelou mais um plano de reorganização, e a AOL, que vendeu 800 patentes à Microsoft por US$ 1,1 bilhão, estão sob ataque dos fundos de hedge. As duas companhias têm valor de mercado equivalente a apenas uma fração do que atingiram durante a bolha de internet dos anos 1990.

O Vale do Silício foi sempre competitivo, mas as barreiras para o ingresso no boom das redes sociais, em seu estágio atual, são tão baixas, e o capital, tão abundante, que o processo de destruição criativa agora ocorre em ritmo acelerado. Se o Facebook, a caminho de lançar sua oferta pública inicial de ações, pagou US$ 1 bilhão para neutralizar o Instagram, qual será o valor do Pinterest, do Path e de outros serviços que ainda estão por ser inventados?

Porque o Instagram tem receita zero, é impossível determinar em que medida Zuckerberg exagerou na oferta por um único aplicativo, que tem roubado usuários ao Facebook.

Sabemos o que ele teme -repetir o destino de muitas empresas de internet voltadas ao consumidor (entre as quais redes sociais como a Bebo, adquirida pela AOL em 2008 por US$ 850 milhões e vendida no ano passado por US$ 10 milhões). Elas podem ganhar milhões de usuários e conquistar imensos valores de mercado repentinamente -e implodir de maneira igualmente súbita.

O mais notável sobre a transação entre o Facebook e o Instagram é que a mudança de rumo tenha acontecido tão rápido. Em geral, uma empresa precisa estar operando como companhia de capital aberto há ao menos um ou dois anos e sofrer pressão de investidores para que comece a pensar defensivamente a adquirir concorrentes nascentes.

Depois, tem de decidir se vai integrar a nova aquisição às suas demais operações, o que acarreta o risco de arruinar a nova propriedade, ou se vai mantê-la separada.

O Instagram caminhava para ser o maior serviço on-line de fotografia, o que ameaçava o domínio do Facebook sobre a veiculação de fotos, mas Zuckerberg não poderá simplesmente absorver a companhia.

"Trata-se de um marco importante para o Facebook porque pela primeira vez adquirimos um produto e empresa com tantos usuários. Não é algo que planejemos repetir muitas vezes", prometeu. Mas o que acontecerá quando uma nova companhia iniciante começar a atrair a atenção dos usuários do Facebook?

Já existem alguns exemplos, como o Path, rede social móvel para o iPhone e o Android; e o Pinterest, um site de fotos cujo foco é a moda.

Qualquer empresa de tecnologia que planeje permanecer no mercado precisa da capacidade de se defender via aquisições. Mas o fato de que o Facebook tenha feito isso antes de amadurecer revela algo de preocupante quanto à internet.

A combinação de barreiras baixas à entrada, distribuição digital, companhias de capital para empreendimentos ávidas por investir, engenheiros de software ambiciosos e a oportunidade de ganhar bilhões geraram um ambiente de hipercompetição.

Mas nenhuma companhia está segura. Warren Buffett é famoso por sua aversão a investir em tecnologia, porque esse tipo de investimento é imprevisível. Os serviços ao consumidor na internet contam com as muralhas mais fáceis de derrubar.

A proteção do Facebook é o efeito de rede propiciado por seus milhões e milhões de usuários, mas a ascensão do Instagram e a derrocada do MySpace e de outros serviços demonstram o quanto isso é frágil.

Zuckerberg tem evitado, até o momento, as armadilhas ao conduzir a ascensão de sua empresa com inteligência, recuando de seus erros com rapidez suficiente para não alienar os usuários. Mas o crescimento do Facebook se desacelerou nos EUA e parece claro que ele começou a se preocupar com as ameaças ao domínio de sua empresa.

O Instagram era uma, mas há outras. A internet tem o desagradável hábito de consumir suas empresas maduras -o Yahoo!, fundado em 1994, demorou 18 anos para chegar à sua situação atual. O Facebook terá sorte se durar tanto tempo.

JOHN GAPPER é editor-associado e colunista do "Financial Times", jornal em que este artigo foi publicado originalmente - Tradução de PAULO MIGLIACCI


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:51 AM Comments:



DANUZA LEÃO

Ficha limpa no amor

A partir de poucos dados você abre sua vida, achando que a chegada do amor dispensa qualquer cautela

Quando você vai comprar um carro usado, chama um mecânico de confiança para dar uma geral e ver se ele está em boas condições; se se trata de um apartamento, procura conversar com os porteiros, saber se existem problemas no prédio, se a paz reina entre os moradores, e quando vai contratar uma doméstica, além de exigir que tenha carteira de trabalho, ainda telefona aos últimos empregos para indagar detalhes, tipo se tem bom gênio, se é cuidadosa, honesta, asseada, e a última, clássica:

E "por que ela saiu de sua casa?". Perguntas, vamos admitir, da maior indiscrição, mas perfeitamente cabíveis; afinal, é alguém que você não conhece e com quem vai conviver.

Aí um dia você acha graça em um homem e deixa que ele não só entre em sua casa como se instale em sua cama e em seu coração. Não sabe bem de quem se trata -ele passou dois anos na Europa, fazendo um vago curso de cinema-, mas, pela maneira como se veste, pelos amigos que tem e as simpatias pelo mesmo partido politico, só pode ser gente fina.

A partir desses dados, abre para ele sua vida, achando que a chegada do amor é um tal acontecimento que dispensa qualquer cautela.

Quanto aos homens, a situação também é grave; se ela é gostosa, segundo o padrão particular de cada um, é o que basta -e depois reclamam.

Mas um belo dia cada um começa a se mostrar como é, e nesse ponto as mulheres, mais dissimuladas que os homens, oferecem uma surpresa por minuto.

Aquela que era tão doce, suave, bem-humorada e resolvida escondeu o que verdadeiramente é: dominadora, prepotente e ciumenta. No começo, ele acha graça e até gosta de ter uma mulher tão apaixonada que tem ciúmes. Mas um dia, numa festa, quando ele está conversando com um amigo e os dois sérios, ela imagina que estão falando de mulher; se estão às gargalhadas, devem estar falando de mulher também, claro.

Em qualquer dos casos, as consequências podem ser dramáticas: se ela chega e diz "que engraçado, na hora em que eu chego o assunto acaba" ou "de que vocês estavam rindo?" -e eles estavam falando de mulher, claro-, o normal é ela ficar emburrada e voltar para casa sem dizer uma palavra. E quem aguenta uma mulher assim?

E ele? Por mais charmoso que seja, quando se conheceram estava sem emprego, dormindo na casa de um amigo -por uns tempos. Foi, aos poucos, se instalando naquele apartamento tão simpático, com aquela mulher que é um doce.

Como trabalhar não é seu forte e cinema é uma profissão delicada, continuam assim por meses; afinal, estão se dando bem, ele vai ao supermercado, faz uma massinha quando ela chega do trabalho (ela, que é carente, finge que não percebe e esquece sempre um dinheirinho no cinzeiro). Afinal, ficar sem emprego acontece com qualquer um e, como é uma situação temporária, pra que mudar as coisas?

Por tudo isso e muito mais, antes de começar um namoro cada um dos interessados tem o direito, ou melhor, a obrigação de procurar saber como foi com os ex do outro, as qualidades e os defeitos -e sobretudo, como foi a separação-, para avaliar se vai valer a pena o investimento emocional.

Mas talvez seja melhor não; se isso acontecesse, acabariam os casais neste mundo.

O jeito é mesmo correr o risco.

danuza.leao@uol.com.br


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ELIANE CANTANHÊDE

De volta ao futuro

BRASÍLIA - Para os céticos, o saldo visível da ida de Dilma Rousseff aos Estados Unidos limitou-se à certificação da cachaça brasileira e à criação de dois novos consulados em solo pátrio. Cá pra nós, muito pouco. Para isso, bastaria um encontro dos embaixadores ali na esquina.

Como dito aqui, porém, a importância da visita a Washington está menos no que foi dito e mais no que não foi dito, ou melhor, está no que foi dito diretamente entre Dilma e Barack Obama. E nas possibilidades abertas na economia, no intercâmbio, na cooperação, sobretudo nas áreas de energia e defesa.

Os temas mais espinhosos da política internacional foram claramente discutidos, mas deixados para Hillary Clinton e Antônio Patriota destrincharem em Brasília amanhã, alheios ao clima de CPI do Cachoeira e de guerra política interna.

Aos dois cabe ajustar um pouco mais as visões desfocadas sobre o Irã. Brasil e Turquia mediaram o fracassado acordo com o Irã, mas um foi excluído e se autoexcluiu da nova rodada, ontem, em Istambul, enquanto o outro é o anfitrião. Não será surpresa de Hillary e Patriota recolocarem o Brasil em algum lugar dessa história.

Já quanto a Síria, não tem muito jeito. Não tem lente que dê jeito, pois os dois países acham a situação grave, mas os Estados Unidos insistem em derrubar Al Assad, e o Brasil não quer saber de "interferência em assuntos internos".

No dia 24, chega o secretário de Defesa, Leon Panetta, para mergulhar nesse oceano de oportunidades do emergente Brasil, com renovação de caças, submarinos, navios e todo um sistema bilionário de vigilância de fronteiras terrestres e marítimas.

Dilma apoiou a reeleição de Obama não por ato falho, mas ostensivamente. E por um motivo cristalino: os dois países e seus atuais presidentes têm interesses crescentes e muito trabalho conjunto pela frente. Apesar das divergências.

elianec@uol.com.br


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CARLOS HEITOR CONY

Um julgamento histórico

RIO DE JANEIRO - Voltou ao debate nacional o problema que coloca na berlinda um tema que envolve religião e Estado. Não mais se trata do aborto em si, que frequentou a última campanha eleitoral.

Desta vez, foi o caso dos anencéfalos (crianças que nascem sem cérebro), que não deixa de ser uma forma de aborto que pode ser diagnosticada pelo atual estágio da investigação médica.

Como sempre, apesar de reconhecerem que o Estado é leigo, os religiosos em geral são contrários a qualquer tipo de interrupção da gravidez -método considerado agressivo da condição humana, equivalente à esterilização obrigatória adotada por regimes fascistas, em especial pelos nazistas até o final da Segunda Guerra Mundial.

Aliás, foi um dos crimes que entrou na pauta do julgamento de Nuremberg, que condenou as principais autoridades do Terceiro Reich, em especial o marechal Hermann Goering, o segundo homem na hierarquia hitlerista.

Contudo o seu advogado de defesa, Otto Stahmer, pediu que o presidente do tribunal lesse em voz alta um artigo da Constituição do Estado da Virgínia (EUA), bem anterior à lei da esterilização obrigatória de portadores de deficiência física ou mental, adotada pelos nazistas.

Com diferença de algumas palavras, era a mesma coisa. Isso não livraria os acusados da forca ou da prisão, mas foi água fria na acusação relativa àquele crime específico.

Sobravam muitas outras aberrações para condenar Goering e seus colegas no banco dos réus (ver biografia do marechal do Reich, de Roger Manvell e Heinrich Fraenkel, ou o filme "Julgamento em Nuremberg", 1961, de Stanley Kramer, com Spencer Tracy no papel do juiz).

Estou citando esse caso histórico -e, de certa forma, recente- para lembrar que o aborto pode e tem variantes que, no todo ou em parte, o justificam.


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Sábado, Março 31, 2012



01 de abril de 2012 | N° 17026
VERISSIMO


Contículos

Uma porta bateu no fundo da casa, acordando a velha que cochilava na sua cadeira de balanço.

– Que foi isso? – perguntou a velha.

– Foi o vento, vovó.

A velha fechou os olhos outra vez e resmungou:

– Mal-educado.

O herói

Grande alvoroço em Tenente Abreu. Dera no jornal: filho da cidade ferido no Afeganistão. Tenenteabreusense atingido por uma bala no pé. Quem era e o que estava fazendo no Afeganistão? Ninguém sabia. Chegou uma equipe da Globo na cidade para entrevistar parentes e amigos, talvez antigas namoradas, do brasileiro ferido.

Não encontrou ninguém que se lembrasse dele. Não seria o filho do barbeiro, aquele que emigrara para os Estados Unidos? Ele talvez tivesse se alistado no exército americano. O próprio barbeiro negou.

Seu filho Jorge trabalhava numa pizzaria em Nova York e nunca chegaria perto do Afeganistão. Foram procurar no registro de nascimentos. Lá estavam o nome dele – Jorge Souza Alvarenga – e do pai, Pedro, e da mãe, Dulce.

Mas ninguém se lembrava nem do pai nem da mãe. Havia um Pedro Alvarenga na cidade mas este nunca se casara e suspeitava-se até que fosse um pouco gay. Começaram a surgir rumores. Jorge e sua família teriam saído de Tenente Abreu quando ele ainda era criança.

Jorge se ferira numa ação heroica e seria condecorado pelos americanos. Jorge era casado com uma americana, possivelmente uma modelo. Alguns já especulavam sobre como seriam a mulher e os filhos do herói, todos loiros.

O noticiário do Afeganistão não ajudava. Dava poucos detalhes sobre o ocorrido. Só dizia que Jorge perdera o pé, estava bem mas continuava hospitalizado. Nasceu um movimento na cidade: trazer Jorge para Tenente Abreu. Se não como uma volta à casa, como uma passagem triunfal pela sua cidade natal.

Um desfile em carro aberto pela Voluntários da Pátria, com a mulher e os filhos loiros, exibindo a sua medalha, seguido de uma recepção na prefeitura. Houve até quem sugerisse que se mudasse o nome da cidade, de Tenente Abreu para Jorge Alvarenga. Ou, se por uma feliz coincidência o grau militar fosse o mesmo, Tenente Alvarenga.

Foi quando o Jornal Nacional deu que Jorge fora ferido longe da frente de batalha, numa ação policial contra o trafico de drogas. Ele estava no Afeganistão comprando ópio e sairia do hospital direto para a prisão.

Grande frustração em Tenente Abreu. Mas nas rodas de conversa em frente ao Café Novo, o mais antigo da cidade, as opiniões se dividiam. Uma facção achava que as homenagens ao Jorge deveriam ser mantidas, mesmo sem a sua presença. Bem ou mal, ele botara o nome da cidade no noticiário internacional. Viera até a TV Globo!

– E afinal – disse um – alguém sabe quem foi o Tenente Abreu?

Ninguém sabia.

Salada de chuchu

Marília disse a João:

– Tô indo.

– Como, “tô indo”?

– Cansei, João. Entendeu? Cansei.

– Mas Marília, logo hoje, dia de rabada com nhoque?

– Para estas coisas não se escolhe dia.

– Marilhinha...

– Tem salada de chuchu na geladeira. Tchau.

Tenente Abreu nunca mais seria a mesma depois da chegada de Jorge à cidade.


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01 de abril de 2012 | N° 17026
MARTHA MEDEIROS


O macacão branco

Quem de nós pode vestir um modelo decotado na frente e nas costas, colado ao corpo, sem antes passar por uma lipoescultura?

Sejamos honestas, colegas de trabalho: quem de nós pode vestir um macacão branco decotado na frente e nas costas, colado ao corpo, sem antes passar por uma lipoescultura, uma sessão de bronzeamento e ficar duas semanas sem comer? Resposta no final dessa coluna.

Não teria adjetivos suficientes para comentar o show que Maria Rita fez no Anfiteatro Pôr do sol , semana passada, cantando músicas da sua mãe, Elis Regina. O espetáculo foi perfeito do início ao fim, e São Pedro ainda deu uma canja, oferecendo um entardecer de cinema, com direito a uma lasca de lua, céu estrelado e brisa suave. Se Elis não fosse gaúcha, teria se naturalizado naquele instante, em algum cartório no céu.

Mas voltemos a Maria Rita. Toda de branco, ela entrou no palco com uma túnica diáfana que ia até os pés: praticamente um anjo de bons modos. Até que, quatro ou cinco músicas depois do início do show, ela retirou a túnica e ficou só de macacão branco decotado, com as costas de fora, colado no corpo. Pensei: é peituda essa mulher.

Peituda porque, além de peito, Maria Rita tem coxa, tem bunda, tem barriguinha, tem sustância, tem o corpo da brasileira típica, que passa longe das esquálidas das revistas, das ossudas das passarelas. A numeração de Maria Rita não é 36, mas vestiu aquele macacão branco como se fosse.

Quaquaraquáquá, quem riu? Quaquaraquáquá, foi ela. Cantando Vou Deitar e Rolar e outros tantos hits da sua talentosa progenitora, Maria Rita rebolou, sambou, jogou charme, braço pra cima, braço pro lado, ajeitadinha no cabelo, caras e bocas, dona e senhora do pedaço e com o namorado bonitão (Davi Moraes, na guitarra) ali na retaguarda, babando – se não estava, deveria.

Porque Maria Rita, além de cantar divinamente, mostrava 100% seu lado fêmea, segura e incomparável. Que nem as modelos de revista? Quaquaraquaquá. Muito melhor.

Fiquei pensando depois: como mulher se preocupa com besteira. Usa roupa preta pra afinar, veste bermudas compressoras pra chapar a barriga, manga pra esconder os braços roliços, e mais isso, e aquilo, quando o maior segredo de beleza consta do seguinte: sinta-se num palco, mesmo que nunca tenha chegado perto de um.

Imagine-se com 60 mil pessoas te aplaudindo, te admirando pelo que você faz, pelo que você é, imagine-se com o público na mão, pois você é competente e tem uma elegância natural (tem, né?).

Conscientize-se de que sua inteligência é superior às suas medidas, que ser magrinha não atrai amor instantâneo, que sua personalidade é um cartão de visitas, que a felicidade é a melhor maquiagem, que ser leve é que emagrece.

E dá-se a mágica.

Quem de nós pode vestir um macacão branco decotado na frente e nas costas, colado ao corpo, sem antes passar por uma lipoescultura, uma sessão de bronzeamento e ficar duas semanas sem comer? Qualquer uma de nós, ora.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:02 PM Comments:
Quarta-feira, Março 21, 2012



21 de março de 2012 | N° 17015
MARTHA MEDEIROS


Burrocracia

Recebi convite para participar de um evento literário em João Pessoa. Já quase não viajo a trabalho, preciso ficar mais tempo no meu escritório, mas respondi que, dependendo da data, talvez conseguisse ir. Foi então que me chegou uma lista de documentos que eu deveria providenciar para viabilizar minha participação.

Não acreditei. Nem para um ex-presidiário acusado de desfalque do Banco Central exigiriam tamanha quantidade de certificados de idoneidade moral e financeira. Eu teria que passar uma semana percorrendo cartórios e contratar um ou dois advogados. Muito grata, mas fica pra próxima.

Nunca vi um país se entravar tanto. Nada avança em ritmo razoável. As incensadas obras prometidas para a Copa do Mundo são apenas um exemplo. Afora maledicências, pilantragens e disputas de poder, ainda temos a questão da papelada: é 1 milhão de pareceres, assinaturas, carimbos e rubricas que impedem o andar da carruagem. Pois é, ainda estamos nos tempos da carruagem, trotando.

Durante a enxurrada que desabou sobre Porto Alegre, semana passada, tivemos mais do mesmo: ruas alagadas nos pontos de sempre. Ok, o asfalto não absorve a água, o lixo é jogado em locais impróprios e choveu o esperado para o mês inteiro. Mas não há pessoas dentro das secretarias de governo sendo pagas para resolver os problemas da cidade?

Vai chover de novo, e forte. E os carros ficarão boiando, poucos conseguirão chegar ao trabalho, o comércio terá que fechar, moradores perderão seus móveis, grávidas terão que ser retiradas de barco de dentro de suas casas. É um déjà vu recorrente.

Como não imagino que haja almas satânicas por trás da nossa administração, só posso pensar que a burocracia tem algo a ver com isso. Quantos estudos, laudos, aprovações, orçamentos, prazos remarcados, projetos refeitos serão necessários para resolver nossas pendências? É o país da novela, de fato.

Fizemos progresso na emissão de documentos pessoais – hoje se pode tirar uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade sem trâmites e demoras, mas ainda falta, como falta, para a gente ser uma nação que flui. A expressão “é pra ontem”, que configura a pressa, passou a ser literal. Não conseguimos sair do ontem e entrar no amanhã.

Os reféns da burocracia se defendem dizendo que não é culpa deles, exige-se o cumprimento da lei, e estão certos, senão vira bagunça. Mas alguém lá em cima, com a caneta na mão, tem o dever de promover mais agilidade nesse Brasil que só é rápido na informalidade. Há que se encontrar um meio de trabalhar de forma legal e ao mesmo tempo atender as demandas em prazo de país desenvolvido, que é o que almejamos ser.

O que é preciso para promover a desburocratização? Claro, uns 3.479 estudos de viabilidade. Pocotó, pocotó.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 8:19 AM Comments:
Sábado, Março 17, 2012



18 de março de 2012
Martha Medeiros


Inimigos de Classe

Quando vai chegando a data do aniversário de Porto Alegre (26 de março próximo), começam as enquetes: o que há de bom na nossa cidade, o que temos que as outras não têm? Respondo: Luciano Alabarse.

Afora seu mérito como organizador de um dos maiores festivais de teatro do país, o Em Cena, que traz anualmente grandes nomes internacionais para os palcos gaúchos, além de uma seleção caprichada do que de melhor se faz na dramaturgia nacional e local, Luciano é, em essência, um senhor diretor.

E mais uma vez prova isso com seu recente espetáculo, Inimigos de Classe, que esteve em cartaz no Theatro São Pedro e que merece longa temporada. A peça, escrita pelo dramaturgo inglês William Nigel, e que estreou em 1978, traz uma temática que, aparentemente, é rançosa (a delinquência nas escolas), mas que segue atual, basta lermos os jornais.

No caso da peça, Inimigos de classe seis alunos da periferia de uma grande cidade acabaram de expulsar uma professora da sala e aguardam um substituto que tenha peito para enfrentá-los. Enquanto esse professor não chega, resolvem eles próprios dar aula uns para os outros.

É nesses momentos performáticos, quando se transmutam em “mestres”, que revelam sua violência e fragilidade simultâneas, além de dar as pistas para que entendamos que eles não tiveram muitas opções, a não ser se refugiar na marginalidade. O que diferencia essa peça de filmes clássicos como Ao Mestre com Carinho e menos clássicos como Mentes Perigosas é que não há figura do herói, o professor que resgatará a garotada e os conduzirá a um final feliz.

Os seis alunos não possuem essa boia salva-vidas. Eles precisam buscar em si mesmos os recursos para escapar da desesperança. Ninguém vai me conhecer, mínguem vai me conhecer!”, grita em surto, o personagem principal, Ferro, o mais destemido de todos, dando bandeira da dor e do medo que sente em sua solidão existencial. Ele e os demais colegas são frutos de lares desestruturados e problemáticos.

Só atingem um simulacro de segurança quando exacerbam uma virilidade patética e ao mesmo tempo brutal. Claro, ninguém pode conhecer seus gostos, suas carências, seu desespero íntimo: seria a revelação de uma fraqueza e de uma humanidade que eles na permitem eu venha à tona.

Mas que cedo ou tarde virá. Luciano Alabarse é o maestro dessa orquestra. Em quase duas horas de encenação, rege uma coreografia fascinante no palco, que é valorizada pelo cenário, pelo figurino, pela luz e pela espetacular trilha sonora que resgata TomWaits em seu auge. E os seis atores em cena não devem nada a medalhões – entregam o prometido:almas inquietas vivendo nas frestas.

Peças de entretenimento possuem seu espaço e são bem-vindas, mas dramaturgia é outra coisa. É sangue, suor, estupor, desconforto. Dessa matéria, Inimigos de Classe entende tudo.


Publicado por: DILSON JANIR DRUNN, às 6:18 PM Comments: